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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

A vida extraterrestre é possível?

Eu não acredito em discos voadores dirigidos por alienígenas que vem fazer turismo espacial, churrasco de tripas de vaca ou realizar fantasias sexuais em nosso triste planeta. Tenho a impressão de já ter visto todo tipo de coisa estranha nessa vida, menos uma proposta de emprego viável (provavelmente porque dinheiro é um objeto mitológico que realmente não existe). Cansei de ver ORBs que se explicam pela imperícia técnica dos malandros que não esperavam a solução reveladora das fotos velhas secar direito. Eu já vi um genuíno objeto voador não identificado (OVNI), mas, por favor, entenda isto apenas como algo que eu nunca tinha visto antes. Não era um avião, dirigível, balão ou qualquer tipo de míssil. Não era o tipo de coisa que sobrevoava o espaço aéreo do bairro do Rio Comprido, Rio de Janeiro, RJ, com freqüência.

Aconteceu terça feira, dia 28/10/1997, pouco antes das 9:46 da noite. Logo depois de avistar a bizarrice escrevi isto em meu diário:

 

Eu estava deitada na cama do meu quarto, em frente à janela, olhando para o céu. De repente percebi um objeto estranho se aproximando. O objeto se apresentava como um ponto muito brilhante, laranja claro, envolvido por uma auréola de luz branca transparente e que aparentava possuir uma grande e luminosa cauda branca.

Por causa da cauda, de princípio pensei se tratar de um objeto em forma de bastão, mas depois ele entrou voando por cima das nuvens (o céu está parcialmente coberto por cirros estratos) e, graças às nuvens, tornava-se hora visível, hora não. Ele parece ter diminuído a velocidade e, nos momentos em que estava visível, pude constatar que na verdade era um objeto circular.

Pensei tratar-se de um OVNI, pois estava apresentando um comportamento incomum para um simples avião. Chamei minha mãe. Ela veio ver e concordou que aquilo não parecia com um avião. Fomos para a varanda para ver melhor. Minha mãe reparou que o objeto estava subindo cada vez mais. Achamos que nenhum avião faz rota naquela altura. Chegou uma hora em que não encontrávamos mais o objeto entre as nuvens. Ficamos procurando até que minha mãe apontou dizendo: Ali!

Uma grande esfera havia saído por cima das nuvens e, à medida que se distanciava delas ia baixando as luzes até ficarem bem fracas. Isso sim, não tinha erro, era um disco escuro azul metálico rodeado por sete luzes laranja e uma vermelha. Era um objeto tão grande que mesmo numa altura considerável podia ser visto do tamanho de uma moeda de 50 centavos, aproximadamente. (Não sei se era o mesmo objeto de antes. Estava numa altitude mais baixa). Este disco voou em linha reta desde quando saiu das nuvens até se perder de vista passando por cima da minha casa.

Pouco tempo depois minha mãe reparou no que parecia ser uma “estrela se movendo”. Uma forma redonda alaranjada - muito semelhante à primeira - que voava a uma altitude incrível se dirigindo para a direita em linha reta. Ficou muito tempo nesse trajeto até sumir entre as nuvens. Aparentemente se deslocava bem lentamente mas eu não saberia medir a velocidade de algo naquela distância.

Juntou um pouco de gente na rua quando me ouviram gritando para minha irmã vir correndo. Ficaram olhando para o céu. 

 

O ser humano que inventou esta coisa interessante e a estava testando sobre minha cabeça – sem dó de esmagar algum favelado brasileiro em caso de queda livre – faria bem em começar a produção em massa da maravilhosa bugiganga. Se o combustível não custar uma fábula isto resolveria o problema do trânsito e poderia melhorar nossa qualidade de vida deixando o planeta parecido com o desenho dos Jetsons. (Os sacoleiros aplaudiriam de pé! )

Enfim, como eu estava dizendo, não acredito em discos voadores dirigidos por alienígenas nativos de outros planetas que vem aqui fazer turismo espacial, churrasco de tripas de vaca, estudar português ou jogar biriba com fanáticos religiosos. Os habitantes de outros planetas não podem nos visitar porque lá no cafundó do Judas é muito longe, eles também tem vida curta e não conseguiriam chegar até a Terra dirigindo charangas velhas mesmo se quisessem. Contudo me parece sensato admitir a probabilidade da existência de espécies de vida extraterrestre noutras partes deste universo.

Ao contrário do que pensa o vulgo, a NASA não omite informações quando o assunto é vida alienígena. Sempre que aparece o menor indício da existência de extraterrestres eles fazem um baita estardalhaço porque hoje em dia ninguém quer saber de pedras, poeira e foguetes. O apoio popular depende dos acidentes e excentricidades!

Eis algo exótico: Alguns dos primeiros robôs que pousaram em Marte jogaram comida no chão e esperaram por algo que viesse comer. Na primeira exposição de água e nutrientes foi detectado aumento da produção de CO2 no local. Seria isto um indício da atividade de microrganismos semelhantes ao Acetobacter peroxidans terrestre, adaptados àquelas condições ambientais? Talvez sim. Talvez não. Quatro bilhões de anos atrás o planeta Marte foi atingido por um meteorito que acertou uma pedrinha e catapultou-a ao espaço, feito bola de bilhar. Essa pedra marciana caiu na Antártida, onde permaneceu até 1996, quando pesquisadores a encontraram e rotularam como “meteorito ALH84001”.

A observação de secções microscópicas do meteorito ALH84001 revelou fósseis de bactérias ou resíduos de querogênio! A NASA convocou uma coletiva de imprensa e rapidamente divulgou fotos de possíveis bactérias marcianas.

 

 

Seria mais interessante se as bactérias congeladas do meteorito ALH84001 não tivessem morrido no espaço a bilhões de anos, impossibilitando a análise do DNA. Em algum lugar no universo deve existir algo capaz de suportar tal viagem, pois o radiotelescópio do projeto Atacama, no Chile, detectou traços de glicoaldeídos na nuvem de gás que circunda a estrela jovem IRAS 16293-2422. Isto é uma prova cabal da existência de formas de vida no espaço sideral. Ou seja, vida que não permanece estacionada num planeta!

O projeto SETI busca constantemente por sinais de inteligência. Desde o início da era dos radiotelescópios foram captados trinta e sete sinais de ondas de rádio que permanecem sem explicação. Entre eles um sinal originário da constelação de Sagitário, com freqüência de 1420.4556 MHz, recebido pelo radiotelescópio Big Ear em 15 de agosto de 1977, enquanto Jerry E. Ehman trabalhava pelo programa SETI em Ohio. O computador registrou este sinal como uma seqüência de seis letras e números que durou 72 segundos. Ao lado disto Ehman escreveu "Wow!", ficando assim conhecido.

