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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

O Espelho e o Esvaziamento do Ser

Na ficção ocidental o vampiro não aparece no espelho. Isso é característico da morfologia do vampiro tal como o conhecemos hoje, uma particularidade que remonta ao mitologema estabelecido pela literatura europeia do século XIX. Bram Stoker (1845-1912) não julgou necessário oferecer nenhuma explicação sobre o motivo do Conde Drácula não possuir reflexo. Simplesmente, o personagem Jonathan Harker constata a ausência de espelhos no castelo de seu freguês, pega um pequenino que trouxe consigo e faz a espantosa descoberta quando o ser preternatural adentra o recinto: “O conde se encontrava bem perto de mim e eu o via distintamente por cima do meu ombro. Entretanto... não havia o menor traço de sua presença no espelho! Tudo o mais que existia no meu dormitório estava refletido com absoluta nitidez”.[1]

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A cena foi adaptada e multiplicada nas inúmeras versões para cinema desde o clássico de 1931. Cenas pitorescas marcaram época, tais como o salão vazio de The Fearless Vampire Killes (Inglaterra/ França, 1967) e o levitar de Cindy Sondheim (Saint James), erguida por Drácula (George Hamilton) em Love at First Bite (EUA, 1979).

Em The Lost Boys (EUA, 1987) existe a categoria half-vampire composta por pessoas que iniciaram a transformação bebendo duma garrafa contendo traços de sangue de David (Kiefer Shuterland), um vampiro verdadeiro. Enquanto essas pessoas não se alimentam de sangue humano a transformação não se completa e a condição vampírica pode ser revertida com a morte do chefe do clã, que neste caso é Max (Edward Herrmann). Curiosamente o próprio Max refletiu num espelho na ocasião em que foi submetido a um teste, algo que viria a explicar mais tarde: “Jamais convide um vampiro para entrar em sua casa. Isto o deixará sem poder”.

Numa cena icônica vemos no espelho o reflexo da mão do jovem humano Sam Emerson (Corey Haim) movendo-se por trás do reflexo transparente de seu irmão Michael (Jason Patric), em processo de transformação. Isso significa que, na ficção de Joel Schumacher, até o neto do proprietário da casa necessita ser novamente convidado a entrar no lar onde vive em comodato, se quiser se ver refletido em um espelho.

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O Drácula (1887) de Bram Stoker é contemporâneo ao pouco conhecido conto lusitano O Estrangeiro Vampiro (1887) de Gomes Leal onde uma nobreza monstruosa apresenta reflexos distorcidos. Neste caso os espelhos traduzem a hediondez do caráter em valores estéticos. No epílogo há um episódio de quebra da quarta parede de Bertolt Brecht onde o autor aparece como personagem põe à prova toda a corte de Don Carlos I afim de demonstrar que lá mesmo, no salão de festas do imperador, “existirão vampiros” incapazes de refletir adequadamente em seus espelhos.

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Mas, depois, levantando um grande brado ancioso,

que resoou por todo esse salão luxuoso,

disse, com, tôrva voz, penetrante e vellada,

que o sangue lhes coalhou como barbara espada:

“Em nome d’esses Ser’s sublimes, transcendentes,

que pairam pelos Ceos, benéficos, videntes,

inimigos do Sangue, o Exterminio, e as pilhágens

— nos espelhos, em frente, olhae vossas imagens!..”

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Tragico anceio, então, moveu os convidados

a seus rostos fitar nos crystaes apontados...

Mas um grito estridente, um grito espavorido,

de assombro, anciã, e terror, um grito nunca ouvido,

dos seus lábios saiu, difficil de narrar...

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É que, em frente, surgira um quadro singular.

Em vez da taça em mão, no lábio o riso e o canto,

muitos viram-se a si, frios, mudos d’espanto,

não no alegre festim, perfumados de flores,

junto a damas liriaes, que induziam a amores,

e aos brilhos de metaes, lustres, e pedrarias...

mas n’uma bachanal, digna só das harpias,

cavadas e sem cor... olhos baços e airados...

roendo corpos já mortos e esverdeados,

mas inda com signaes do incrível mal sem nome

dos que morrem sem sangue... ou finaram-se á fome!

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Ora, então, viu-se bem que as legendas escuras

dos Avós não são vãs!.. Como, entre as sepulturas,

nos reinos também vêem alojar-se os Vampiros.

— Ai d’aqueles nos quaes elles traçam seus gyros!..[2]

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O espelho de Gomes Leal funciona como o retrato de Dórian Gray, exibindo a prevaricação e falta de empatia não de um indivíduo em particular, mas da coletividade que o contempla. Sua imagem escancara o conflito entre a essência e a aparência; porque aquele que vive de aparências é um ente vazio, essencialmente morto. Com a arte do espelhamento Gomes Leal pretende inspirar a elite lusitana a tomar consciência sobre o problema da escassez de alimentos e mudar seus modos, mais ou menos como o cantor Michael Jackson viria a fazer na música Man in the Mirror, o quarto single do álbum Bad (1988): “I'm starting with the man in the mirror. / I'm asking him to change his ways. / And no message could've been any clearer. / If they wanna make the world a better place / take a look at yourself and then make a Change”.

Na versão de Bram Stoker, o nobre Drácula nada viu no espelho de Jonathan Harker, mas ele não engoliu sapos. Enfurecido, o conde quebrou o objeto sob o pretexto de destruir um “abominável brinquedo explorado pela vaidade humana”.[3] E não há vaidade maior que fazer-se herói humanitário na própria ficção! Verdade seja dita: Apesar da inestimável obra literária que nos deixou, Gomes Leal foi demasiadamente severo em sua crítica, pois condenou até o uso de “um pó que limpe bem os dentes”[4] (bicabornato de sódio, ainda usado nos cremes dentais modernos), como se higiene bucal fosse algo supérfluo, um revoltante privilégio de elite. Pois só vampiros tem “boca de corais e pérolas”[5]. O português exemplar tem arcada dentária amarelada e cariada.

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A raça que nos há de suplantar

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Não sabemos quem publicou primeiro, se Gomes Leal ou Bram Stoker. Contudo é fato inconteste que Guy de Maupassant (1850-1893) o fez antes dos dois. Este escritor francês foi um neurodivergente acometido por alucinações durante sua vida, vindo a falecer um ano após tentativa de suicídio, no manicômio de Passy. Tendo lugar de fala, Maupassant descreveu e explorou em diversos contos uma dimensão fantasiosa similar à sua vivência. A desaparição ou distorção de reflexos humanos em espelhos, causada pela passagem de vampiros, é tema central da trilogia do Horla, iniciada em 1885 com Lettre d’um fou (1885), passando pela primeira versão de Le Horla (1886) até a conclusão da versão expandida também chamada Le Horla (1887).

A primeira versão traz a perspectiva do narrador, descrito como um homem internado no serviço de um psiquiatra. O personagem pondera se a embarcação brasileira que vira passar, pelo Sena, alguns dias antes de começar seus infortúnios, teria transportado os vampiros causadores da epidemia que tomou conta de São Paulo, como se pôde ler num jornal do Rio de Janeiro:

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Uma espécie de epidemia de loucura parece estar causando danos há algum tempo na província de São Paulo. Os habitantes de diversos lugarejos se salvaram abandonando suas terras e suas casas. Eles pretendiam estar sendo perseguidos e comidos por vampiros invisíveis, que se alimentavam de sua respiração durante o sono e que, além disso, só bebiam água, e, por vezes, leite.[6]

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A última versão de O Horla apresenta modificações mais profundas. Nela, temos um diário no qual o narrador personagem expõe sua alegria de viver, o elogio do seu espaço de vida. Em destaque: o prazer que lhe causara ver o maravilhoso veleiro brasileiro, de três mastros, um cisne branco, na manhã ensolarada de 8 de maio. Mas no dia 12 de maio o tom é outro. Mal-estar físico, melancolia, insônia, “influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo”. No dia 19 de agosto, lê, numa revista científica, uma nota sobre uma epidemia que tornou São Paulo (o texto é urna variante da notícia da primeira versão). E associa a embarcação brasileira que vira com os tais vampiros da epidemia. Essa conjugação ganha força de certeza:

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Ele veio, Aquele que temiam os primeiros terrores dos povos ingênuos, Aquele que os sacerdotes inquietos exorcizavam, que os feiticeiros evocavam pelas noites sombrias, sem vê-lo surgir ainda, a quem os pressentimentos dos mestres passageiros do mundo emprestaram todas as formas monstruosas ou graciosas dos gnomos, dos espíritos, dos, gênios, das fadas, dos duendes. Depois das grosseiras concepções do pavor primitivo, homens mais perspicazes o pressentiram mais claramente. Mesmer o havia adivinhado, e os médicos, desde uns dez anos para cá, descobriram, de uma maneira precisa, a natureza de sua potência antes que ele mesmo a tivesse exercido. Eles representaram, com essa arma do novo Senhor, a dominação de um misterioso querer sobre a alma humana que se tornou escrava. A isto eles chamaram de magnetismo, hipnotismo, sugestão... que mais sei? Eu os vi divertirem-se como crianças imprudentes com essa horrível potência! Ai de nós! Ai dos homens! Ele veio... O Horla... Ah! o abutre comeu o pombo, o lobo comeu o carneiro; o leão devorou o búfalo com chifres pontudos; o homem matou o leão com a flecha, com a espada, com a pólvora; mas o Horla vai fazer do homem o que fizemos do cavalo e do boi; sua coisa, seu servidor, e seu alimento, só pela potência de sua vontade. Ai de nós![7]

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Em Lettre d’um fou os cinco sentidos são postos em questão nos seus limites: Se possuíssemos a capacidade das abelhas de enxergar a luz ultravioleta ou qualquer sexto sentido que nos permitisse captar o real invisível nossa concepção de mundo seria diferente. A eletricidade, o sono hipnótico, a transmissão da vontade, a sugestão e todos os fenômenos magnéticos só pareceriam misteriosos ao homem do século XIX porque lhes faltava uma ferramenta adequada para compreendê-los. Citando Montesquieu, “um órgão a mais ou de menos em nossa máquina nos teria dado uma outra inteligência”.

