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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

Raio globular, Boitatá e outros bichos fogosos

Desde que vi uma reportagem jornalística mostrando um astronauta gerando uma bolinha de fogo pelo simples ato de acender um isqueiro comum no espaço, e que ouvi um pessoal importante afirmando não fazer a mais remota idéia de qual lei da física permite que o fogo não bruxuleie dentro da atmosfera terrestre, tenho uma obsessão platônica por raios globulares, hi-no-tama (火球), jinn e qualquer outro primo do boitatá. Alguns resultados das numerosas pesquisas científicas sobre o comportamento do fogo em ambiente de baixa gravidade foram publicados no livro Micrograviry Combustion: Fire in Free Fall (2010), editado e organizado por Howard D. Ross.

 

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 Para acender bolas de fogo no espaço nós humanos precisamos de combustível e um oxidante. Para acender bolas de fogo na terra os trolls só precisam de zoeira. Algumas vezes o plasma parece ignorar completamente a influência do universo paralelo onde Lisa Randall supõe ser gerada, e vazada, a força gravitacional que chupa e fixa a nossa banda do hambúrguer.

Embora os especialistas não consigam conciliar o saber científico com a idéia de que algo como um raio possa existir em forma esférica, completa em si mesma, todos concordam que – se não for pura lenda urbana – o raio globular (ball lightning) é um fenômeno natural, como o trovão ou a chuva torrencial. Roy Jennings fotografou a trajetória e ponto de explosão duma serpente de fogo, pareidolia formada por um raio que bateu na chaminé de uma casa às 2 da madrugada, durante uma tempestade em Castleford, Yorkshire.[1]

  

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 Isto parece, mas não é um raio globular, pois se fosse sua vida útil seria mais longa que a de um raio comum. Alguns teorizam que os raios globulares “são formados por gazes eletrizados, muito semelhantes aos raios do sol”.[2] O raio globular é provavelmente plasma. O físico nuclear Dr Graham Hubler, do US Naval Research Lab, tem o hobby de colecionar milhares de relatos de testemunhas que afirmam ter visto um ou mais raios globulares. Um registro organizado de observações poderia ser útil para classificar as características do fenômeno, isolar fatores potencialmente importantes e elaborar premissas que nos conduzam a uma teoria científica. Porém há múltiplas esferas de luz. Algumas caem do céu, saltam, explodem, sibilam, flutuam perto do chão, etc. Foram até vistas atravessando objetos sólidos [3] sem causar danos.

 

Não existe uma boa teoria que explique as características da esfera de luz. Diferentes teorias podem explicar uma ou duas características relatadas, mas nenhuma delas consegue realmente dar uma boa explicação.

 

Em entrevista para um programa do National Geographic Channel, ele contou como ficou fascinado pelo ainda inexplicável, porém existente, raio globular. Disse: “Eu mesmo vi uma esfera de luz. Por isso sei que isso existe”. O caso fortuito aconteceu em sua mocidade. Quando Hubler levou a namorada para passear num parque no interior de NY uma tempestade obrigou o casal a esperar num coreto até a chuva passar.

 

Repentinamente, à nossa esquerda, quando estávamos sentados ali desprotegidos (...) vimos uma esfera de luz se aproximando. (...) Não sabíamos o que era aquilo. Ela estava a cerca de trinta metros de distância e se aproximava lentamente de nós como que vagando de um lado para outro tranquilamente. Ficamos olhando para essa coisa.

 

O casal de namorados estava paralisado de medo. Pelo cúmulo do azar a esfera entrou no coreto, rolou no solo e passou pelos pés do casal. “O barulho que fazia era como o de um fósforo que acabava de ser aceso”. Após chegar ao outro lado do coreto a esfera subiu e subiu pela parte aberta.

 

Ela pulou de volta cerca de quase dois metros do chão e partiu uns seis ou nove metros noite adentro. E aí muito rapidamente caiu no chão e desapareceu sem um barulho sequer.