 

 

Em tese isto pode ser um fragmento de transmissão emitida por uma civilização extraterrestre avançada porque tal onda se destaca das outras comumente vindas do espaço. Infelizmente não é algo completo nem tão obviamente artificial quanto uma música ou um programa de TV. Não existe decodificação. O que mais se vê são teorias... A hipótese de existência de vida extraterrestre organizada na forma de “um rebanho de máquinas obedecendo a uma vontade soberana” já havia sido levantada pelo filósofo brasileiro Gonçalves de Magalhães, em 1858, enquanto ele debatia a questão paradoxal do determinismo contraposto ao livre arbítrio:

 

Supondo, porém, uma sociedade de entes sem liberdade, sem virtudes nem vícios, sem bens nem males, todos de acordo e uniformes obedecendo a uma só vontade sempre justa; uma tal sociedade é possível, e talvez exista em qualquer outro sistema planetário.[1]

 

Para certas pessoas nada poderia ser pior que descobrir uma sociedade humanóide que fosse um espelho perfeito de nossa miséria, cuja existência provasse unicamente que a dor de viver não tem solução. A última coisa que tais pessoas poderiam desejar é que o sonho do escapismo – o conhecimento duma sociedade espacial – revelasse que nem o uso lógico da razão nem a mais avançada tecnologia possuem o poder de libertar alguém dos seus problemas pessoais; muito menos do aborrecimento da política e tudo que nos faz humanos. Que lástima seria se um anjo tivesse de ir ao banheiro! O crente deseja o céu da religião e das fábulas, não um vácuo poeirento! Ninguém quer ser infectado pelas bactérias marcianas. Contudo, o que o bom cientista costuma fazer ao se deparar com uma praga que reproduz incontrolavelmente é inventar um pesticida.

Em 1979 a revista Ícarus, número 38, editada pelo astrônomo Carl Sagan, publicou um artigo de Hiromitsu Yokoo e Tairo Oshima, especulando que um sistema biológico simples e capaz de auto-replicação em ambientes adequados possa ser um canal de comunicação interestelar. Por exemplo, foi verificado que a quantidade de letras [2] na seqüência dos três pares de genes sobrepostos do bacteriófago Phi-X174 é respectivamente 121, 91, 533; três números semiprimos, resultantes da multiplicação de 11 x 11, 7 x 13 e 13 x 41.  Assumindo que a tripla coincidência tem a ver com intenção inteligente, seria razoável supor que alguém projetou e construiu este vírus? Eu creio que não, mas a hipótese de existência de organismos terrenos etiquetados com a marca registrada dum criador extraterreno não deixa de ser digna de nota. O vírus Phi-X174 infecta todos os gêneros da E. coli, uma das mais antigas bactérias simbiontes do homem. Isto vive em nossos intestinos. Algumas espécies nos prejudicam, outras ajudam na digestão. Tanto a ausência quanto o excesso de E. coli pode nos matar.

 

Um OVNI de respeito. 

 

 

Referências:

 

[1] MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves de. Magalhães. Factos do Espírito Humano. Paris, Livraria D’Auguste Fontaine, 1858, 370.

[2] O código genético consiste em uma fileira de nucleotídeos, representados pelas letras A (adenina), T (timina), G (guanina) e C (citosina). Cada “palavra” formada pela combinação de três letras (AGC, CCA, GCA etc) codifica um aminoácido numa proteína.

A sala maluca do Rei Salomão

No capítulo 56 de seu tratado sobre Pneumática, o engenheiro mecânico Philo de Bizâncio descreveu uma antiqüíssima engenhoca de tecnologia judaica capaz de girar para frente ou para os lados, para cima e para baixo. Um copista árabe adicionou notas de pé de página afirmando que o trono do Rei Salomão era na verdade um desses aparelhos disfarçado de cadeira: “Quem conhecia o funcionamento do trono podia sentar e permanecer sentado, mas quem não estava familiarizado com aquilo sentava e caia no chão. Isso era muito engraçado”.[1] O profeta Mohamed parecia gostar das estórias sobre a sala maluca do Rei Salomão, assim como todos os árabes, já que narrou um conto folclórico sobre o momento em que a Rainha de Sabá entrou no recinto:

 

A ela foi dito, “Entrai no palácio”. E quando ela o viu, julgou que era uma massa de água, e descobriu as suas pernas. Salomão disse: “É um palácio com um suave pavimento de chapas de vidro”. Ela disse: “Meu Senhor, eu tenho na verdade lesado a minha alma”. (Corão 27:45).[2]

 

A sala maluca não era a verdadeira sala do trono. Na fábula o rei manda construir uma réplica do recinto com chão todo pavimentado de espelhos só para induzir a rainha a cometer uma gafe se comportando como uma mulher indecente. O problema é que, segundo alguns, a rainha estava sem calçinha e tinha pernas cabeludas! Ela tinha marcado uma reunião de negócios, mas desejou ter um filho com ele assim que viu o ninho de amor planejado para expor suas partes íntimas. Não teve mandrágora que curasse a dormência do idoso fogoso diante do horripilante matagal. Então ele usou sua sabedoria divina para inventar uma solução depilatória e melhorar o aspecto da mulher.

 

Quando ela veio trazer presentes ao Salomão para confirmar sua reputação de sábio, ele achou-a muito atraente e desejou dormir com ela. Mas Salomão descobriu que ela tinha muito cabelo. Ele apanhou limo e arsênico, misturou com água e produziu uma solução depilatória de limo. Então ele besuntou-a com a solução, banhou-a e o cabelo caiu. Ele coabitou com ela logo a seguir. Então ela disse a Salomão: “Eu não acreditava nestas coisas até vê-las com meus próprios olhos”. (Alfabeto de Ben Sira I).[3]

 

Após consultar fragmentos dos textos intitulados Grandes e Pequenos Palácios, o Alfabeto do Rabino Akiva e quatro versões do Midrash dos Dez Mandamentos, o folclorista Gershom Schoelem descobriu que Deus também tem salas malucas! O Talmude (Haguigá 14b) e a Tossefta citam o seguinte fragmento dos Pequenos Palácios:

 

Quatro entraram no “Paraíso”: ben-Azai, ben-Zoma, Aher e Rabi G Akiva. Rabi Akiva lhes disse: “Quando chegardes ao lugar das placas de mármore brilhantes, não digais: Água, água! Pois está escrito: Aquele que fala mentiras não permanecerá na minha presença”.[4]

 

Segundo Gershom Schoelem, os místicos da mercabá demonstraram uma compreensão perfeitamente correta do significado desta passagem, e sua interpretação fornece uma prova decisiva de que a tradição continuava viva entre eles. No manuscrito de Munique dos textos das Hehalot (ms. Munique 22, f. 162b) lemos com respeito aos perigos da ascensão:

 