Descortina-se uma região do desconhecido inexplorado, pelo que o narrador chega a um conceito de vazio proteico de possíveis. Consegue equacionar a natureza do sobrenatural como sendo tudo aquilo que fica fora do âmbito que parece necessário, dentro das limitações dos cinco sentidos (por que fomos assim programados, ele diria atualmente): “Pareceu-me que tocava incessantemente na descoberta de um segredo do universo. Tentei agarrar meus órgãos, excitá-los, fazê-los perceber por momentos o invisível”.[8] O conto acaba equacionando o fato de um falante passar pela experiência de investir um olhar contra a superfície de um espelho e de não se ver refletido, com uma atração a repelir o encontro com o que causa. Esta atração lhe deixa como saldo os umbrais das imagens de horror.

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On y voyait comme en plein jour, et je ne me vis pas dans la glace ! Elle était vide, claire, pleine de lumière. Je n'étais pas dedans, et j'étais en face, cependant. Je la regardais avec des yeux affolés. Je n'osais pas aller vers elle, sentant bien qu'il était entre nous, lui, l'invisible, et qu'il me cachait.

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Embora estivesse claro como em pleno dia eu não me vi no espelho! Ele estava vazio, claro, cheio de luz. Eu não me achava dentro e, no entanto, eu me encontrava defronte. Olhava-o com olhos enlouquecidos. Não ousava ir em sua direção, sentido bem que estava entre nós [eu e o espelho], ele, o Invisível, e que me escondia.[9]

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O personagem fica irremediavelmente tomado pela experiência. Fica como que fixado nessa espreita, diante do espelho. Uma névoa surge como imagem refletida e se condensa até que algo seja reconhecido:

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Et, dans cette glace, je commence à voir des images folles, des monstres, des cadavres hideux, toutes sortes de bêtes effroyables, d'êtres atroces, toutes les visions invraisemblables qui doivent hanter l’esprit des fous.

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E, nesse espelho, começo a ver imagens loucas, monstros, cadáveres hediondos, toda espécie de animais medonhos, de seres atrozes, todas as visões inverossímeis que devem deixar possesso o espírito dos loucos.[10]

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Na primeira versão de Le Horla o personagem ilumina o cômodo e arma uma cena em que possa se defrontar com o ser invisível. Senta-se, finge ler, aguarda; atrás de si, o armário com um grande espelho.

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Levantei-me, voltando-me, tão rápido que por pouco não caí. E então... via-se como se fosse dia... e não me vi no espelho! Estava vazio, claro, cheio de luz. Minha imagem não estava dentro... E eu me encontrava de frente... Via o grande vidro límpido, de alto a baixo! E eu olhava isso com olhos enlouquecidos, e não ousava mais avançar, sentindo bem que ele [Horla] se achava entre nós [Eu e o espelho], ele, e que me escaparia ainda, mas que seu corpo imperceptível havia absorvido meu reflexo.[11]

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Na ficção de Maupassant a imagem refletida vai se impondo – como se uma toalha de água, da esquerda para direita, fosse aos poucos sendo puxada, permitindo a visão do reflexo. “Era como o fim de um eclipse”. O personagem é ultrapassado pela experiência. No dia seguinte o homem fictício se faz internar num surto de esquizofrenia paranoide, como o próprio autor futuramente faria consigo mesmo.

Talvez não seja inútil informar que entendo a perplexidade de Maupassant pois eu também sou neurodivergente sujeita a fenômenos alucinatórios, escrevo contos de horror e já vi o Horla. Acontece quando olho fixamente para um espelho durante muito tempo. Minha imagem se deforma, as vezes pouco, as vezes muito. Geralmente vejo minha esclerótica verde. À noite me somem boca e olhos. Verifico movimentos irreais. Certa vez vi alguém num espelho que no momento não me refletia pois eu não estava diante do objeto. Não tive medo. O bizarro maravilhoso traz-me alegria de viver.

Infelizmente não consegui localizar nenhuma menção a epidemia de vampiros imateriais que obstruem reflexos humanos em São Paulo, em data anterior a 1885. Isso foi invenção do ficcionista. Todavia, ideias semelhantes existiam aqui mesmo no Brasil.

Originalmente não era necessário ser inumano ou alucinar para sumir no espelho. A desaparição poderia ocorrer apenas em metáfora.

Contemplamos o início deste processo de desaparecimento no conto-teoria O Espelho (1882), de Machado de Assis. Nele o personagem Jacobina, o protagonista, se torna alferes e passa a ser reconhecido pelo uso da farda, atestado de seu status social. Porém, quando se encontra só, deixa de enxergar seu reflexo. Em seu lugar há apenas uma forma incompleta, desprovida de valoração social.

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Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.[12]

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Jacobina só recupera sua imagem e existência quando veste novamente o uniforme. Coisa parecida ocorre num romance gráfico de horror publicado pela editora paulista Regiart em meados do século XX, em cujo roteiro o convidado duma festa a fantasia descobre que certo traje de vampiro possui “a forma de sua verdadeira personalidade”.[13] Militar ou monstro, em ambos os casos o protagonista deixa de reconhecer a si próprio como um qualquer e condiciona sua identidade ao acréscimo de determinado acessório; como se a própria farda fizesse de Jacobina um alferes e a máscara vampirizasse Jeff. Isto é o que Machado de Assis chama de alma exterior.

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Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação... Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem... Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock[14], por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração”. Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma.[15]

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Machado de Assis aceita a imperfeição humana, mas não sem a amargura que alimenta certo sarcasmo tão bem expresso na frase de encerramento das Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Por isso não é de admirar que, em Teoria do Medalhão, ocorra uma inusitada conversa entre pai e filho no dia em que este atinge a maioridade.

Preocupado com o futuro do jovem, o pai o aconselha a seguir o que considera o único caminho de sucesso: tornar-se um “medalhão” obtendo notoriedade e distinção a qualquer preço. Mas o espelho é terrível. Só ele mostra o homem desnudo de status ou adereços, crivado das chagas da velhice, doença e vícios. Pior: o objeto pode revelar a transformação absoluta de um ente natural em algo para além do humano.

Pensemos: Qual a probabilidade do mitema ou mitologema do desaparecimento do reflexo do não-humano, ou seja, do desumanizado, haver sido exportado do Brasil, com escala em Portugal para o resto da Europa? Eu não sei, mas todas os vestígios deixados por referências similares demonstram que a tradição oral pode ter existido.

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O espelho enquanto portal para outra dimensão

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No filme Van Helsing (2004) o caçador de monstros Gabriel Van Helsing (Hugh Jackman) pronuncia uma oração em latim para atravessar um espelho e chegar ao castelo de Drácula. Após esta descoberta o personagem conclui que Drácula não tem reflexo no espelho porque, para ele, o objeto serviria como portal para outro plano.

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Espelhos multimídia com monstros aprisionados são artigos de luxo possuídos apenas por membros da mais alta das três castas de vampiros na telenovela brasileira O Beijo do Vampiro (26/08/2002-03/05/2003), com roteiro e direção de Antônio Calmon, originalmente transmitida pela TV Globo, atualmente reprisada pelo canal Viva.

No capítulo 159 a vampe lacaia Lara (Deborah Secco) usou o espelho de Bóris Vladescu (Tarcísio Meira) como meio de teletransporte de Maramores, no Brasil, para o lar do vampiro supremo Nosferatu (Ney Latorraca) na Transilvânia, Romênia.

Lara entrou e saiu limpa; contudo noutros episódios tais espelhos são portais para outra dimensão onde tudo fica esverdeado e impregnado de gosma. Monstros jornalistas transmitem imagens da rotina humana e vampírica, podendo selecionar uma grade de programação de filmes e novelas vampíricas. Quando ordenados, agem como telefonistas fazendo ligações para outros espelhos.

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Notas:

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[1] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Rernoldi. São Paulo, Nova Cultural, 2002, p 33.

[2] LEAL, Gomes. O Estrangeiro Vampiro: Carta a El-Rei D. Carlos I. Lisboa, Libanio & Cunha, 1897, p 57-58.

[3] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Rernoldi. São Paulo, Nova Cultural, 2002, p 34.

[4] LEAL, Gomes. O Estrangeiro Vampiro: Carta a El-Rei D. Carlos I. Lisboa, Libanio & Cunha, 1897, p 14.

[5] LEAL, Gomes. O Estrangeiro Vampiro: Carta a El-Rei D. Carlos I. Lisboa, Libanio & Cunha, 1897, p 29.