 

Esse foi o melhor programa da vida dele e o pior da sua ex-namorada. Graças ao raio globular, Hubler descobriu que seu verdadeiro amor é a física e os mais recônditos segredos do assombroso mundo da natureza. Pena que não lhe restou nenhum souvenir parecido com o buraco redondo encontrado depois de uma tempestade no vidro duma janela quebrada do Departamento de Meteorologia da Universidade de Edimburgo. Como o vidro estava fundido pelo lado de dentro, o fato foi atribuído a um raio globular.[4]

 

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Muita tinta foi gasta na vã tentativa de explicar o caso fortuito observado pelo catedrático R. C. Jennison, professor e pesquisador do Laboratório de Eletrônica da Universidade de Kent. Em 19/03/1963, à meia noite e cinco, ele estava sentado entre os demais passageiros da primeira classe do vôo EA 539 da Eastern Airlines, indo de New York para Washington, quando viu um raio globular com 22±2 cm de diâmetro penetrar a parede metálica do avião em vôo (como se pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo, passando assim de um ponto ao outro [5]). R. C. Jennison publicou sobre o assunto na revista Nature 224, 895 (1969), informando que ele estava sentado em uma das poltronas da frente quando a aeronave se viu colhida por uma violenta tempestade elétrica. O avião “foi envolvido por uma súbita, ofuscante e atroadora descarga elétrica e, alguns segundos depois, uma esfera incandescente, de uns vinte centímetros de diâmetro, emergiu da cabine do piloto e veio descendo pelo corredor, aproximadamente a meio metro de minha poltrona, mantendo a mesma altura e o mesmo curso dentro do campo de observação”. Na ocasião R.C. Jennison tomou nota de que a esfera foi vista por uma aeromoça que estava no lado oposto e mais para a parte traseira do avião. “Ela viu a esfera continuar pelo corredor, até desaparecer finalmente na direção do toalete”.[6]

 

Possíveis raios globulares produzidos em laboratório

 

Em 1754 o pesquisador russo G. W. Richman tentou medir a energia de um raio durante um temporal. Ele estava atrás do equipamento de medição quando uma pequena esfera azul do tamanho de um punho cerrado saiu dos elétrodos e flutuou em direção ao rosto de Richman. Depois o raio globular explodiu, causando a morte do cientista e o desmaio de seu assistente.[7]

Ao longo de uma brilhante carreira científica o professor James Tuck trabalhou como conselheiro-chefe para assuntos científicos de Lorde Cherwell, colega de Gabinete de Sir Winston Churchill, e mais tarde se incorporou ao Projeto Manhattan, em Los Álamos, que produziu a bomba atômica. Insatisfeito com sua pitoresca habilidade de explodir o ar, Tuck prosseguiu na tentativa de explodir a luz. Em Los Álamos ele ouviu dizer que o raio globular aparecia em submarinos como resultado de manipulação incorreta da aparelhagem de comutação que extrai energia da bateria. Quando alguém cometia um erro, as vezes “bolas de fogo saíam da parte posterior da aparelhagem e, às vezes, queimavam as pernas dos tripulantes inábeis”.[8]

Para testar a hipótese em laboratório foi necessário explodir uma bateria de submarino de dois milhões de dólares isolada numa caixa de celofane cheia de gás metano em baixa concentração. O comutador explodiu ao ser acionado. Subiu uma grande labareda e ouviu-se um formidável estrondo. Duas câmaras colocadas em ângulos diferentes capturaram perto de cem imagens onde apareceu uma esfera de luz de cerca 10 cm de diâmetro. O Professor Tuck tem certeza de que não se trata de defeito do filme ou de falha no processo de revelação, mas sim algum fenômeno relacionado com o raio globular.

Na natureza a esfera geralmente ocorre após um relâmpago comum, tem em média 15 cm de raio, apresenta coloração amarelo-avermelhada, não é excessivamente quente e costuma produzir um som sibilante.

Alguns talvez não entendam por que quem criou uma bomba muito mais eficiente para destruição em massas possa querer soltar inofensivos fogos esféricos. Em tese isso poderia ser útil para apagar dados armazenados em computadores, chips, etc., e destruir tecnologia sem matar civis ou causar danos em prédios que se queira aproveitar. Durante um violento temporal que caiu no começo da noite de 12/08/1970 uma “bola de fogo vermelha” apareceu acima de Sidmouth, Inglaterra, crepitou por alguns segundos e depois explodiu com um estrondo ensurdecedor, lançando raios ao chão. Naquele instante dois mil e quinhentos aparelhos de TV da área queimaram.