Quando alguém era indigno de contemplar o Rei em sua beleza, os anjos nos portais perturbavam seus sentidos e o confundiam. E quando eles lhe diziam: “Entra”, ele entrava, e instantaneamente eles o agarravam e o atiravam na corrente chamejante de lava. E no portão do sexto palácio era como se centenas de milhares e milhões de ondas de água se levantassem contra ele, e não havia uma única gota de água, só o brilho etéreo das placas de mármore com que o palácio era revestido. Mas, se ele estava em pé em frente aos anjos e perguntava: “Qual é o significado destas águas”, começavam a apedrejá-lo e diziam: “Infeliz, não vês com teus próprios olhos? És talvez da semente dos que beijaram o Bezerro de Ouro e indigno de contemplar o Rei em sua beleza?”... E ele não pode sair até que eles lhe golpeiem a cabeça com barras de ferro e o firam. E isto será um sinal para todos os tempos de que ninguém poderá errar às portas do sexto palácio e ver o brilho etéreo das placas e perguntar por elas e tomá-las por água, para que não se ponha em perigo.[5]

 

Novamente o ato de confundir espelhos ou ladrilhos azuis com água se revelou um erro fatal. A jornada de ascensão aos palácios e mundos paralelos oferecia grande perigo àqueles que atuavam sem a devida preparação. Noutro fragmento citado pelo manuscrito de Oxford n. 1531, f. 41a, um místico encontra o arconte guardião das portas do primeiro céu e sofre combustão espontânea: “Enquanto eu o contemplava, queimaram-se minhas mãos e fiquei parado sem mãos e sem pés”.

A sublimação podia matar ou transformar o humano em anjo, assim como Enoch foi transformado em Metatron! Em ambos os casos o humano é consumido por um fogo que brota de seu próprio corpo (Hehalot Rabati 3:4). A permanência na posição vertical sem os pés é igualmente mencionada noutras fontes como uma vivência característica do misticismo da mercabá.

 

Referências:

 

[1] BELLMER, Hans. The Doll. Trd. Malcolm Green. London, Atlas Press, 2005, p 62.

[2] O SAGRADO AL-CORÃO. Grã Bretanha, Islam International Publications, 1988, p 372.

[3] STERN, David & MIRSKY, Mark J. (org). Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Classical Hebrew Literature. London, Yale University, 1990, p 180.

[4] SCHOELEM, Gershom. As Grandes Correntes da Mística Judaica. Trd. J. Guinsburg e outros. São Paulo, Perspectiva, 1995, p 57.

[5] SCHOELEM, Gershom. Obra citada, p 58.

Rainha de Copas

Em dado momento do enredo da franquia JoJo's Bizarre Adventure, o personagem antagonista Dio Brando é decapitado e rouba o corpo do herói contra quem lutava. Se virar um monstro de Frankenstein feito de partes do self costuradas em sua sombra é encontrar a plenitude ou o domínio do delirante universo holográfico, você decide... Lembro de ter lido coisas igualmente bizarras em textos de séculos passados. O romance místico Chymische Hochzeit Christiani Rosencreutz (1616) descreve um casal de reis incorruptos que ressuscita e rejuvenesce bebendo sangue nobre. Eles dormem em caixões exatamente como os vampiros fariam no Drácula de Bram Stoker, séculos mais tarde.

O problema é que a palavra “vampir” nem fazia parte do vocabulário alemão à época. O mito tal como conhecemos hoje é muito recente. Não existia em Württemberg, no ano 1616. Os reis alquimistas foram desfragmentados e recompostos por um grupo de alquimistas auxiliares. Será que isto pode ser classificado como vampiro hoje em dia? Em alguns filmes e revistas em quadrinhos do século XX, derramar algumas gotas de sangue sobre as cinzas de um vampiro fictício era o bastante para iniciar a recomposição do cadáver; mas até o século XIX o folclore europeu não continha relatos de tal proeza exceto, talvez, pela mãe do camponês Dinu Gheorghiṭa que dizem ter sido serrada ao meio em Amărăşti, na Romênia. Essa strigoica se recompôs sozinha, sem ajuda de ninguém.

Então os alquimistas fictícios esquartejaram um vetāla hindu, cozeram no caldeirão grego de Medéia, usaram técnicas cabalísticas judaicas para criar  um golem e o fizeram beber a anima carnis de Paracelsus? Certamente não foi nada disso que aconteceu... Ou foi exatamente isso que ocorreu... Vá entender o mundo das idéias!

A religião grega exortava o povo a crer na feiticeira Medéia e suas magias. Acreditava-se que ela era bisneta de Hélio, o deus Sol (Hesíodo. Teogonia 958-60; Apolodoro 1.9,23; Pínd. Política 4,9-10) e sobrinha de Circe (Odisséia. 10,137). Algumas fontes dizem ser filha de Hécate (Denis de Mileto fr. Tla, Jacoby; Diodoro 4.45,3). Os nomes e destinos de seus filhos com Jasão variam conforme a fonte consultada, mas eles nem sempre morrem pelas mãos da mãe (Pausânias 2.3,9). Na Poética, cap. XV, Aristóteles se queixa de que “o desenredo das fábulas deve decorrer da própria fábula e não, como na peça teatral de Eurípedes, de um mecanismo representado o Carro do Sol.

Na mitologia grega Medéia faz-se de amiga das filhas do rei Pélias e diz ser capaz de rejuvenescer quem ela quiser. Para provar mandou esquartejar um carneiro velho e colocou-o dentro de um caldeirão com uma poção fervente. Em seguida retirou o animal inteiro e saudável. Outros autores sustentam que fez a prova com Éson, pai de Jasão, o que lhe dava ainda mais crédito. As raparigas, excitadas, correram a esquartejar o próprio pai e lançar os seus pedaços dentro do caldeirão. Como é óbvio, não voltou a sair de lá com vida. De acordo com Carlo Ginzburg,

 

Ao esquartejamento, seguido pela imersão num caldeirão de água fervente, recorre a maga Medeia para rejuvenescer Jasão e matar com uma cilada o tio dele, o usurpador Péleas. Esquartejamento, fervura, recomposição dos membros e ressurreição sucedem-se, como se recordará, na história de Pélope; à imersão no fogo, como meio para assegurar a uma criança a imortalidade, haviam sido submetidos, sem êxito, Demófon e Aquiles.[1]

 

O tema similar de um carrasco negro decapitando e fatiando o Rei Sol aparece no tratado alquímico Splendor Solis (séc. XVI) de S. Trismosin. Na espada do carrasco está escrito: “Matei-te para que possas ter uma vida transbordante (...), mas esconderei a tua cabeça, para que o mundo não te veja”[2]. Aqui me apresso a dispensar a opinião do psicanalista ou palhaço que venha rir dizendo que mulher não entende uma simples metáfora sobre o sacrossanto ato de despetalar a rosa fétida, afogar o ganso, fazer tchaca tchaca na butchaca ou – conforme professa a sabedoria do papo reto dos morros cariocas – foder gostoso.