[6] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. De Sexo Jeito de Todos os Vampiros: Arte e transmissão. Tese de doutorado em Teoria Literária. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras 1991, p 126-127, nota 51.

[7] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. Obra citada, p 114-115.

[8] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. Obra citada, p 104-105.

[9] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. Obra citada, p 105.

[10] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. Obra citada, p 105.

[11] MAUPASSANT, Guy de. Carta de um Louco (1885). Em: MENEZES, Aluisio Pereira de. Obra citada, p 107.

[12] ASSIS, Machado de. O espelho. Em: ASSIS, Machado de. Obra Completa, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Disponibilizado na internet em LITERATURA BRASILEIRA. URL: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/espelho.html

[13] O BAILE DE MÁSCARAS. Em: O Vampiro, nº 5. São Paulo, Regiart, p 32.

[14] Shylock é o personagem antagonista do conto O Mercador de Veneza (1600) de Shakespeare.

[15] ASSIS, Machado de. O espelho. Em: ASSIS, Machado de. Obra Completa, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. Disponibilizado na internet em LITERATURA BRASILEIRA. URL: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/espelho.html

 

Mulher, mais do que um útero

Stonehenge é coisa nova. Começou a ser construída em 3100 a.C. Göbekli Tepe tem mais cara de pré-história, construído há onze mil e quinhentos anos. Mas houve um tempo em que nem isso se via e que a elite cultural pintava bichos em cavernas (alguns mais realistas do que os desenhos de certos artistas profissionais da modernidade). Os escultores – fossem eles homens ou mulheres – tinham duas preferências universais, que eram a anatomia animal e as mulheres nuas.

E por que estavam nuas? Ponha-se no lugar delas. Não existem lojas de roupas. Ao seu redor só tem mato. Para vestir-se, por exemplo, com uma túnica de seda, você teria de capinar o terreno, cultivar amoreiras para dar de comer às lagartas do bicho da seda, coletar casulos em grande quantidade, fiar (sem roca), produzir o pano (sem tear) e costurar a sua própria vestimenta. Era mais fácil andar com a bundinha ao vento. Onde todo mundo é nudista não existe malícia, não existe pecado. Os índios são puros.

Mas sempre aparece um ocidental endemoninhado para julgar o nu como algo eroticamente atraente, independentemente do contexto. Bem educados, eles chamam de “deusas da fertilidade” às estatuetas escavadas em La Gravette, na França (sítio arqueológico povoado de 29.000 a 22.000 B.C.E.). Tipo, se não estiver coberta é porque a coelha está querendo chamegar. Logo, estátua é Playboy de uga-buga das cavernas. “Deusas da beleza”, eles dizem, diante das velhas senhoras.

Eu acho isso repugnante, sobretudo porque as modelos retratadas dificilmente seriam fisicamente capazes de realizar a bênção medieval “tenha oito filhos”. Eles dizem: “Rebeca não pariu Esaú e Jacó aos sessenta anos? Ora que melhora”. Imagino que as clínicas de fertilidade estejam entupidas de ateus, mas deixe isso para lá.

Um exemplo recorrente é o da dita “Vênus” de Lespugue, esculpida em marfim de mamute numa técnica de notória excelência profissional e conhecimento anatômico. Ela é linda sim, mas no mesmo sentido em que uma estátua de Gandalf pode ser bela pelo realismo da técnica. Tem que vender a alma à hipocrisia, pelo politicamente correto, para defender que – devido a fatores culturais – uma flor murcha pode ser mais desejada pela abelha do que o botão desabrochado, do que a vida verdejante.

 

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Réplica do acervo do Musée de l'Homme, Paris.

 

Como esse tipo de gente tarada, certinha, pode dizer que respeita uma mãe, uma avó, se não reconhece no esforço dum artista como este o reflexo do amor inocente a um ente querido? E se ele(a/e) preferia imortalizar as formas de alguém que foi, na sua vida, muito mais importante do que a moça dos prazeres, a sapeca do matagal?

Poderia Mademoiselle Lespugue não ter posado para a produção duma figura destinada a representar um ideal de sexualidade ou feminilidade? Não desejo saber se você gosta de “mulher que enche uma cama”, como dizia o Tio Áli sobre sua amada, na novela O Clone, mas sim se a humanidade existiria hoje se a grande maioria dos primeiros machos da nossa espécie preferissem, universalmente, coabitar com este tipo físico. Observe que os seios da robusta senhora cobrem a barriga até a altura das nádegas. Para chegar a este nível de flacidez da pele é preciso atingir certa idade ou desenvolver ginecomastia bilateral e esteatopigia ao mesmo tempo. Contudo ela muito provavelmente não tinha o gene da esteatopigia, que é uma característica de alguns biótipos africanos. Logo, é mais provável que tenha demorado mais de quatro décadas até desenvolver nádegas tão fartas e seios tão compridos em decorrência da obesidade mórbida.

Supondo que existisse uma mulher posando para um retratista competente, tal como se apresenta, ela certamente era uma idosa tornada infértil pela menopausa. Isto não era uma arte chula, sexualizada ao extremo. E nada indica que fosse uma matriarca, sacerdotisa ou deusa da fertilidade. Ainda que a modelo haja sido mãe de rebentos paridos em tempo passado, dificilmente reproduziria muitos filhos em tempo futuro.

Repetindo, não estou dizendo que a escultura representa uma personagem desprezível, mas sim que a beleza e a fertilidade não são seus melhores predicados. Essa mulher era mais do que um animal reprodutivo. A escultura transparece a imagem dum exemplo de sabedoria porque obviamente a modelo sobrevivia “gorda como a felicidade” durante o período histórico da pior escassez de recursos num planeta do sistema solar antes que alguém planejasse a futura conquista de Marte.

Ela não foi somente um organismo capaz e adaptado à vida na era do gelo. Ela soube o que fazer para não sucumbir a doenças infeciosas e outras dificuldades durante muitas décadas. Feliz daquele que teve essa mulher como sua professora. Ela foi um tremendo exemplo de vida.

Iconografia de incensários tibetanos: Deuses ou Vampiros?

Em 1995 eu era adolescente e não havia nenhuma operadora de internet na localidade onde moro. Neste ano foram lançados os primeiros celulares que só serviam para fazer chamadas telefônicas e eram privilégio de elite. A TV a cabo, por assinatura, só viria a existir no Brasil três anos depois. E também virei o milênio sem isso.

Para pesquisar sobre vampiros eu dependia primeiramente da sabedoria das pessoas ao meu redor: Pedia opiniões de toda a gente e anotava tudo, simulando uma pesquisa de campo, ainda que sem uma metodologia rigorosa. Também dependia da aleatoriedade da programação da TV aberta e do acervo renovável de locadoras de filmes em fita VHS. Como as bibliotecas públicas ficavam longe e tinham pouco acervo temático, passei a frequentar bancas de jornaleiro, livrarias-sebo e gibiterias onde se encontrava o material impresso mais barato.

Pesquisando desde 1992 eu já havia adquirido uma reportagem de Silvia Lakatos publicada na revista Destino nº 47. A edição de abril 1995, nº 93 do mesmo periódico, trouxe uma nova reportagem da mesma jornalista. Foi lá que vi pela primeira vez uma suposta "máscara tibetana".

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Não sei por que esse artefato religioso me pareceu muitíssimo antigo e importante. Fiquei hipnoticamente encantada por ele, embora suspeitasse que o rosto apenas parecesse com o de um vampiro cinematográfico ocidental. Silvia Lakatos não forneceu referências que ajudassem a localizar informações sobre a peça. A redação atribui os direitos autorais das imagens à Editora Globo. Contudo, o mesmo quadro de Boleslas Biegas e a mesma fotografia do artefato aparecem no livro de Daniel Farson, Hombres lobo vampiros y aparecidos, editado em Barcelona pela Editorial Noguer, em 1976.

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Descobri que isto não é uma máscara, mas uma espécie de incensário. Porém repare que ele não tem buraquinho para enfiar palito de incenso, mas sim uma boca aberta para colocar a oferenda que queima no interior. Daniel Farson afirma que haviam cultos oferendando sangue depositado na boca de deidades. Aliás, em Goa ainda há templos de culto ao Vetal ou Baital onde estátuas de mortos recebem oferendas de carne animal.

Daniel Farson é seguramente a fonte bibliográfica utilizada na reportagem de Silvia Lakatos. Porém nem ele esclarece se a máscara é peça de museu ou de coleção particular, não da datação, nem especifica o nome do artesão ou em que parte do Tibete foi localizada. O mesmíssimo incensário aparece na capa do livro do historiador Lazare de Gérin-Ricard (1907-1978) cujo conteúdo sequer menciona tal item.

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Com internet e Google Lens tudo fica mais fácil. Numa pesquisa mínima hoje em dia averiguamos que esse padrão iconográfico não é demasiadamente antigo, não é raro e não é muito caro. Em fins do século XIX até meados do século XX você chegava no Tibet e praticamente levava um incensário temático como souvenir. Leiloeiros geralmente anunciam como representações do Rei Bhurkuṃkūṭa. As tochas flamejantes que adornam a cabeça passam a impressão de que o rei atua como avatar manifestando o poder do deva (देव) Agni (अग्नि). Ou seja, não consegui identifica-lo como um vetāla (वेताल), um bhūta (भूत) comum, nem com outra figura folclórica minimamente equiparável ao nosso vampiro. Esse cara era muito mais foda que isso e merece ser tratado com respeito.