 

Múltiplas testemunhas do fenômeno natural

 

Arthur C. Clarke gravou entrevistas com várias pessoas que viram um mesmo raio globular na pequena estação balneária escocesa de Crail, em agosto de 1966. Na tarde em questão, a Sra. Elizabeth Radcliffe voltava para casa, andando por um caminho de concreto perto da praia.

 

Ergui os olhos e vi o que julguei ser uma espécie de luz e, quase no mesmo instante, ela se transformou numa bola, de tamanho mais ou menos entre uma bola de tênis e uma bola de futebol. Cruzou o caminho e mudou ligeiramente de cor, ficando como a do chão. Depois, passou sobre a grama e ficou esverdeada e, logo, com grande rapidez, desapareceu na direção de um café, onde explodiu.[9]

 

Dentro do café, encontrava-se a Sra. Evelyn Murdoch, que cozinhava na ocasião para os fregueses. Conta ela:

 

O café estava cheio e tudo estava normal. De súbito, houve um tumulto medonho: Sons horríveis de coisas estalando, aumentando o tempo todo. Olhei pela janela da cozinha e vi pessoas correndo da praia, gritando, berrando, e o barulho ficou mais forte. Repentinamente, um estalo violento. Pareceu que abalava a casa toda, e toda a cozinha se iluminou com uma luz ofuscante. Nunca vi uma coisa dessas em toda minha vida.

Os fregueses correram para a rua, e um homem com uma perna de pau, que ocupava geralmente uma mesa junto ao balcão, correu junto com o resto. Nunca vi gente fugindo com tanta rapidez em toda minha vida.[10]

 

Mais tarde, a Sra. Murdoch descobriu que a grossa coifa de ferro fundido que ficava em cima do fogão do café se partira de um lado a outro. A filha dela, Sra. Jean Meldrum, encontrava-se em visita ao café quando a bola de fogo caiu. Logo que o estranho barulho aumentou, correu para apanhar seu bebê no carrinho do lado de fora. Este é o momento em que viu a bola de fogo:

 

Era de um tom alaranjado luminoso no centro e branco puro em toda a volta, e rolou pela parede do café. Foi até a janela e, quando me levantei para ver o que era aquilo, a coisa saiu pela janela, bateu no meu peito e simplesmente desapareceu.[11]

 

Num estacionamento próximo de trailers, a Sra. Kitty Cox saíra para passear com seus dois cães. Diz ela:

 

De repente, houve aquele ensurdecedor estampido de trovão e, então, diretamente à nossa frente, ouvi gritos e vi crianças correndo e depois aquela bola sibilante apareceu diante de mim, arrastando o que parecia uma fita de cobre, de alguns centímetros. Meus cães entraram em pânico e eu fiquei olhando enquanto ela passava com grande rapidez, sibilando e zumbindo, e se encaminhou para o mar.[12]

 

Arthur C. Clarke e Jerome Clark compilaram mais outros casos famosos. O Google nos fornece um batalhão deles na busca mais simples. O Youtube está cheio de vídeos interessantes, alguns deles fraudulentos. Creio que na verdade o raio globular seja um fenômeno comum com o qual ninguém se importa e, por essa razão, todos esquecem após o haver visto do mesmo jeito que esquecem o que foi servido no almoço do dia anterior. Eu mesma já vi mais de uma vez. Qual a probabilidade dum raríssimo evento aleatório ocorrer justamente quando alguém está pensando nele? Num dia claro, em 1998, eu estava em minha casa sentada diante do computador escrevendo uma resenha sobre a reportagem de Arthur C. Clarke quando escutei um trovão tão alto e próximo que fez os vidros das janelas tremerem. Pensei que tinham jogado uma granada no quintal. Então meu pai entrou anunciando: “Vi uma bola de fogo cair bem ali!” Fui olhar. Não restou nada para ser visto. A coisa implodiu consumindo a si mesma sem deixar marcas de fuligem. Em dezembro de 1997 minha irmã também levou um susto porque “uma bola de luz” passou em cima do pé dela. Sheila me culpou por isso: “É você que chama essas coisas”... Será?