Isso é verdade sim, mas as alegorias alquímicas, assim como a cabala, possuem múltiplos sentidos. Quando a intenção é aprender metalurgia e ganhar dinheiro, nos antigos documentos alquímicos o corvo ou homem a ser decapitado não é um ser vivo de verdade, mas sim uma forma antropomorfa do enxofre liberado pelo aquecimento do sulfeto de arsênico impuro.

Após ser atingido por um raio o tintureiro persa Hashim ibn Hakim se sentiu tocado por uma força suprema. Crendo ser um eleito de deus ele mudou de profissão, virou profeta e chegou a liderar um exército numa suposta guerra santa de muçulmanos contra muçulmanos. Conforme testemunhos do califado abássida, Hashim ocultava o rosto porque perdeu um olho e nunca mais cresceu cabelo na parte queimada da cabeça. Jorge Luis Borges parafraseou a narrativa fantasiosa do cronista Ibn abi Tair Tarfur, em sua História Universal da Infâmia:

 

O homem do deserto disse-lhes (...) que era Hákim, filho de Osman, e que no ano 146 da Emigração entrou um homem em sua casa, o qual, depois de purificar-se e rezar, lhe cortou a cabeça com um alfanje e levou-a para o céu. Sobre a mão direita do homem (que era o anjo Gabriel) a cabeça esteve diante do Senhor, que lhe impôs a missão de profetizar e inculcou palavras tão antigas que sua repetição queimava as bocas e lhe infundiu um glorioso resplendor não suportado por olhos mortais. Tal era a razão da Máscara.[3]

 

Impossível não lembrar do vaticínio do sábio Dubane, personagem dum conto nas Mil e Uma Noites, sobre outra cabeça profética:

 

Possuo, entre outras obras, uma intitulada Da Particularidade das Essências. Estou disposto a presenteá-lo com ela e sei que figurará num lugar de relevo entre seus tesouros. (...) Eis, não obstante, o primeiro segredo que o senhor poderá nele encontrar: Se mandar que me cortem o pescoço e abrir em seguida essa obra na sexta página, bastará que leia as três últimas linhas transcritas no lado esquerdo da página em questão e, depois disso, me dirija a palavra, para que veja minha cabeça começar a falar e respoder suas perguntas. (...) Segure este livro e não o abra. Quando minha cabeça estiver separada do corpo, ordene que ela seja colocada sobre este prato, em contato com o pó, até constatar que meu sangue já não flui. Abra então o livro, e minha cabeça responderá a todas as perguntas que o senhor lhe fizer.[4]

 

Quando soube que fora condenado à morte o feiticeiro Dubane idealizou a vingança contra o rei, que morreu folheando um livro envenenado. Mesmo assim a mágica funcionou e a cabeça do personagem decapitado falou.

Tem gente que jura que viu a mágica acontecer e descobriu como era feita. O Pequeno Alberto é um desses livros cheios de embustres e receitas de magias esdrúxulas, publicados em anonimato para evitar sanções legais em tempos de perseguição e censura severa. Este livro seguramente já existia em 1695. Seu autor narra uma visita a Lille, em Flandres, onde viu um mágico fazendo uma mesa quadrada apoiada em cinco colunas. A coluna do meio era um cano disfarçado de madeira que entrava pelo chão e saía numa bacía de cobre furada sobre a qual estava a cabeça duma estátua de São João, oca, com a boca aberta. Havia um porta voz que passava através do chão do quarto no andar de baixo de modo que uma pessoa, falando através da engenhoca, era distintamente ouvida no gabinete acima, pela boca da cabeça.[5]

 

Referências:

 

[1] GINZBURG, Carlo. História Noturna: Decifrando o sabá. Trd. Nilson Moulin Louzada. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p 231.

[2] ROOB, Alexander. Alquimia & Misticismo. Trd. Teresa Curvelo. Itália, Taschem, 1996, p 211.

[3] BORGES, Jorge Luis. História Universal da Infâmia. Trd. Flávio José Cardozo. Rio de Janeiro, Globo, 1988, p 36-41.

[4] NAVARRO JR, Jesse e GOMES, Márcia de Melo (org). As Mil e Uma Noites: Damas insignes w servidores galantes. São Paulo, Brasiliense, 1990, p 141-142.

[5] HUSSON, Bernard. O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 377.

A Sombra do Retrato de Dórian Gray

Em meu artigo Os Superiores Desconhecidos, previamente publicado na Rede Vamp, pretendi demonstrar que Edward Alexander Crowley poderia não estar blefando quando escreveu no décimo oitavo capítulo do opúsculo De Arte Magica (1914) que Oscar Wilde foi um “vampiro” mais competente do que todos os que um dia pertenceram ao seu círculo social. Sabemos que Florence Balcombe rompeu um noivado de três anos com Oscar Wilde, em 1878, para aceitar a proposta de casamento de Bram Stoker que deixou anotações de próprio punho explicando como a convivência com sua esposa o inspirou a escrever o romance Drácula (1897).

Tudo isso parece tremendamente interessante até constatarmos que o próprio Oscar Wilde nunca escreveu a palavra “vampirismo”. O mais próximo que um profano apegado à literalidade das palavras pode chegar da matéria é a resposta do personagem Henry Wotton à pergunta de sua tia Lady Ágata:

 

— Lorde Henry, desejaria que o senhor me ensinasse a rejuvenescer.

— Pode lembrar-se de algum grande erro cometido nos seus primeiros dias, duquesa?

— Temo lembrar-me de um grande número — exclamou ela.

— Pois cometa-os de novo — disse ele, gravemente. — Para se voltar à mocidade, basta repetir as suas loucuras.[1]

 

Nada poderia soar mais como uma ríspida negação do vampirismo. Se isto é o pronunciamento oficial de Oscar Wilde sobre rejuvenescimento e se este homem foi o melhor vampiro do século XIX, segundo Crowley, então está tudo acabado... A menos que o autor não quisesse ser levado a sério.

Notadamente a fala supracitada é de um personagem que quer se livrar do falatório inútil duma tia velha. O grande segredo não seria revelado à toa para quem sequer seria capaz de entender. Afinal, segundo o personagem, todas as mulheres pertencem a um “sexo decorativo” que representa o triunfo da matéria sobre a inteligência, exatamente como os homens representam o triunfo da inteligência sobre a razão.