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Experiências alucinatórias: Uma questão de diversidade

Existem circunstâncias onde pessoas podem experimentar o impossível. Uma delas é o fenômeno alucinatório. Graças à militância do movimento antimanicomial, atualmente não são considerados doentes mentais as pessoas que não têm suas vidas sociais alteradas após experimentarem fenômenos alucinatórios, tanto positivos quanto negativos.

Pessoas com tais condições não são curáveis, assim como canhotismo não é curável. Variações humanas não estão abertas à cura, apenas ao enfrentamento. Ou seja, alucinações não são sintomáticas quando o fenômeno não provoca incômodo ou têm um impacto positivo nas vidas das pessoas, dando conforto e inspiração.

Por exemplo, entre as personalidades históricas que experimentaram alucinações verbais auditivas se encontra Nikola Tesla (1856-1943), que ouvia “vozes de Marte” tão prestativas que lhe auxiliaram na descoberta da corrente alternada. Sócrates (469-399 a.C.) também teve experiências com um daímôn (δαίμων) ou voz interior que o motivava a filosofar. 

Tenho certeza que algum dia você já se equivocou achando que Fulano ou Fulana estava te chamando ou andando por perto e, quando olhou diretamente, percebeu que não era a pessoa conhecida: De fato não havia ninguém! Certo? Então você já alucinou.

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Uma pesquisa realizada na Holanda sugere que uma em cada vinte e cinco pessoas ouve vozes regularmente. Segundo a pesquisadora Aylish Campbell, da Universidade de Manchester, ouvir vozes na cabeça, interrompendo seus pensamentos, é muito comum. Algumas pessoas que ouvem vozes descrevem o evento como se alguém as chamasse pelo nome, mas quando elas vão atender descobrem que não há ninguém. As pessoas também ouvem vozes como se fossem pensamentos de fora entrando em suas mentes, podendo até iniciar uma conversa.

Marius Romme, presidente da Intervoice, uma organização de caridade britânica especializada em ajudar pessoas que relatam ouvir vozes, falou em entrevista à BBC: “Nosso trabalho de pesquisa mostrou que mais de 70% das pessoas que ouvem vozes podem ter tido um evento traumático que desencadeou as vozes”.[1]

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Eu devo constar entre os 30% restantes, pois meu único trauma na vida foi ouvir vozes ameaçadoras... Recentemente tem se pesquisado sobre fenômenos alucinatórios experimentados por pessoas sem diagnóstico de alterações neurológicas ou transtornos psiquiátricos. Pessoas comuns, sobretudo aquelas que nunca fizeram uso de substâncias psicotrópicas, podem ver, ouvir, cheirar e até tatear objetos que, conforme a hipótese médica, seriam irreais, só existindo na forma de experiência subjetiva.

Um artigo para leigos publicado na revista Super Interessante resumiu um estudo acadêmico publicado no British Psychiatry Journal no qual foi estimado que uma entre cada vinte e três pessoas experimentou pelo menos um fenômeno alucinatório no ano 2016. Nesta ocasião especialistas analisaram a saúde mental de sete mil adultos, na Inglaterra.

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Entre as pessoas com transtorno borderline, 13,7% disse ter alucinado pelo menos uma vez, menos do que os pesquisadores esperavam. Já entre pacientes com quadros clássicos de depressão e ansiedade, sem experiências psicóticas, o resultado foi quase igual: 12,6%. (...) Dos 7 mil entrevistados, 4,3% disseram ter tido alucinações no ano anterior – incluindo as pessoas que são absolutamente saudáveis do ponto de vista da psiquiatria. (...) Em 2015, uma pesquisa ainda maior, feita com 31 mil pessoas em mais de 15 países, chegou a um número parecidíssimo: 5% da população em geral dizia ter tido alucinações.[2]

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Aparentemente o percentual de fenômenos alucinatórios entre os holandeses é 8,6% maior do que entre a população inglesa. Contudo, não há consenso sobre números exatos. Segundo uma nota na revista Galileu, edição 269, outra pesquisa da Universidade Stanford, concluída no ano 2000, estimou que 2% das pessoas tem alucinações toda semana, 20% alucinam pelo menos uma vez por mês e um terço pelo menos uma na vida.[3]

Uma matéria da BBC News datada de janeiro de 2018 abordou a pesquisa “Hearing the voice”. A médica Angela Woods lidera a referida pesquisa do Centre for Medical Humanities, na Durham University (Reino Unido). Ela revelou à imprensa que um grupo que engloba cerca de 2% da população global experimenta fenômenos intensos e contínuos. Ainda assim mais da metade dos indivíduos que alucinam com regularidade leva vidas normais, sem necessidade de qualquer medicação psiquiátrica.

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Rachel Waddingham convive com mais de cinco vozes em sua cabeça que comentam sua vida diariamente. Elas têm nomes, personalidades e idades claramente diferenciadas, fazendo com que a britânica consiga distinguir perfeitamente qual é qual até mesmo pela forma de falar. (...) Desde os 18 anos, Rachel escuta três homens em sua cabeça comentando e criticando tudo o que ela faz, como se fossem cientistas em um experimento. (...) As vozes também ouvem umas às outras e falam entre si – algumas até tem medo das outras. (...) Essas vozes não são completamente inventadas. (...) Os cientistas comprovaram por exames cerebrais que quando pessoas como Rachel ouvem essas vozes, elas apresentam atividade cerebral diferente. (...) Algumas são negativas, críticas e dizem coisas horríveis. Outras podem ser amigáveis e úteis, por exemplo dando conselhos ou ideias. (...) Rachel (...) foi diagnosticada com uma combinação de esquizofrenia com transtorno bipolar. (...) Hoje, porém, ouve vozes, mas não está doente. (...) Ela trabalha e leva uma vida normal. (...) Se não tivesse revelado, ninguém saberia o que acontece em sua cabeça.[4]

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Eu passei por uma experiência semelhante, com um grupo de quatro vozes e um rádio comunicador walk talk falando continuamente, de novembro de 2017 até agosto de 2018. Eram três vozes masculinas e uma feminina. Não pareciam com as vozes de ninguém que conheço. Embora discutissem entre si, todos obedeciam às ordens do superior que lhes falava pelo walk talk. Um dos homens não estava sempre presente, como se ele saísse de perto dos outros e retornasse constantemente. Outro deles, o dito “Tostes”, foi executado por fuzilamento; mas a mesma voz logo voltou atuando como outro personagem.

Além destas quatro vozes interpretando cinco personagens, raramente surgia um extra. Certa noite eles fizeram um baile funk altíssimo que ninguém ouvia, só eu.

Todas as vozes cessaram de falar poucos dias depois do dia 01/09/2018, data em que foi realizado um eletroencefalograma durante uma crise, na Carlos Bacelar Clinica. O resultado, saído em 30/08/2018, emitido pelo médico responsável Guilherme Frota Bacelar Martins, indicou eletroencefalograma compreendido nos limites normais de variação com ritmo alfa irregular, simétrico de 08 a 10 c/s (ciclos por segundo), de 40 a 60 microvolts, predominando nas áreas posteriores; e ocorrência de ritmo beta nas áreas anteriores.

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Na literatura médica ondas beta (13-30 c/s) indicam concentração e estado de alerta. Isso é o que havia de menos comum no meu EEC. Talvez não seja inútil ressaltar que nas últimas 48h eu não havia ingerido nenhum medicamento, nem café. O motivo de minha perplexidade era o fato de estar ouvindo vozes hostis e não saber de onde vinham.

Tem-se falado muito em vozes “positivas” e “negativas”. Na realidade as coisas não são tão simples. Vozes alucinatórias não são deidades maniqueístas. Há experiências positivas com vozes amistosas, como também há experiências negativas com vozes hostis. Também há vozes positivas que geram consequências negativas e vozes negativas que culminam em consequências positivas. Há vozes positivas que se transformam em negativas (por exemplo, quando duas ou mais vozes dialogam e as negativas convencem as positivas de se juntar a elas na conspiração contra o ouvidor). Há vozes que são neutras.

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Cavum do septo pelúcido (CSP)

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Segundo estudos de morfologia cerebral em esquizofrenia, a persistência e alargamento do cavum do septo pelúcido (CSP) é uma variação anatômica ou alteração típica do neurodesenvolvimento encontrada com maior frequência em estudos de ressonância magnética e tomografias de pacientes esquizofrênicos, sugerindo um fator de risco, senão um modelo de desenvolvimento para esse distúrbio.[5] [6] [7] Adrian Raine explica que o CSP persiste num cérebro que não cresce exatamente da maneira que deveria:

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Uma indicação de mau desenvolvimento cerebral que ocorre muito cedo na vida é uma condição neurológica chamada de persistência do cavum do septo pelúcido. Normalmente, todo mundo tem dois folhetos de substância cinzenta e branca fundidos, o chamado “septo pelúcido”, separando os ventrículos laterais – espaços preenchidos por líquido no meio do órgão. Você pode ver o espaço preto no cérebro normal (...), junto com o septo pelúcido branco, linha que divide os ventrículos negros. Durante o desenvolvimento fetal, há, ainda, uma lacuna cheia de líquido semelhante a uma caverna – ou “cavum” – entre esses dois folhetos. Você pode ver essa lacuna preta separando os dois folhetos brancos de septo pelúcido no cérebro (...). Conforme o órgão cresce, com rapidez, durante o segundo trimestre de gestação, o aumento de suas estruturas límbicas e da linha média – o hipocampo, a amígdala, o septo e o corpo caloso – efetivamente pressiona os dois folhetos um contra o outro até que eles se fundem. Essa fusão é concluída entre três e seis meses depois do nascimento. No entanto, quando as estruturas límbicas não se desenvolvem do modo normal, o cavum entre os dois folhetos permanece – daí o termo persistência do cavum do septo pelúcido.[8]

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Um órgão que ocupa o espaço para o qual a natureza o concebeu, sem agigantar-se, espremer-se e fundir suas partes é mal desenvolvido ou perfeitamente saudável? Certa vez um neurocientista estimou a persistência de CSP em 5% da população mundial. Seria uma lástima se 95% da raça humana possuísse cérebros mal formados e não o oposto.