  

Raios globulares que se repartem

 

Há relatos de raios globulares quase parecem se reproduzir por cissiparidade. Segundo um correspondente da Monthly Weather Review (edição de outubro de 1919), em 08/10/1919, às 6h30 da noite, “uma bola de fogo do tamanho de uma banheira, flutuando no ar a baixa altura” atingiu o lado de um edifício num cruzamento movimentado do centro de Salina, Kansas, quebrou alguns tijolos e derrubou uma janela no segundo andar. A seguir explodiu com um “estrondo de um tiro de pistola grande, deixando no ar bolas de fogo do tamanho de bolas de beisebol, que foram embora flutuando em várias direções. Algumas bolas acompanharam os fios dos bondes e os fios elétricos, serpenteando, outras simplesmente foram embora pelo ar, independentemente dos objetos próximos. Uma caixa de distribuição abriu-se de outro lado da rua e um transformador foi destruído, deixando na escuridão a zona leste”.

O Fogo de São Elmo também se move, mas o faz somente ao longo de um condutor, e chega às vezes a pulsar durante o movimento, mas não se liberta do condutor. Assim não realiza movimentos comuns ao raio globular. De qualquer forma quando o raio globular eventualmente se comporta como o Fogo de São Elmo ele se parece com a mitológica Mãe do Ouro: Uma bola de fogo que gera ouro ou é atraída para lugares onde existem veios de ouro (um excelente metal condutor) onde pousa e é seguida por mineiros sortudos. Esta lenda do folclore brasileiro surgiu, provavelmente, no auge da época do Ciclo do Ouro (século XVIII), nas regiões auríferas (Minas Gerais, Goiás e Bahia).

 

 

 

Notas:

 

[1] WOLFERT, Ira. “O Raio. Terrível e Salvador”. Em: O ASSOMBROSO MUNDO DA NATUREZA: Suas maravilhas e mistérios. Lisboa, Seleções do Reader’s Digest, 1976, p 299; WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke. Trd. Ruy Jungman. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982, p 207.

[2] WOLFERT, Ira. “O Raio. Terrível e Salvador”. Em: O ASSOMBROSO MUNDO DA NATUREZA: Suas maravilhas e mistérios. Lisboa, Seleções do Reader’s Digest, 1976, p 299.

[3] Arthur C. Clarke assegura que Clara Greenlee e seu marido viram uma bola de fogo vermelho-alaranjada atravessar a parede de concreto do quintal de sua casa em Crystal River, Flórida. Do tamanho de uma bola de basquetebol, ela rolou pelo chão; a Sra. Greenlee bateu nela com o mata-mosca, que por acaso tinha na mão. A bola explodiu com o som de tiro de espingarda. (WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke. Trd. Ruy Jungman. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1982, p 208).

[4] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 208.

[5] CLARK, Jerome. Enciclopédia do Inexplicável. Trd. José Eduardo Ribeiro Moretzsohn. São Paulo,  Makron, 1997, p 471-472.

[6] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 208.

[7] CLARK, Jerome. Obra citada, p 470.

[8] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 209.

[9] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 207.

[10] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 207.

[11] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 207.

[12] WELFARE, Simon & FAIRLEY, John. Obra citada, p 207-208.

 

Ela me disse num sonho: “Meu nome se pronuncia Yeah!”

Num belo dia recebi um e-mail do professor de hebraico bíblico Paulo de Magalhães, ensinando que YHVH é obviamente um nome de mulher, assim como Hayah, Havah e Yhieh, porque o último H (ה) é um sufixo adicionado para formar o feminino singular.[1]  O teólogo Francolino J. Golçalvez, da École Biblique et Archéologique Française, em Jerusalém, foi mais contundente ao propor uma hipótese onde a palavra méʿèyka, em Isaías 63:15, definiria o sexo biológico de um deus possuidor de útero, embora seja normalmente referido por pronomes de tratamento de gênero masculino:

 

O AT menciona a maioria das partes do corpo de YHWH: Face, olhos, ouvidos, narinas, boca, lábios, língua (Is 30,27), dentes (Job 16,9), costas (Ex 33,23), braços, mãos, dedos, coração, rins, entranhas (Is 63,15) e pés (34)... Talvez seja ainda mais curioso o fato de que Isaías 63:15, o único texto que parece atribuir órgãos sexuais a YHWH se refere a um órgão genital feminino... Em paralelismo com mé‘èyka (as tuas entranhas), rahamèyka deve ter o sentido próprio de “o teu útero”.[2]