Lorde Henry Wotton é um hedonista que escolhe seus amigos por sua boa aparência, seus simples conhecidos pelo bom caráter e seus inimigos por sua boa inteligência. Inteligente e cínico demais para ser verdadeiramente amado, ele possuí o encanto de ser muito perigoso. Tem o hobby de ensinar sua filosofia do prazer aos belos e bem nascidos para que abandonem todas as “renúncias” tolamente rotuladas de virtudes, assumindo e integralizando as “rebeliões naturais” que os teólogos chamam de pecado. Quando logra êxito em convencer os outros ele usa seus discípulos como bem entende e descarta-os quando as velhas companhias não mais lhe convêm.

 

Havia algo de terrivelmente sedutor no exercício da influência. Nenhuma outra atividade podia comparar-se a ela. Projetar a própria alma numa forma grácil, deixá-la descansar por um instante e escutar a seguir as suas idéias repetidas como pelo eco, acrescidas de toda a música da paixão e da juventude; transportar para outro o seu temperamento como um fluido sutil ou um estranho perfume; isso era um verdadeiro gozo.[2]

 

O próprio personagem afirma crer que toda influência é imoral do ponto de vista científico. Gostar duma teoria e se sentir fascinado por ela são duas coisas diferentes. O objetivo do exercício da influência é gerar fascinação. O homem é uma criatura complexa com uma infinidade de facetas, que leva em si heranças estranhas de pensamentos e paixões. É um ser de múltiplas vidas e múltiplas sensações. Para desconstruir e remodelar a psique de alguém basta puxar o fio certo e preencher o espaço vago conforme sua vontade.

 

Influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela.  Os seus pecados, se é que existem pecados, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela.[3]

 

Desta forma Oscar Wilde inicia uma critica velada, porém severa, contra a psicanálise (especialmente quando aplicada por amadores, fora do ambiente clinico, para fins doutrinários ou escusos). É evidente que a intenção de influenciar torna falacioso o argumento de que ser bom é estar em harmonia consigo mesmo “e não o ser é ver-se forçado a estar em harmonia com os outros [4]”. A isca do libertino para pescar a beleza é um discurso cheio de idéias notadamente extraídas de teorias psicanalíticas. É um tipo de lavagem cerebral planejado para fazer alguém renunciar à moral e à religião; entendendo que ambas se baseiam em temor reverencial, sendo, portanto, meros instrumentos de controle social e tolhimento da personalidade.

 

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, ou do que os homens chamam de pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidas por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência. Pois todos os pecados, como sempre nos recordam os teólogos, são pecados de desobediência. Quando aquele espírito altaneiro, aquela estrela matutina do mal caiu dos céus, sua queda foi a de um rebelde.[5]

 

Henry Wotton ensina que é preciso curar a alma por meio dos sentidos e os sentidos por meio da alma. Assim idealizar-se-ia um novo esquema de vida que apresentasse uma filosofia sensata, princípios ordenados, e encontrasse na espiritualização dos sentidos sua mais alta realização. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio e a busca da beleza, o verdadeiro segredo da vida.

Não se fala somente na beleza de um corpo físico sexualmente atrativo, mas de todas as belas artes, curiosidades e luxos, perfumes, medicamentos e psicotrópicos. Tudo é estudado e experimentado com afinco. O homem deve buscar a completa realização da própria natureza vivendo sua vida plena e completamente, dando forma a todo sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a todo sonho, esquecendo as enfermidades medievais.

O hedonista supunha que a espécie humana permanecia selvagem e animalizada unicamente porque o mundo tem querido mantê-la faminta pela submissão, ou matá-la péla dor, em vez de aspirar a torná-la elemento de uma nova espiritualidade, cuja característica principal seria um instinto sutil de beleza. Um novo hedonismo que refundiria a vida e a salvaria do puritanismo ao trazer compreensão à verdadeira natureza dos sentidos.

 

Hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. (...) A mutilação do selvagem tem a sua trágica sobrevivência na própria renúncia que corrompe as nossas vidas. Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando as coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal.[6]

 

A teoria da expurgação do desejo pela realização que haveria de levar à saciedade tinha alguns problemas. Primeiro “a única coisa que se demonstrou realmente é que o nosso porvir poderia ser igual ao nosso passado, e que o pecado que cometemos uma vez, com repugnância, cometê-lo-íamos muitas vezes mais, com satisfação”.[7] Era preciso evitar formar hábitos estereotipados abandonando sensações que apresentam um caráter “novo e delicioso” com estranha indiferença logo após satisfazer a curiosidade intelectual, pois a finalidade da teoria hedonista é a experiência passional e não os seus frutos.

O hedonista acredita na esterilidade de toda especulação intelectual, quando separada da ação e da experiência. É preciso vivenciar o pecado sem deter seu desenvolvimento intelectual pela aceitação dum credo, sistema ou vício. O segundo problema da teoria hedonista é que nem todo mundo anseia por sexo recreativo ou gostaria de compartilhar uma noite de bebedeira com os amigos. Cada experimento intenso modifica nosso conceito de intensidade e, assim como as drogas mais fracas não surtem efeito em usuários de drogas mais fortes, a busca por novidades esbarra numa dificuldade progressiva.

A curiosidade do personagem Dorian Gray pela vida parecia aumentar depois que ele começou a satisfazê-la. Mesmo variando objetos de interesse ele caiu num círculo vicioso. “Quanto mais sabia, mais desejava saber. Tinha apetites furiosos, que se tornavam mais vorazes à medida que os satisfazia [8]”.

 

Um único pensamento se arrastava de uma célula a outra de seu cérebro; e o desejo selvagem de viver, o mais terrível de todos os apetites humanos, excitava energicamente cada nervo trêmulo, cada fibra de seu corpo. A fealdade, que tantas vezes havia ele detestado por tornar as coisas mais reais, agora lhe parecia aceitável pela mesma razão. A feiúra era a única realidade. As disputas grosseiras, os antros repugnantes, a violência crua de uma vida desordenada, a baixeza dos ladrões e dos criminosos, tudo isso possuía mais vida, em sua intensa realidade de impressão, do que todas as formas delicadas de Arte, do que as sombras sonhadoras da Poesia.[9]

 

Já não havia necessidade de temer a punição de deus ou dos homens. “No mundo dos fatos comuns, nem os maus eram castigados, nem os bons recompensados. Os fortes alcançavam o êxito e o fracasso era reservado aos fracos [10]”. A sombra de Dorian Gray estava sedenta de sangue. A única forma de experimentar o gozo e encontrar a plenitude do self com sua sombra seria se tornando um serial killer e, paralelamente, um anacoreta. O primeiro homicídio foi um crime com motivação passional que ele tentou esquecer fumando ópio. O segundo resultou do fácil induzimento ao suicídio mediante chantagem dum homem que sabia demais e havia abandonado a filosofia hedonista. O terceiro resultou da meticulosa estratégia de uma mente fria e calculista para eliminar um perseguidor inidôneo. Seu sucesso foi celebrado com alegria.