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A teoria de que alterações no neurodesenvolvimento precoce podem influenciar na manifestação de distúrbios neuropsíquicos ganhou espaço para tentar explicar, pelo menos em parte, a etiopatogenia de algumas enfermidades, com grande destaque para esquizofrenia.

Trabalhos posteriores continuaram a investigar a relação entre CSP e pacientes com esquizofrenia. Alguns indicam uma maior prevalência de CSP em pacientes diagnosticados ou com alto risco para doença, sugerindo que seja um provável fator de risco. Existem, ainda, trabalhos em que a significância da persistência do CSP está diretamente relacionada às suas dimensões, com maior frequência de CSP alargado em pacientes com distúrbios neuropsíquicos ou com maior risco de manifestá-los. Essa talvez seja a interpretação mais consensual e mais importante na literatura acerca do CSP, já que há uma tendência a admitir que, na verdade, suas dimensões determinarão seu significado patológico, e não sua presença em si.[9]

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Segundo um laudo de Tomografia Computadorizada do Crânio, realizada na clínica 3D DIAGNOSE LTDA em 07/02/2007, em tomógrafo MULTI-SLICE, eu possuo CSP e uma “lesão hipodensa de limites bem definidos, de aspecto cístico localizado na região temporal esquerda, de situação anterior, sugerindo cisto de aracnoide”. Outro laudo de Tomografia Computadorizada do Crânio, realizada na mesma clínica e no mesmo tipo de tomógrafo, em 21/06/2016, especificou que este cisto aparece como “imagem ovalada com densidade semelhante ao líquor, sem realce pelo meio de contraste, medindo cerca de 1,7 x 0,8 x 0,8 cm, em situação extra-axial junto à porção anterior do lobo temporal esquerdo, indicativa de pequeno cisto aracnoideo”. Não há malignidade, pois seu tamanho não aumentou.

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CSP separando os ventrículos laterais do meu cérebro.

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Falei com dois neurologistas brasileiros que declararam não haver necessidade de operar o que eles classificaram como “cisto benigno”. Quanto ao CSP, eles preferiram não falar nada. Imagino que na medicina valha o provérbio “o que não tem remédio, remediado está”. Se tivessem alertado que a persistência de CSP me colocava no grupo de risco da esquizofrenia, dois anos depois eu não teria temido alucinações verbais contínuas que pareciam pessoas reais conspirando para assaltar meu lar e fazer mal aos meus familiares.

No fim de tudo foi a desinformação e não a alucinação o que me adoeceu. Sem informação não adianta tomar quetiapina e risperidona pois o inimigo invisível continua maquinando para induzir o ouvidor de vozes ao suicídio. Com informação o alucinado fica sabendo que vozes hostis são como cães que ladram e não mordem. Pode então aprender e/ou desenvolver estratégias para o enfrentamento do problema.

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REFERÊNCIAS:

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[1] OUVIR VOZES NA CABEÇA PODE SER NORMAL, DIZ ESTUDO. Em: BBC Brasil, última atualização em 19/09/2006 - 01h42 GMT (22h42 Brasília). Hiperlink: <https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/story/2006/09/060918_vozesnormalfn>.

[2] LEONARDI, Ana Carolina. Uma em cada 20 pessoas tem alucinações: Pesquisas recentes mostram que 5% da população teve pelo menos um episódio no ano passado - incluindo gente totalmente saudável. Em: Super Interessante, edição online, publicado em 21/02/2017. 18h35. Hiperlink: <https://super.abril.com.br/saude/uma-em-cada-20-pessoas-tem-alucinacoes/>.

[3] REDAÇÃO GALILEU. Ter alucinações é comum: A linha entre pessoas sãs e doentes é mais fina do que você imagina. Em: Revista Galileu, edição 269. Rio de Janeiro, Editora Globo, dezembro de 2013. Acessado em 24/12/2020. Hiperlink: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI296681-17770,00-TER+ALUCINACOES+E+COMUM.html>.

[4] O DISTÚRBIO QUE LEVA UMA MULHER A CONVIVER COM CINCO VOZES EM SUA CABEÇA. Em: BBC News, 29/01/2018 15h01. Hiperlink: <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/bbc/2018/01/29/o-disturbio-que-leva-uma-mulher-a-conviver-com-cinco-vozes-em-sua-cabeca.htm?cmpid=copiaecola>

[5] MARTINS, Lia Pontes Lisboa; LEITÃO, Antônio Miguel Furtado; LUCENA, Jalles Dantas de & GONDIM, Francisco de Assis Aquino. Cavum Septum Pellucidum, da embriologia à clínica: uma revisão da literatura. Em: Journal of Health and Biological Sciences, v. 7, n. 1 (Jan-Mar) (2019), p 93-94. Hiperlink: <https://periodicos.unichristus.edu.br/jhbs/article/view/2200/817>.

[6] KAPCZINSKI, Flávio; QUEVEDO, João, IZQUIERDO, Iván & colaboradores. Bases Biológicas de Transtornos Psiquiátricos: uma abordagem translacional. (3ª edição revista e atualizada). Porto Alegre, Artmed, 2011, p 201. Hiperlink: <http://anakarkow.pbworks.com/w/file/fetch/140986440/bases%20biol%C3%B3gicas%20dos%20transtornos%20psiqui%C3%A1tricos.pdf>.

[7] TRZESNIAK, C. et al. Are cavum septum pellucidum abnormalities more common in schizophrenia spectrum disorders? A systematic review and meta-analysis. Em: Schizophrenia Research, v. 125, n. 1, p. 1-12, 2011b. Resenha no hiperlink: <https://repositorio.unifesp.br/handle/11600/33289>.

[8] RAINE, Adrian. A Anatomia da Violência: As raízes biológicas da criminalidade. Porto Alegre, Artmed Editora, 2015. <https://books.google.com.br/books?id=RFcfCgAAQBAJ&pg=PT160&lpg=PT160&dq=psicopatia+cavum&source=bl&ots=erl0ToQaE8&sig=C6Qz1ZwQMGdz8YcbfgDkMH5nWEQ&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjMpvy_hJLYAhVEGZAKHVFfACIQ6AEIKjAA#v=onepage&q=psicopatia%20cavum&f=false>.

[9] MARTINS, Lia Pontes Lisboa; LEITÃO, Antônio Miguel Furtado; LUCENA, Jalles Dantas de & GONDIM, Francisco de Assis Aquino. Cavum Septum Pellucidum, da embriologia à clínica: uma revisão da literatura. J. Health Biol Sci. 2019; 7(1), p 93-94. Hiperlink: <https://periodicos.unichristus.edu.br/jhbs/article/view/2200/817>.

 

Vampiros alienígenas

Eu sou vampiróloga. Enquanto ufólogos tem foco na pesquisa de fatos da vida real e muitas vezes interpretam mitologia e folclore como indícios de culto à carga, deixando obras artísticas de ficção em segundo plano, os vampirólogos tem foco na pesquisa da arte, interpretam narrativas de vivência como provável folclore e só raramente flertam com a criptozoologia. (Lembrando que geralmente nós trabalhamos com narrativas sobre criaturas fantásticas verdadeiramente absurdas, e não com hipóteses mais plausíveis como a existência de extremófilos extraterrenos).

É muito raro que o mesmo caso concreto exija uma análise interdisciplinar abordando ufologia e vampirologia ao mesmo tempo, mas as vezes acontece. Os exemplos de não-ficção mais conhecidos são os fenômenos do come-línguas, chupa-chupa, chupa-cabras e os vídeos das entrevistas com os contatados norte-americanos Alex Collier (1994) e Philip Schneider (1996) onde ambos denunciam a presença de alienígenas vivendo escondidos num imenso sistema espeleológico abaixo de solo ou em bases militares subterrâneas.

Na ocasião da entrevista do jornalista Rick Keefe com Alex Collier (pseudônimo de Ralph George Amigron), em 1994, este afirmou haver sido informado por extraterrestres da galáxia de Andrômeda sobre a destruição do edifício World Trade Center; algo que realmente viria a acontecer em 11/09/2001. No vídeo vemos Alex Collier, muito sério, vestindo terno e gravata, falando sobre raças alienígenas dentre as quais haveriam predadores de humanos. Segundo ele, uma espécie inteligente de α Draconis estaria a caminho da Terra, para se encontrar com os 1833 indivíduos que já vivem aqui, num sistema espeleológico localizado entre 100 e 200 milhas abaixo da superfície... Philip Schneider ganhou cicatrizes e perdeu dedos brigando com esses bichos (!), que ele afirma serem consumidores de sangue humano com adrenocromo.