 

Supomos que YHWH não teria a obrigação moral ou cívica de ser uma celibatária virgem igual a Santa Joana D’Arc, que passou a usar armadura masculina quando virou chefe militar do exército francês. Porém o costume de travestir a rara figura da mulher governante era atestado pelo histórico reinado da egípcia Hatshepsut, que equipava até barba falsa ao se vestir de Faraó. O acervo do Museu Ashmolean, em Oxford, contém uma estátua votiva do período dinástico primitivo, proveniente do “Depósito Principal” do templo de Kom el-Ahmar, que representa uma figura humana usando cinto com penduricalho de pênis falso.[3] Supõe-se que em tempos idos existia, no Egito, um cinto fálico relacionado ao culto de Osíris, usado por mulheres heterossexuais quando atuavam no papel de deidade masculina celebrando um rito semelhante ao atual festival do deus falo Kanamara Matsuri, realizado anualmente em Kawasaki, no Japão.

Isto talvez explique por que o espírito (pássaro) de YHVH utiliza uma serpente como cinto ou tem pernas serpentiformes nos diversos amuletos do séc. II a.C. observados pelo jornalista Patrick Tierney.[4] W. R. Cooper viu igualmente fontes gnósticas do século II d.C. onde uma áspide aparece acompanhada da legenda IAH SABAOTH (IAΩ ΣABAΩ), remetendo-nos ao adjetivo hebraico tsebaoth , no sentido de “Senhor dos Exércitos”.[5]

 

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 Amuletos datados de II a.C. a II d.C.

 

Gente, esses amulerinhos são feios de danar! Não é a toa que YHVH não gostava de quimeras não autorizadas.  Muita gente interpreta todas essas excentricidades como metáforas ou analogias poéticas porque pensam em deus como um ente imaterial, assexuado, insípido, inodoro e insosso, blábláblá, feito de vento ou cheio de nada. Haveremos de discordar posto que saci não existe, mas tem uma perna só e é filho jesuíta do bárbaro grego sciapodo. A deusa YHWH poderia perfeitamente ser uma figura antropomorfa bissexuada com coração, boca, língua, bunda e útero ao mesmo tempo pois ela aparece perante os humanos como uma pareidolia crepitando sobre uma árvore incendiada ou bruxuleando furiosamente sobre a chama do altar de sacrifícios (onde se fazia o melhor churrasco das festividades religiosas da antiga Israel).

 

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Referências:

 

[1] Magalhães, Paulo de. “Ayn Suf 3”. E-mail para Ormenorah, grupo de estudos de cultura judaica no Yahoo! Gupos Brasil, enviado em 03/12/2014 às 10:23.

[2] GONÇALVES, Francolino J. O Antigo Testamento e a Sexualidade. Lisboa, Instituto São Tomás de Aquino (ISTA), 2003. Acessado em 05/04/2009 às 19:28. URL: http://www.triplov.com/ista/fatima_2003/francolino/francol_02.html

[3] O MUNDO EGÍPCIO: Volume I. Trd. Maria Emília Vidigal. Madrid, Edições Del Prado, 1996, p 78.

[4] TIERNEY, Patrick. O Altar Supremo: Uma história de sacrifício humano. Trd. Dílson Bento de Faria Lima. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993, p 429.

[5] COOPER, W. R. The Serpent Myths of Ancient Egypt. London, Robert Hardwicke, 1873, p 14.

Lenda de Lâmia

São Jerônimo substituiu Lilith por Lamia em Isaías 34:14 ao produzir a Vulgata. Procurei saber o que ou quem era Lâmia. O primeiro dicionário que vi pela frente forneceu três conceitos:

 

1. lamia, -ae, subs. F. Vampiro, papão com que se amedrontavam as crianças (Horacio. Arte Poética 340). 2. Lami, -ae, subs. Pr. M. Lâmia, sobrenome da família Élia (Cícero. Pro Sestio 29). 3. Lamianus, -a, -um, adj. De Lâmia (Cícero Epistulae as Atticum 12, 21, 2) [1].