O personagem Dorian Gray morre em circunstâncias inverossímeis – perfeitamente desculpáveis numa obra de ficção. – Se tivesse sobrevivido teria se tornado um anacoreta devorador de cadáveres, como sugerem pequenas pistas plantadas por Oscar Wilde para florescer oportunamente em entrelinhas visíveis somente quando diante de certos cérebros pensantes... Alias, se O Retrato de Dorian Gray (1890) tivesse uma continuação ela certamente seria muito parecida com A Vida Secreta de Laszlo, Conde Drácula (1994), uma ficção magistral de Roderick Anscombe, médico psiquiatra que leciona na Universidade de Harvard e clinica em diversos hospitais de Boston.

 

A imortalidade da sombra

 

No enredo do conto O Retrato de Dorian Gray, o pintor Basílio Hallward nutre uma paixão platônica pelo jovem modelo Dorian Gray, que habitualmente posava para ele. Henry foi igualmente atraído pela beleza de Dorian, mas logo percebeu que este jovem “não pensa nunca”. Ele estava determinado a mudar isso. Seu novo amigo não podia continuar a ser “uma bela criatura sem miolos” útil apenas para substituir as flores ausentes no inverno. No dia em que Basílio pintou seu retrato mais realístico, Henry ficou todo o tempo tagarelando ao lado do rapaz imóvel, enchendo os ouvidos com sua filosofia hedonista.

Basílio aconselhou Dorian a não prestar atenção para que não sofresse a perniciosa influência de Henry. Porém ele foi rapidamente dominado pelo carisma do hedonista, teve a consciência desperta pela primeira vez e pensou haver descoberto seu verdadeiro eu. Neste momento Henry influenciava Dorian que influenciava Basílio que tinha o foco de sua paixão e atenção sobre a tela que capturou a “alma” ou “sombra” do modelo psicanalisado (impulsionada pela corrente de afinidades vibrante no inconsciente coletivo). Finalmente, o próprio Dorian contemplou o quadro e reforçou o vínculo com uma explosão de ciúme.

 

Havia formulado um louco desejo de permanecer sempre jovem e de que o retrato envelhecesse; de que sua própria beleza não se maculasse nunca, e de que o rosto daquela tela suportasse o peso de suas paixões e de seus pecados; de que a imagem pintada pudesse ver-se estigmatizada com as marcas da dor e dos pensamentos, e ele pudesse conservar, apesar de tudo, a delicada louçania e encanto de sua até então consciente adolescência. Teria sido atendido o seu desejo? Tais coisas eram impossíveis. Só pensar nelas parecia-lhes monstruoso. E, não obstante, o retrato ali estava, com aquele laivo de crueldade na boca. (...) Possuía o segredo da sua vida e revelava a sua história. Ensinara-o a amar a própria beleza. Iria também ensiná-lo a odiar a própria alma? (...) Cada pecado que cometesse seria mais uma nódoa que acabaria por destruir-lhe a beleza.[11]

 

Este retrato se tornou o emblema visível da consciência de Dorian Gray. Era também sua sombra, no sentido psicanalítico. Seu intenso poder de causar sensações de estranhamento levou personagens a crer que a alma é uma terrível realidade. “Pode ser comprada, vendida ou trocada [12]”. E, como tudo pode acontecer em matéria de ficção, Dorian formulou o desejo de trocar sua alma pela oportunidade de ficar sempre jovem, deixando com que o retrato envelhecesse em seu lugar.[13] Isto aconteceu conforme descrito. Assim ficou demonstrado que o pensamento pode exercer influencia sobre a matéria inanimada e inorgânica da mesma forma que exerce sobre organismos vivos. Coisas exteriores a nós, destituídas de pensamento ou desejo consciente, poderiam vibrar em uníssono com nossos humores e paixões porque “o átomo atrai o átomo por um amor misterioso de estranha afinidade”.[14]

 

Referências:

 

[1] WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Trd. Oscar Mendes. São Paulo, Abril, 1981, p 54.

[2] Obra citada, p 48.

[3] Obra citada, p 27-28.

[4] Obra citada, p 97.

[5] Obra citada, p 225-226.

[6] Obra citada, p 28.

[7] Obra citada, p 74.

[8] Obra citada, p 155.

[9] Obra citada, p 221.

[10] Obra citada, p 239.

[11] Obra citada, p 111-113.

[12] Obra citada, p 257.

[13] Obra citada, p 36.

[14] Obra citada, p 129.

Fogo Fátuo

O hobby de customizar ou produzir bonecos articulados nem sempre foi “coisa de rico”. No Brasil ex-alunas da antiga Escola Técnica Industrial Orsina da Fonseca, então situada na Rua São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro, RJ, dão notícias da fabricação e venda de graciosos bonecos de louça com cabelos de lã, muito frágeis e delicados, produzidos por elas mesmas para a exposição anual do ano de 1955, organizada pela diretora Maria José Avelar Lacerda, pela professora de artes e taquigrafia Lea Bustamante e Hortência, a professora de artesanato. A maioria tinha cabeça, mãos e pernas de louça coladas em corpos de pano, mas graças ao excepcional talento das melhores alunas haveria ali alguns “magrelos” articulados imitando o costume europeu.

 

Boneco de argila do século XIX, com 85 cm, feito na França. Representa um homem do povo.

 

É uma pena que essa arte não haja crescido, se desenvolvido e prosperado nesta metade do planeta. Diversos bonecos articulados em tamanho humano são exibidos numa ala do Museu Nacional do Japão. Os mais antigos entre eles são peças produzidas pelo alemão Hans Bellmer em 1935 e bonecos esculpidos em 1986 pelos japoneses Ryo Yoshida e Jin Yamamoto. Há fotos de todas as peças do acervo em exposição no catálogo Dolls of Innocence (2004), cujo nome deriva do desenho animado Innocence (2002), da série Ghost in the Shell (攻殻機動隊), em cuja introdução um daqueles bonecos aparece em movimento.

Obviamente estamos falando de esculturas profissionais, não de simples brinquedos. Estas obras de arte feitas à imagem e semelhança dos bonecos comuns contem toques especiais. Ryo Yoshida e Jin Yamamoto compuseram temas mórbidos, eróticos e infantis. Estes e outros escultores trabalham sempre em dupla com fotógrafos profissionais, na intenção de lançar livros de arte e cartões ilustrados. Ente as peças que exprimem o lado mais dinâmico do realismo fantástico, apreciamos o expressionismo futurista de Etsuko Miura e Akra Kataoka, a angustia de Hiroko Igeta e Tari Nakagawa, os temas de sexualidade decadente de Jin Yamamoto, as extravagâncias de Ryo Yoshida, as gêmeas siamesas e outras belezas monstruosas de Koitsukihime, etc.