Uma coisa que deixa vampirólogos ufólitos malucos é o fato de o contatado e romancista Whitley Strieber num momento estar produzindo importante material de não-ficção sobre ufologia, como o livro Communion (1987), em cuja capa apareceu a primeira representação de um grey, e noutro momento escrever ficção sobre vampiros, descritos enquanto uma raça milenar distinta dos humanos vivendo na Terra, em The Hunger (1981), The Last Vampire (2001) e Lilith’s Dream (2002).

O primeiro livro virou o filme The Hunger (1983) com David Bowie e Catherine Deneuve nos papéis principais, começando com ambos caçando em meio a um show da banda Bauhaus, cantando Bela Lugosi's Dead; e isso virou um clássico tanto na cultura pop quanto na subcultura gótica.

A impressão é que Whitley Strieber tem algo a dizer sobre intercessões, mas fica engasgado igual John Keel que – por medo de chacota – não menciona a palavra “vampiro” nem quando uma testemunha esfrega uma descrição dum óbvio cosplay do Conde Drácula na cara dele. Ele diz: É o Mothman. Só que com cabeça humana, roupas estereotipadas e capa preta. (Ok, poderia não ser o Drácula. Talvez fosse o Batman).

O ocultista e romancista Colin Wilson fez o contrário. A hipótese do vampirismo extraterreno magistralmente trabalhada na ficção The Space Vampires (1976) é uma exageração ou ampliação daquilo que foi anteriormente sugerido na obra de não-ficção The Occult: A History (1971). Mas a ficção ficou mais atraente que a realidade e o filme Lifeforce (1985) ainda mais popular do que o livro.

O jornalista Jean Paul Bourre trata da intercessão vampiro/aliem em Le Culte du vampire aujourd'hui (1978). Depois ele percebeu que a hipótese tem má aceitação popular e refez o livro numa versão auto-censurada, de nome Les Vampires (1986). Durante pesquisa de campo na Europa, este autor encontrou uma seita que cultua alienígenas bebedores de sangue, além de um grupo que acredita que os vampiros são seres vindos do espaço e dedica-se a combatê-los. (A tradução para português da versão integral se chama O Culto do Vampiro, publicada pela editora Europa-América).

Na ficção científica já existiam outras menções a vampiros alienígenas. O exemplo mais antigo que eu conheço é o conto Asylum (1942), de A. E. Vam Vogt, onde dois alienígenas sanguissedentos chegam à Terra numa espaçonave. Estes personagens viveram milhares de anos se apropriando das formas de vida de diferentes planetas. Na Terra, encontram o repórter Willoan Dreegh, que impediu sua invasão.

O filme Invasion of the Body Snatchers (1956), que foi chamado de “Vampiros de Almas” no Brasil não tem vampiro nenhum. Só alienígenas que clonam a aparência dos humanos e tomam nosso lugar. O primeiro e mais famoso filme com intercessões foi o italiano Planet of the Vampires (1965), produzido por Fulvio Lucisano, dirigido por Mario Bava, baseado na novela Una Notte di 21 Ore (1960), de Renato Pestriniero.

 

Planeta dos Vampiros 1965.jpg

A história do filme é bem diferente da minissérie em quadrinhos homônimas, Planet of vampires (1975), produzida por Larry Hama e Pat Broderick, com capas de Neal Adams, serializada em três números publicados pela Atlas comics. Nela cinco astronautas retornam à Terra e encontram nosso planeta governado por vampiros.

Os vampirólogos norte-americanos aumentam a lista de intercessões indicando os livros Sabella or The Blood Stone (1980) de Tanith Lee; Dracula Unbound (1991) de Brian Aldiss; e McLennon's Syndrome (1993) de Robert Frezza. Eu achei Sabella demasiadamente inverossímil e desinteressante. Os outros dois ainda não li.

Gordon Melton ressalta que H. G. Wells explorou a possibilidade dum alienígena tomar posse dum ser humano para viver de suas energias vitais, no conto The Flowering of the Strange Orchid (1894). Mas, ao meu ver, isso não é bem um vampiro.

Em 1969 o ficcionista Forrest J. Ackerman criou a famosa personagem de quadrinhos Vampirella, uma vampira sex e escrupulosa, vinda do planeta Draculon, óbvia paráfrase do Superman que veio de Kripton. Revistas com Vampirella são publicadas até hoje nos EUA. Inclusive, no Brasil, havia uma série dela traduzida, nos jornaleiros, vendida a preço popular, distribuída à época dos avistamentos do chupa-chupa. Não é impossível que isso tenha estimulado a imaginação de algumas pessoas.

Existem outros quadrinhos esparsos sobre alienígenas vampiros. Até o brasileiro Ataíde Braz já produziu umas folhas para a Spektro da Vecchi (se não me falha a memória, foi no nº 5 da revista).

Enfim, se alguém se interessar pelo tema conjunto recomendo que leiam Fome de Viver e A Última Vampira de Whitley Strieber. Leiam também O Oculto e Vampiros do Espaço de Colin Wilson. Só leiam O Culto do Vampiro de Jean Paul Bourre depois de ler O Despertar dos Mágicos de Louis Pauwels e Jacques Bergier. Tudo isso existe em português. (Ignorem Sabella e Vampirella, a menos que sejam fãs de Barbarella e outras beldades seminuas que de alienígena só possuem o rótulo).

Eu escrevi tudo isso porque 2020 parece ser o ano dos vampiros alienígenas viciados em adrenocromo! Isso tem sido muito comentado desde o início de março e eu mal consigo acompanhar as novidades porque vem surgindo uma enorme quantidade de publicações de ufólitos e conspiracionistas toda semana.

Imagino que todas as fontes pequem por problemas técnicos. Entenda: Adrenalina ou epinefrina (C₉H₁₃NO₃) é um hormônio secretado pelas glândulas adrenais ou supra renais quando a pessoa vive situações de estresse ou excitação. Depois que a adrenalina é liberada na corrente sanguínea e se espalhada pelo corpo todo, sua auto-oxidação produz o metabólito adrenocromo (C9H9NO3), o qual tem efeito psicotomimético e neurotóxico. Ou seja, você sai do terror (situação de perigo real) e cai no horror (alucinação). Em organismos normais o efeito colateral é combatido pela produção da enzima glutationa S-transferase, que elimina o adrenocromo. Mas em organismos com um determinado gene defeituoso não há desintoxicação e a pessoa pode ficar esquizofrênica.

Então da para ficar doidão chupando sangue? Não! A hipótese do uso de adrenocromo de origem biológica como droga recreativa, lançada por Hunter S Thompson, em Fear and Loathing in Las Vegas (1971) e Fear and Loathing on the Campaign Trail '72 (1973), é inverossímil porque um adulto médio possui algo entre 4,5 e 5,5 litros de sangue em circulação no corpo. Não dá para filtrar e coletar quantidades significativas de adrenocromo. Beber só algumas gotas ou só um frasquinho de sangue retirado de um Homo sapiens aterrorizado ou sobrexcitado introduziria doses homeopáticas tão ínfimas no organismo de outro Homo sapiens que, se surtisse efeito, seria puro placebo.

Fora isso, não podemos esquecer que existe adrenocromo sintético. As reações químicas produzidas in vivo podem ser reproduzidas in vitro em maior quantidade e com mais eficiência. A adrenalina é sintetizada artificialmente desde 1904, sendo usada em hospitais há quase um século. Para transformá-la em adrenocromo, em laboratório, usa-se óxido de prata (Ag2O) como agente oxidante.

Alguém poderia perguntar: Vampiros e lobisomens não são alérgicos a prata e seus derivados? Sim, em livros, filmes e gibis de ficção do século XX. Por esta lógica, adrenocromo sintético não serve, né? Supondo um organismo alienígena alérgico a prata, tolerante a sobrecarga de ferro e biologicamente adaptado para consumir quantidades infinitesimais de adrenocromo, este não produziria glutationa S-transferase e poderia desejar um bocadinho de sangue de gente apavorada.

Seria o sapato da Cinderela um OOPART?

Hoje eu estava ouvindo minha mãe assistir Cinderela na Sessão da Tarde quando perguntas começaram a pipocar na minha cabeça: É possível para um ser humano andar com um calçado feito de vidro europeu da época feudal ou renascentista sem estilhaçar o frágil objeto? Provavelmente nem modelos fashion pesando de 48 a 50 quilos conseguiriam realizar tal proeza. Então o calçado de Cinderela é um OOPART (artefato fora de lugar, vindo do futuro) igual aos solados modernos de fibra de vidro?

Resolvi pesquisar para verificar se Cinderela é ficção ou folclore. De acordo com a Wikipédia <https://en.wikipedia.org/wiki/Cinderella>, desde a Grécia antiga, passando pela China, Pérsia e pela Europa renascentista, existem abundantes narrativas sobre mulheres solteiras em idade núbil que, mesmo pertencendo a classes sociais mais baixas, acabaram desposadas por príncipes. Algumas delas até perderam seus calçados e foram encontradas por este motivo. Mas nenhuma delas se chama Cinderela ou ostenta um calçado especial.