 

Consultando as fontes verifiquei que Horácio aconselhava seus leitores a não misturar ficção com realidade: “Não exija a fábula que se acredite em qualquer coisa que queira, nem extraia vivo do ventre de Lâmia o menino por ela almoçado” (Arte Poética 339-340) [2].

Sobre o item 2, “sobrenome da família Élia”, Cícero (106 a.C. – 43 d.C.) criticou o cônsul romano que baniu e causou a morte de Lucius Lamia, pois ele era amigo íntimo deste e de sua família ao mesmo tempo em que era inimigo político do cônsul (Cícero. Pro Sestio 29).

A historiografia demonstra que alguns já detestavam a família Lamiae há muito tempo, pois o fragmento de katádesmos (séc. IV a.C) de referência IL 997 pertencente ao acervo do Museu de Ágora em Atenas atesta que havia um comerciante chamado Sósias de Lamian (Σωσία[ν] τòν Λάμιον) trabalhando em associação com dois ferreiros, Arista e Pirrían, cujas atividades e almas foram simbolicamente enterradas na base do muro de uma casa no antigo distrito comercial de Atenas por meio de uma maldição para causar má sorte ou morte. Logo, realmente havia uma família humana com esse patronímico [3].

 

Bruxaria Fabulosa

 

A comédia O Asno de Ouro rotula uma estalajadeira chamada Méroe, muito agradável apesar da idade, que transformou um andarilho chamado Sócrates (que não é o filósofo) em seu escravo sexual.

 

VIII. É uma mulher demoníaca. Contém tua língua, se não queres atrair nenhum malefício. (...) Mágica e adivinha, tem o poder de abaixar o céu, de suspender a terra, de petrificar as fontes, de diluir as montanhas, de sublimar os manes e derrubar os deuses, de apagar as estrelas e iluminar o Tártaro. (...) Queres saber, — disse ele, — uma ou duas de suas façanhas? Ou queres ouvir muitas? Faz-se amar até à loucura por homens que habitam, já não digo somente esta região, mas a Índia, mas as duas Etiópias, e até os antípodas, e para ela isto é a infância da arte, e mera bagatela. Mas ouve o que ela perpetrou, diante de diversas testemunhas. IX. Um de seus amantes cometeu a temeridade de lhe ser infiel. Com uma única palavra, ela o transformou em castor, a fim de que ele tivesse o destino daquele animal selvagem que, por temor do cativeiro, corta as partes genitais para se livrar dos caçadores. O dono de uma casa de prazer vizinha, e, que, por isso mesmo, lhe fazia concorrência, foi trocado por ela em rã. Agora, o velho nada no tonel e, mergulhado no limo, saúda com toda a cortesia, com os seus coaxos roucos, aqueles que outrora vinham beber do seu vinho. De outra feita, um advogado tinha falado contra ela. Foi transformado em carneiro, e agora temos um carneiro que advoga. A mulher de um de seus amantes se permitira, contra ela, umas brincadeiras um pouco ferinas. Essa mulher estava grávida: ela aprisionou no ventre o fruto e, demorando-lhe o desenvolvimento, condenou a moça a uma gravidez perpétua. Há oito anos, segundo a conta de alguns, a desgraçada arrasta seu fardo, com o ventre esticado, como se fosse dar à luz um elefante. X. A repetição de tais fatos, e o número das vítimas, fez crescer a indignação pública. Decidiu-se que, no dia seguinte, castigá-la-iam sem piedade, lapidando-a. Porém, ela previu o plano em virtude de seus sortilégios. Do mesmo modo que a famosa Medéia que, tendo obtido de Creon um dia somente de adiamento, consumiu nas chamas lançadas de uma coroa toda a casa do velho rei, sua filha e ele próprio, assim Méroe, operando sobre uma cova, com ritos sepulcrais, conforme me contou recentemente, num dia em que estava bêbada, manteve todos os habitantes da cidade fechados em suas casas pela força muda das potências divinas. Ninguém pôde forçar as fechaduras, nem arrancar as portas, nem mesmo furar as paredes, durante dois dias inteiros. Por fim, pela instigação de uns e outros, a uma só voz gritaram e juraram, com o juramento mais sagrado, que nenhum deles levantaria a mão contra ela, e que, se alguém resolvesse o contrário, ela encontraria neles auxílio e proteção. Sob estas condições, ela abrandou e libertou a cidade inteira. Quanto ao autor do plano, numa noite escura ela o transportou com toda a sua casa (...) para um lugar a cem milhas de distância, numa outra cidade, situada no mais alto pico do mais escarpado morro, e, por essa razão, privado de água. E, como as habitações estivessem muito apertadas para darem lugar a uma forasteira, atirou a casa diante da porta da cidade e se foi [4].