Não é comum que este tipo de arte seja devotado à estética da fome, idiossincrasia ou culto ao homem médio, salvo raras exceções invulgarmente estilizadas. A submissão ao estrangeirismo é um ponto negativo irritantemente recorrente. Quando alguém tão celebre quanto o japonês Katan Amano (1953-1990) sai da vida para entrar para a História sem ter deixado nada diferente da iconografia padronizada pelos filmes ocidentais ao esculpir vampiros articulados é porque alguma coisa está fora de ordem... Isto é muito interessante, mas não tanto quanto o Sephiroth que decora o chão de uma loja de estatuetas de super-heróis no Square Enix Shop.

Quando somos crianças nos ensinam que há artistas muito especiais e seletos cujas criações funcionam como tijolos modeladores do inconsciente coletivo e da identidade cultural duma nação porque o poder da transcendência lhes permite pregar conceitos sólidos no abstrato mundo das idéias... Quem acredita nisso? Quem não acha que o cidadão que arrematou o quadro O Grito de Edvard Munch por quase cento e vinte milhões de dólares num leilão da Sotheby’s deveria estar louco ou desesperado para lavar dinheiro? Que liberal ateu nunca desejou que os fundamentalistas do Estado Islâmico tivessem morrido ou preferido sapatear sobre qualquer quadro de Picasso ao invés de destruir a magnífica estátua de esfinge alada esculpida por algum outro fundamentalista assírio no século 7 a.C., que jazia curiosa no museu Mosul? O instinto de preservação tem valores que a própria consciência desconhece.

Nossos olhos não enxergam ideologia. Ninguém vê a arte de Leonardo da Vinci ou Tarsila do Amaral como sendo algo realmente superior às capas de gibis pintadas por Boris Vallejo, Frank Frazetta, Mozart Couto, Nico Rosso e outros ilustradores. O mesmo é válido para os desenhos de Tatiana Kirgetova e outros gigantes desconhecidos que postam nas galerias virtuais do Deviant Art, Flickr, Pinterest, Photobucket, etc. Quem não crê em seu âmago que qualquer decoração de notas de dinheiro ou papel de presente exige mais habilidade do artista que o dripping de Jackson Pollock e certas obras de abstração extrema? Será que os ricos e emergentes estão dominados por uma maldição que os fazem padecer dum mau gosto de dar dó? Quanto mais vemos dessas coisas mais nos identificamos com a teoria do dispêndio conspícuo, magistralmente exposta pelo filósofo Thorstein Veblen e – desgraçadamente – este é o objetivo desta porcalhada toda... Querem nos fazer pensar naquilo que já pensamos.

Algumas mostras de arte deixam a péssima impressão de que muito dinheiro caiu em mãos erradas. Existem artistas que gozam de patrocínio, consomem verba pública e auferem apoio do MEC para divulgação em materiais didáticos. Ficamos com a sensação amarga de coação e falta de opção quando somos obrigados a estudar X e não Y para provas e concursos. O objeto não atinge sua função social porque os jovens assim tratados odeiam a submissão ou pensam viver à margem duma sociedade inacessível onde só o fã clube dos VIPs pode atuar. Mesmo iludidos pelo tabu da inferioridade, quando visitamos museus sentimos falta do talento dos grafiteiros que decoram os muros das cidades. Então começamos a questionar, escolher e transcender não pela influência da arte desagradável, mas pelo que falta nela.

Somente nós temos o poder de decidir o que importa em nossas vidas. No mundo dos homens máquina o povo gosta de ver peitão, bundão, dragões, bruxas anciãs, velhos sábios, orelhas de elfo, zumbis, heróis halterofilistas, gente colorida, armaduras, florestas, senhora orc, engenhocas malucas, anjos, motoqueiros cinquentões, olhos grandes, cidades, fadinhas, transformers, lutadores de artes marciais, alienígenas, tavernas cheias de vikings barrigudos, deuses pagãos, situações absurdas, piadas infames e vampiros imperialistas sem um pingo de utilidade cívica mordendo pessoas chatas. Isso se chama entretenimento.

Se a arte que escolhemos apreciar (seja ela marginal ou mainstream) nos leva à perda de conceitos fundamentalistas que induzem atos inadequados (como preconceito e violência doméstica) é porque o livre arbítrio faz aquilo que a propaganda moralista supostamente tenta fazer, mas não consegue. 

Manifestações de Vidas Metafóricas

Por que será que mesmo os mais sérios entre nós gostam de personagens fictícios mesmo sabendo que eles não existem? Na vida real toda pessoa possui qualidades e defeitos, vícios e virtudes. Na ficção todo mocinho tem inúmeras qualidades, mas são poucos os que mostram ter algum defeito. Os vilões e anti-heróis nos fascinam por dar representatividade à sombra da psicologia junguiana e à voz reprimida das classes marginalizadas (por falta ou excesso de recursos). Quando um herói é certinho demais, bonzinho demais, enjoadinho demais, os antagonistas podem parecer mais humanos do que os próprios mocinhos.

Se, numa cena de crime, o agente da lei não matar um homicida mesmo sabendo que o criminoso fugirá da cadeia ou do hospício para aprontar o arco da velha, a permissividade tácita da reincidência nos passará a impressão de que o suposto responsável pela proteção da população nunca quis resolver o problema! Sob o ponto de vista da vítima indefesa talvez pareça mais vantajoso chamar um anti-herói, como o Capitão Nascimento, do que um herói tradicional, como o Super Homem, ou qualquer assistente social que nada fará além de ensinar que a culpa do crime é da sociedade e, portanto, extensivamente, da própria vítima que – se tivesse consciência social – deveria exercer a caridade atuando de forma tão sublimemente passiva e altruísta quanto a idolatrada Simone de Souza (médica brasileira que prestou socorro gratuito ao homem que a ameaçou de latrocínio, quando flagrado e baleado pela polícia em 02/07/2015).

Vilões carismáticos são aqueles que possuem personalidades um pouco mais densas; que atravessam o aspecto preto e branco da ética maniqueísta. A existência do anti-herói e do vilão carismático é comumente justificada por um passado ruim. A beleza e/ou comportamento sarcástico tem a função de ajudar o público alvo da produção artística a simpatizar com vilões fictícios em matéria de jogos e entretenimento. A megera é bonita, sensual e perigosa. Por que toda mocinha tem que ter cara de bobinha? Por que não usa cores fortes? Não passa batom vermelho? Isto deriva da visão machista onde a mulher bondosa serve para realizar trabalhos domésticos, não para esquentar uma cama.