A exceção é a “Cendrillon” dum conto folclórico compilado pelo francês Charles Perrault em Histoires ou contes du temps passé (1697). Nesta variante a fabulosa Cendrillon não usava salto alto e sim “sandálias rasteirinhas de vidro” que foram provadas por toda a população feminina de um reino europeu inteiro e não couberam nos pés de ninguém além dos dela.

Qual o tamanho dos pés de Cendrillon? Muito abaixo da média, com certeza. E onde nós já vimos pezinhos minúsculos, neste período? A tradição dos “pés de lótus” era praticada na China, Coréia, Indonésia, Tibete, Japão e outras localidades da Ásia. Só foi proibida em 1949, pela nova república chinesa. Todavia, as modificações corporais obtidas pelo enfaixamento dos pés de crianças por ataduras, afim de que pudessem usar sapatinhos especiais, deixa o membro retorcido, com pontos fétidos de podridão.

Cendrillon não era uma oriental do passado que nunca tirava as meias. Ela, repito, usava “sandálias rasteirinhas de vidro”, um calçado translúcido exibindo a característica mutante que os orientais tentavam imitar. Na variante coletada pelos Irmãos Grimm, em Grimms' Fairy Tales (1812), uma humana rival serra os pés para caberem no minúsculo calçado, porém a deformidade artificial era visível e desagradou ao príncipe.

Contos folclóricos como este costumavam circular de forma oral por toda a Europa, dificultando o trabalho de quem quer que esteja interessado em descobrir sua origem. Mas suponhamos que tenha existido uma personagem histórica chamada Cinderela.  No mundo inteiro é costume nomear logradouros, monumentos, etc., em homenagem a personalidades conhecidas e importantes durante uma determinada época e lugar.

Pois bem, em Sibiu, na Romênia, existe um lago chamado Cindrelu onde os moradores das redondezas afirmam viver um zmeu ou dragão vermelho que as vezes voa até o céu e provoca tempestades de granizo. Quem foi a pessoa chamada Cindrelu que deu seu nome ao lago Cindrelu? Ninguém sabe.

Bibliografia para estudantes de angelologia

QUESTÃO: QUERO TE PEDIR UMAS DICAS DE LIVROS SOBRE ANJOS. NADA DE NOMES DE ANJOS, ETC. QUERIA ALGO MAIS PROFUNDO.

 

Já leu a Bíblia? Se não recomendo a Bíblia de Jerusalém, da editora Paulus. Comece pelo Livro de Daniel e Gênese 6. E procure por todas as menções a anjos no QBible <http://www.qbible.com/> onde se pode estudar passagens no idioma original.

Selecionei alguns livros sobre figurações dos anjos na mitologia cristã e nas fontes derivadas de trabalhos do século III a.C. Para o leitor mediano que só quer o livro mais barato do sebo, recomendo:

 

I ENOCH. Em: TRICCA, Maria Helena de Oliveira (org.). Apócrifos III: os Proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1996, p 117-216. — Tradução da versão copta etíope.

II ENOCH. Em: TRICCA, Maria Helena de Oliveira (org.). Apócrifos I: os Proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 23-64. — Tradução da versão russa de II Enoch em português.

MARTÍNEZ, Florentino García. Textos de Qumran. Tradução Valmor da Silva. Petrópolis, Vozes, 1995. — Fragmentos do Livro dos Vigilantes, do Livro dos Gigantes, do Documento de Damasco e etc., traduzidos do aramaico para português. 582p.

O LIVRO DE ENOCH. Tradução de Márcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima. São Paulo, Hemus, 1982. 212p. — Outra edição de I Enoch em português.

 

Estas são as mais importantes obras de referência para arqueólogos, historiadores, pesquisadores profissionais e leitores avançados:

 

BHAYRO, Siam. The Shemihazah and Asael Narrative of 1 Enoch 6-11: Introduction, text, translation and commentary with reference to Ancient Near Eastern and Biblical Antecedents. Germany, Ugarit-Verlag Münster, 2005. 295p.

CHARLES, R.H. The Book of Enoch: Together with a Reprint of the Greek Fragments. USA, Kessinger, 2008. 331p. (À venda em www.kessinger.net ). — Reimpressão da tradução inglesa do Enoch etíope de autoria de R. H. Charles, datada de 1912, junto aos fragmentos gregos em grego.

HENDEL, Ronald S. Quando os Filhos dos Deuses se Divertiam com as Filhas dos Homens. Em: SHANKS, Hershel (org.) Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto. Tradução de Laura Rumchinsky. Rio de Janeiro, Imago, 1993, p 177-187. — Parecer dum historiador arqueólogo sobre menções aos filhos de Elohim nos manuscritos de Qunran e noutros materiais com pertinência temática. Contém foto legível dum fragmento que não consta nos demais livros aqui listados.

MILIK, J.T. (Ed.). The Books of Enoch: Aramaic Fragments of Qumrân Cave 4. Oxford, Oxford University Press, 1976. XV, 439, XXXII pp. — Fotos, transliteração e tradução inglesa acompanhada de minucioso estudo acadêmico.

 

Estes são livros de apoio para arqueólogos, historiadores, pesquisadores profissionais e leitores avançados:

 

DAVIDSON, Maxwell J. Angels at Qumran: a comparative study of 1 Enoch 1-36, 72-108 and sectarian writings from Qumran. England, JSPS, 1992. 386p.

WHYBRAY, R. N. The Heavenly Counsellor in Isaiah xl 13-14: A study of the sources of the theology of deutero-Isaiah. United States of America, Cambridge University Press, 1971. 90p.

 

Menções a personagens do Livro dos Vigilantes na literatura medieval e posterior:

 

THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 52-53.

VAILLANT, Andre & JOVANOVIC, Pierre. Le Livre des Secrets d’Enoch. França, Le jardim des Livres, 2005, 316 p. — Contém variantes russas de II Enoch traduzidas para francês e o atual texto eslavo em eslavo.

 

Os livros de Raziel dão uma boa ideia do que os vigilantes supostamente ensinavam:

 

MORGAN, Michael A. (org). Sepher Ha-Razim: The Book of the Mysteries. Trad. Michael A. Morgan. USA, Society of Biblical Literature, 1983. 97p.

SAVEDOW, Steve. (org.) Sepher Rezial Hemelach: The Book of the Angel Rezial. Trad. Steve Savedow. San Francisco, Weiser Books, 2000. 302p.

 

Seleção para quem quer conhecer o posicionamento da igreja católica romana sobre anjos:

 

SÃO DIONÍSIO AEROPAGITA. A Hierarquia Celeste. Tradução anônima. Campinas, Edições Livre, 2017. 46p.

SÃO TOMÁS DE AQUINO. Os Anjos: quaestiones disputatae de veritate: questões 8 e 9. Tradução e notas Paulo Faitanin, Bernardo Veiga. São Paulo, EDIPRO, 2017. 319p.

SÃO TOMÁS DE AQUINO. Sobre o Ensino (De Magistro) e Os Sete Pecados Capitais. Tradução e estudos introdutórios de Luiz Jean Lauand. São Paulo, Martins Fontes, 2001. Ler da página 45 a 57.

GISDER, Frei Severino R. Anjos... Fantasia ou realidade? Rio de Janeiro, Edições Louva-a-Deus, 1997. 122p.

 

Seleção para quem quer questionar o posicionamento da igreja católica romana sobre anjos:

 

FRIEDMAN, Richard Elliott. O Desaparecimento de Deus: um mistério divino. Tradução Sonia Moreira. Rio de Janeiro, Imago, 1997. Ler da página 19 a 157. — Embora eu discorde do autor sobre a aglutinação da identidade pessoal dos anjos na figura de deus, este livro contém valiosos comentários sobre anjos e um excelente estudo sobre a evolução do conceito de divindade no mundo antigo.

KIRSCH, Jonathan. As Prostitutas na Bíblia: algumas histórias censuradas. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Tempos, 1998. Ler da página 29 a 42.

A Cuca no Facebook

Uma conhecida canção de ninar diz: “Dorme, neném, que a Cuca vai pegar. Papai foi para a roça, mamãe foi trabalhar”. Se o pai e a mãe estão ausentes, quem está cantando? Esta é a questão de análise textual proposta por uma postagem de Mhysa com vinte e cinco mil e setecentas curtidas, no Facebook.

Interpretando o texto, os primeiros internautas a responder supuseram que o falante parece ser a própria Cuca, em terceira pessoa. Contudo alguém perspicazmente notou que o tempo futuro do verbo em “vai pegar” indica que a Cuca não poderia estar tocando o neném no momento em que a canção é pronunciada, não tendo como ela estar com a criança no colo para ninar. Logo, ou o bebê está no berço, donde será apanhado após dormir, ou o falante não é a Cuca. Afinal, conforme observado por outrem, o futuro da frase se refere à ação de “pegar”, não tendo nada a ver com o fato de a Cuca já estar ou não estar presente no recinto.