 

O personagem Aristômenes encontrou seu amigo vivendo na mendicância e ficou surpreso, pois comparecera ao funeral simbólico que a família fizera diante do longo período de ausência do mesmo. Eles planejaram fugir, mas foram achados. A punição de Aristômenes foi bastante branda e humanamente possível:

 

XIII. Pância respondeu: “Que achas minha irmã, de primeiro despedaçarmos esse homem, como fazem as bacantes, ou de lhe ligarmos os membros, e cortar-lhe o instrumento da virilidade?” “Não”, replicou Méroe. (...) Depois, agachadas, com as pernas separadas acima de meu corpo, esvaziaram sobre mim a bexiga, e me deixaram inundado de imunda urina. (...) XVII. (...) As Lâmias me haviam emporcalhado [5].

 

A punição de Sócrates foi bastante surreal:

 

XII. Vejo duas mulheres de idade muito avançada; uma levava uma lâmpada acesa, outra uma esponja e uma espada nua. Assim equipadas, cercaram Sócrates, que dormia serenamente, e aquela que tinha a espada falou: “Aqui está ele, Pância, minha irmã, o caro Endimião; ei-lo, o meu Catâmito, que por muitos dias e muitas noites se aproveitou da minha idade terna demais, e aqui está, desprezando meu amor. Não contente de me difamar, ainda se prepara para fugir. E eu, sem dúvida, nova Calipso, abandonada pelo astucioso Ulisses, chorarei e lamentarei a minha solidão eterna”. (...) XIII. (...) E, inclinando para a direita a cabeça de Sócrates, mergulhou a espada inteira, até o punho, no lado esquerdo da garganta; depois, aproximou um odrezinho e recolheu o sangue que jorrava, diligenciando para que nenhuma gota se perdesse. (...) Para conservar, creio, a essa imolação, todas as características de um sacrifício, a doce Méroe introduziu a mão direita no ferimento, remexeu até o fundo das entranhas, e retirou o coração do meu desgraçado camarada. A violência do golpe tinha-lhe cortado a garganta e ele, deixando escapar pela fenda um som que não passava de um vago sopro, exalou o último suspiro. Pância, com uma esponja, tampou a larga abertura, dizendo: “Esponja, tu que nasceste no mar, guarda-te de atravessar um rio”. Feito isto, retiraram-se, empurrando o catre [6].

 

Sócrates permaneceu vivo e sem marcas de cortes durante várias horas até agachar para beber água fazendo a esponja cair. “Não tinha ainda atingido com os lábios a superfície da água, quando profundo e largo ferimento se abriu em seu pescoço, a esponja bruscamente escapou, seguida de um filete de sangue [7]”.

 

Bruxas Caçadas

 

Gordon Melton resumiu um episódio da Vida de Apolônio, narrado pelo antigo historiador grego Philostratus, onde um dos alunos de Apolônio, de nome Menipo, foi atraído por uma mulher fantasmagórica. Foi dito a ele quando poderia encontra-Ia num subúrbio da cidade de Corinto. O jovem apaixonou-se e pensou em casar-se com ela. Quando relatou essa história a Apolônio, este convenceu o rapaz de que ele estava sendo perseguido por uma serpente. Comparecendo à cerimônia do casório, Apolônio falou a Menipo sobre a noiva:

 

Esta bela mulher é uma das vampiras (empusai), isto é, um daqueles seres que muitos consideram lamiai e Demônio (mormolykiai). Esses seres se apaixonam, pois se dedicam aos prazeres de Afrodite, mas especialmente na carne dos seres humanos, e seduzem com delícias os que pretendem devorar em seus banquetes”. Apesar dos protestos de Menipo, Apolônio confrontou a lamia com os fatos. Um a um, os elementos de seu ambiente desapareceram. Ela finalmente admitiu seus planos e seu hábito de se alimentar “em corpos jovens e bonitos porque seu sangue é puro e forte [8].