Ainda que vestir tecido carmesim não seja crime nem pecado, Jessica Rabbit teve de justificar sua bela aparência contra olhares preconceituosos dizendo: “I’m not bad, I’m just drawn that way”. Se fosse uma antagonista de verdade ela não se envergonharia de algo trivial. É como falam: “O mocinho vence no final, mas é o vilão quem se diverte”. Todo vilão é livre para pensar – seja de forma patética ou transcendente, – violando normas que eventualmente caem em desuso. Um exemplo: Kunzite e Zoizite viviam em união estável antes da aprovação de leis que permitem o casamento civil entre homossexuais.

Por estar mais próximo da realidade, a figura do antagonista sugere que aceitemos um pouco do que há de vilão em nós mesmos. Acabamos vendo que um ou outro pensamento ruim não é tão terrível assim. Conseqüentemente abrimos a mente para escutar, questionar e refletir sobre as razões do outro.

Num mundo onde a guerra dos EUA contra o Estado Islâmico já virou clichê, a terceira temporada de JoJo's Bizarre Adventure (2014-2015) definiu carisma como “aquilo que faz o soldado obedecer ao ditador, que faz o crente seguir o líder de um culto”.[1] Dio Brando é um vilão tradicional, malicioso e trapaceiro, vampiro de nascença que nem precisava ter feito coisas supérfluas, desnecessárias, como virar um morto vivo de verdade... Provavelmente Dio é brasileiro. Morreu vestido de verde e amarelo lutando por uma causa perdida.

Amo Dio Brando! Quero todas as revistas, desenhos e bonecos dele. Não quero nunca semelhante criatura em minha vida real. Ele é estelionatário, machista, bêbado, violento e nojento. Dio não vale nada. Amo Dio Brando!

Destaco o trecho onde o personagem N’Dour responde a Jotaro por que os soldados de Dio se tornam tão leais a ponto de morrer por seu mestre:

 

Aprendi desde pequeno a não sentir medo de nada. Eu vencia qualquer inimigo. Cometia crimes e homicídios sem me preocupar. Nem a polícia me metia medo. Aposto como um cachorro sabe como eu me sinto. Mas ele foi a primeira pessoa a despertar em mim a vontade de viver. Ele era tão poderoso, profundo, estupendo e maravilhoso... Foi a primeira pessoa do mundo a reconhecer meu valor. Esperei minha vida inteira para conhecer alguém como ele. Não sinto medo da morte, porém eu faria de tudo para não deixá-lo decepcionado comigo. O mal precisa de um messias maligno.[2]

 

Em diálogos filosóficos pontilhados aqui e ali os vilões explicam que a emoção chamada medo é uma reação sentimental encontrada em todos os animais. Por que o medo aflora? Existe o medo causado pelo instinto e o medo nascido de pensamentos lógicos (quando se está diante do desconhecido ou convencido de que não há como enfrentar algo mais forte do que si mesmo). Ao enfrentar o medo você pode tentar resistir, lutar, fugir, aceitar ou fazer outras escolhas. Mas ao defrontar o líder carismático estereotípico uma nova reação surge: Alegria! “O que as pessoas fazem quando sentem alegria no medo?”[3] Elas se entregam de corpo e alma. Deixam que esse tipo de vampiro as suguem com prazer. Então se sentem verdadeiramente vivas.

 

— Quero fazer uma pergunta. O que significa viver?

— Viver é realizar um desejo. Basicamente, viver é isso. As pessoas querem dinheiro, alimentos, amor e sexo.

— Mas quando tentam conseguir o que desejam sempre tem uma batalha, não é mesmo?

— Sim.

— Se perderem a batalha e não conseguirem o que querem, ficam frustrados e com sentimento de fracasso. Ficam magoados e com medo de outra batalha. Acho que viver é conquistar o medo. Acho que quem ficará no topo do mundo é aquele que não sente medo.[4]

 

Raramente a figura do vilão é dispensável, seja em peças de teatro ou simples jogos de representação. Por que criamos vilões e por que gostamos deles? Por que ter personagens que são absolutamente contrários ao que julgamos belo, bom e justo? Não se chegou a uma conclusão definitiva. Os vilões são necessários em filmes e livros de aventura, romances gráficos, desenhos animados, videogames, etc., porque sem eles os heróis não teriam nada para fazer. Até muito antigamente quando se brincava de “polícia e ladrão”, alguém tinha que interpretar o ladrão. Do contrário o pequeno homem da lei viveria entediado, parado, quito, esperando seus músculos atrofiarem de tanto fazer papel de estátua, como os guardas da realeza britânica.

Quando o Super Homem é capaz de cruzar espaços velozmente e pode superar qualquer dificuldade envolvendo força bruta ou armas de fogo, a trama não envolverá um antagonista monstruosamente forte. Seu adversário deve se destacar pela aptidão para formular problemas de ordem abstrata que o herói não conseguirá solucionar sem se igualar ao outro em perspicácia.

Desde os últimos anos do século passado a indústria do entretenimento vem se esforçando para suprir a demanda por vilões e anti-heróis inteligentes. Isso tem feito o próprio conceito de vilania evoluir ao status de poder paralelo ao mesmo tempo em que o heroísmo vai se diluindo em pequenos defeitos – Constantine ou Wolverine fumado, Fiona escolhendo ser ogra, os Cavaleiros do Zodíaco sangrando, Usagi Tsukino entregando a virgindade para um ladrão de jóias, etc., – na intenção de equilibrar tramas que já não se parecem com a patética guerra eugênica e xenófoba do nobre de nascença (o sujeito de direito divinamente inspirado e vocacionado para a defesa do estado teocrata) contra o marginal insurrecto, bruxo possesso por um espírito de maldade absoluta que não encontra prazer exceto na contemplação da dor e sofrimento alheio.

É importante que a disputa pareça com um jogo desportivo, campanha eleitoral ou conflito de interesses onde nenhuma parte é eticamente melhor ou pior em caráter absoluto. Assim podemos escolher “torcer” para um herói, anti-herói ou vilão do mesmo jeito que, no futebol, nada nos impede de escolher um time de segunda, terceira ou quarta divisão como nosso favorito. Está tudo bem se você escolheu Vandemon ou Lucemon como parceiro do seu avatar no MMORPG de Digimon, mesmo sabendo que eles perderam para os mocinhos no desenho oficial da série. E daí se você votou no Lula ou no Fernando Collor de Melo? É melhor sofrer um desgosto do que viver frustrado por nunca ter tentado fazer aquilo que acreditava ser melhor para sua nação ou por não ter podido interpretar Drácula lutando contra Simon Belmont ao jogar Castlevania. 

 

Referências:

 

[1] Diálogo traduzido do episódio 3 de JoJo's Bizarre Adventure: Stardust Crusaders (ジョジョの奇妙な冒険 スターダストクルセイダース), lançado pela David Production em 2014, baseada no romance gráfico de Hirohiko Araki.

[2] Diálogo traduzido do episódio 26.

[3] Diálogo traduzido do episódio 4.

[4] Diálogo traduzido do episódio 7.