Os pragmáticos observam que a Cuca não poderia mandar o bebê dormir para ela poder pegá-lo sem despertar o choro, porque a Cuca é um mero personagem do folclore brasileiro, desprovido de existência fora do mundo das ideias. Ela é conhecida por raptar crianças malcriadas. Então os adultos tentam convencer as crianças a dormir nas horas corretas pois, do contrário, serão levados pela Cuca. Ou o cuidador ameaça entrega-las para a Cuca em caso de desobediência. Daniel Araujo Castro assegura: “Que” a Cuca vai pegar tem o valor de pronome relativo. Portanto, interpretar-se-ia a cantiga como “Se você não dormir a Cuca vai te pegar”.

Um leitor desapegado dos valores subentendidos foi curto e grosso: A letra da música é “dorme neném que a Cuca vai pegar” e não “dorme neném se não a Cuca vai pegar”. Argumento insofismável.

Enquanto isso outros discutiam que é a babá quem está cuidando e cantando. Ou, sendo a música da época de Brasil colônia/império, quem canta é a escrava que servia de ama de leite. Todavia terceiros ponderam que o pai trabalha na roça e a mãe, segundo uma variante, no “cafeza” (cafezal). Nota-se que a criança é de família humilde e, neste caso, o casal não teria ganho suficiente para pagar uma babá ou manter uma escrava.

Alguém ainda opinou que poderia ser a avó, ou quem quer que esteja responsável pelo neném. Finalmente, solucionando o mistério, uns peraltas que já tiveram infância sugeriram que quem está cantando é o irmão ou irmã mais velho, pois normalmente quem fala “papai” e “mamãe” são apenas seus outros filhos. Terceiros falariam “teu pai” e “tua mãe”. Conclusão: Isso é coisa de irmão mais velho botando medo no caçula.

Nota meritória dum internauta marxista: A exploração capitalista de todos os membros adultos da antiga família nuclear provoca a desguarnição das crianças que ficam expostas à pegação da Cuca.

Como os quadrinhos foram responsabilizados pelo pânico dos vampiros na década de 1950 na Escócia

Achei importante traduzir essa matéria de autoria de Maren Williams, produzida para a organização não governamental CBLDF.

 

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Como os quadrinhos foram responsabilizados pelo pânico dos vampiros na década de 1950 na Escócia

 

30/10/2018

Maren Williams

 

O ano era 1954. O local: Glasgow, uma necrópole ao sul da Escócia, enorme cemitério abrigando mais de 250.000 defuntos. Durante um período de três noites, em setembro, centenas de crianças menores de 14 anos supostamente se reuniram ali com armas improvisadas, prontas para enfrentar um vampiro que elas haviam conjurado do âmago de sua imaginação coletiva. Isso seria bizarro o suficiente, mas então os adultos atribuíram o comportamento infantil à influência dos quadrinhos de horror americanos.

A história do Vampiro de Gorbals foi recontada em um documentário da BBC Radio 4, em 2010, no qual entrevistaram alguns dos antigos vigilantes de meia-idade. A boataria nos pátios das escolas de Glasgow assegurava que que um vampiro de sete pés de altura (2,1336 m), com dentes de ferro e um gosto por crianças, estava à espreita na área. Eles acreditavam que ele já havia comido dois meninos, a despeito de não haver ninguém desaparecido, e certamente viria apanhar mais a menos que fosse impedido. Como os adultos se mostraram inúteis nesse cenário, as crianças decidiram resolver o problema com suas próprias mãos.

Embora a turba haja sido dispersada pela polícia e pelo diretor duma escola local na primeira noite, a aglomeração se reuniu no cemitério por mais duas noites depois disso; o que foi tempo suficiente para a história virar notícia em jornais locais e nacionais, focados na busca duma explicação para a crença inabalável das crianças no vampiro.

Militantes da causa anti-quadrinhos aproveitaram a oportunidade, alegando que a ideia havia sido plantada por gibis de horror “aterrorizadores e corruptos” como Tales From the Crypt e The Vault of Horror.

 

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Não importava que quadrinhos norte-americanos fossem difíceis de obter na Escócia, nem que a produção de horror nacional tendia a ser bastante suave, a exemplo de The Beano e The Dandy. Igualmente não importava que o detalhe específico dos dentes de ferro estivesse associado não a um monstro dos quadrinhos, mas à Bíblia, bem como a “um poema ensinado nas escolas locais”.

O caso do Vampiro de Gorbals oferecia evidência conveniente para aqueles que queriam que quadrinhos fossem regulamentados pelo governo. Ao contrário dos EUA, onde a indústria realizava a censura prévia com base no Comics Code, os censores do Reino Unido tiveram sucesso em 1955, quando o Parlamento aprovou a Lei de Crianças e Jovens (Publicações Nocivas). A lei, tecnicamente ainda em vigor, ainda que amplamente ignorada, proíbe a venda de gibis e revistas retratando “incidentes de natureza repulsiva ou horrível” a menores.

Essa lei pode parecer um vestígio dos anos 1950, mas algo como um eco disto eclodiu em data relativamente recente, em 2007, quando a cidade de Pequim rotulou Death Note de “publicação ilegal aterrorizante” e proibiu sua venda nas bancas depois que pais e professores reclamaram que as crianças estavam “gastando muito tempo lendo as histórias de horror e não tendo tempo suficiente para estudar”. Em ambos os casos, talvez os adultos pudessem se beneficiar do mesmo exercício de imaginação que seus filhos obtiveram com a leitura de lazer!

  

Fonte:

 

Maren WILLIAMS. How Comics Were Blamed for the Vampire Panic in 1950s Scotland. Copyright © 30/10/2018 Comic Book Legal Defense Fund. Hyperlink: <http://cbldf.org/2018/10/how-comics-were-blamed-for-the-vampire-panic-in-1950s-scotland/?fbclid=IwAR1xgNJjMo808EN_k0Gv0lQ-EIOmeZR8h2fI6leTr9pICpz8Iryt3rZvDj0>

Tem uma coisa pavorosa andando pelos canos?

Pergunta: Eu li que Lilith habita poços, esgotos e qualquer fonte de água. Essa informação procede?

 

Estórias de entes fabulosos ou fantasmas de pessoas que vivem dentro de poços, cisternas, esgotos, etc., persistem até hoje, inclusive na arte. Um exemplo é o videoclipe It is Safe to Sleep Alone da banda Sopor Aeternus & The Ensemble of Shadows. O Japão tem explorado e exportado esse tema, a exemplo do sucesso de bilheteria dos filmes O Chamado (The Ring, 2002) e Água negra (Dark Water; Buena Vista, 2005) baseados em coleções de estórias de Kôji Suzuki.

 

Menina morta saindo do poço.

Cena de O Chamado 3. 

 

Houve um tempo em que muitas comunidades judaicas proibiram que se bebesse água no equinócio e no solstício, pois se acreditava que neste período os sobrenaturais poluíam os líquidos expostos com gotas de veneno ou com os pingos do sangue menstrual de Lilith.[1] Havia até mesmo o comércio de amuletos para divorciar os vivos dos espíritos que insistiam em habitar os poços e cisternas. Por essa razão o tratado Gittin contém um debate sobre se o morto pode ou não mandar o médium enviar uma carta de divórcio para sua esposa viva:

 

Mishnah: לבור מושלך שהיה מי – If someone was thrown into a pit קולו את השומע כל ואמר – and he said that whoever hears his voice לאשתו גט יכתוב – should write a get for his wife, הרי ויתנו יכתבו אלו – [those who hear his voice] may write the get and give it to his wife.[2]

 

Nós sabemos que estas cartas de divórcio eram de mentirinha porque foram encontrados vários amuletos neste formato. O museu da Universidade da Pensilvânia possui um amuleto aramaico datado do séc VI cuja redação nos informa que Rabbi Joshua bar Peraḥia recebeu “uma carta de divórcio remetida para nós do céu” a fim de divorciar Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi do “macho Lili e fêmea Lilith”.[3] Barbara Black Koltuv compara esta fonte com “outros vasos babilônicos” que apresentam ordens de divórcio, expulsando Lilith.[4]

Uma lei sumeriana dizia que “se uma mulher odeia seu marido e diz para ele ‘Você não é mais meu marido’ ela deve ser lançada no rio”.[5] De acordo com um conto anedótico de inspiração judaica, a primeira mulher foi uma Lilith. Ela não quis que o homem fizesse sexo montado sobre o seu corpo e fugiu. Três anjos saíram em seu encalço e a localizaram nadando “nas poderosas águas onde os egípcios estavam destinados a afogar-se”. Quando ela se recusou a retornar eles pronunciaram a sentença: “Nós te afogaremos no mar”.[6]

 

Notas:

 

[1] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trad. Paulo Geiser. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p 77, 154 e 176.

[2] GOLDWURM, R' Hersh (ed.) Talmud Bavli: Tractate Gittin. Brooklin, Artscroll, 2004, 66ª.

[3] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Detroit, Wayne State University, 1990, plate 32, p 225-226.

[4] KULTUV, Barbara Black. O Livro de Lilith. Trd. Rubens Rusche. São Paulo, Cultrix, 1997, p 117.

[5] LARAIA, Roque de Barros. Jardim do Éden Revisitado. Em: Revista de Antropologia. Vol. 40, n º 1. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1997, p 162, nota 5.

[6] Alphabet of Ben Sira Question #5 23a-b. Em: STERN, David and MIRSKY, Mark Jay. Rabbinic Fantasies. Philadelphia, Jewish Publication Society, 1990, p 183-184.