 

A narrativa descreve a acusação de uma bruxa. Não é impossível que existissem canibais na Grécia posto que outro historiador grego, Pausânias, visitou o santuário de Zeus no alto do monte Licáon na Arcádia, onde ouviu rumores sobre rituais secretos oficiados no topo, rituais esses instituídos por um povo que os gregos definiam como “mais velho do que a lua”. O ritual causava indignação dos não participantes, inclusive de Pausânias que guardou os costumes da piedade clássica, recusando-se a divulgar detalhes sobre aquilo que outros chamaram de “o inominável sacrifício” — o assassinato anual, esquartejamento e repasto comunitário de uma criança no cume da montanha — e escreveu: “Não senti nenhum prazer em sondar a respeito deste sacrifício. Deixemos ficar como está e como sempre foi desde os primórdios” [9].

O problema é que talvez esta “bruxa” específica fosse alvo de falsa acusação, pois existe a acusação da realização de algo humanamente impossível no relato compilado por Philostratus: A saber, o aparecimento e desaparecimento instantâneo de metais preciosos! Supondo que esta lâmia existisse e que trabalhasse em conjunto com ferreiros, assim como o comerciante ateniense Sósias de Lamian, esta mulher de naturalidade fenícia, dona de um estabelecimento no subúrbio de Cencreas (hoje Kenri), em Corinto, poderia armazenar obras de ourivesaria que ficavam lá hora sim hora não. Quando Menipo viu-a cercada de ouro e prata pensou que era extraordinariamente rica, mas Apolônio equiparou o armazém da oficina metalúrgica com “os jardins de Tântalo, que são embora não sejam” [10]. Ele fez com que todos os objetos valiosos sumissem (possivelmente carregado embora). Quando a noiva avistou o galpão vazio ela começou a chorar e implorou que eles não a acusassem de crime:

 

Cuando las copas de oro y lo que parecía plata demostraron ser cosas vanas y volaron todas de sus ajas, y los escanciadores, cocineros y toda la servidumbre de este jaez se esfumaron al ser refutados por Apolonio, la aparición pareció echarse a llorar y pedía que no se la torturara ni se la forzara a reconocer lo que era. Al insistir Apolonio y no dejarla escapar, reconoció que era una empusa y que cebaba de placeres a Menipo con vistas a devorar su cuerpo, pues acostumbraba a comer cuerpos hermosos y jóvenes porque la sangre de éstos era pura.

En esta narración, precisamente la más famosa de las de Apolonio, me he extendido por obligación, pues la mayoría de la gente sabe que tuvo lugar en media de Grecia, pero tienen idea en general de que venció una vez en Corinto a una lamia, pero lo que hacía y que fue en favor de Menipo, no lo saben aún [11].

 

Seria cômodo se Apolônio agisse como sicofantas para livrar seu companheiro da noiva que, naturalmente, teria de se auto-exilar para escapar dos credores. Assim “lâmia” poderia desaparecer do mapa como se fantasma fosse. Tal como a mitológica Medéia, guardiã do velocino de ouro, a mulher estrangeira se encantou por um grego sem poder lhe dar filhos de sangue puro (os gregos eram extremamente racistas). Casando com ela, Menipo estaria se condenando ao esquecimento ou oblivio nos tempos futuros (pior coisa que poderia acontecer com um grego). E ainda contrairia matrimônio com uma companheira bárbara de classe média ou baixa. Então Apolônio acreditava estar fazendo um bem a Menipo.

Foi somente após o advento do cristianismo que a família Lâmia encontrou a paz social e aceitação na comunidade. Lucius Lamia, cristão, foi o seu último mártir.

 

Vitimas de maldições

 

Conforme exposto a historiografia não prova que o clã Lamiæ era composto por feiticeiros canibais. Por contrário, às vezes a lâmia (λάμια) e o lâmion (λάμιον) pareciam ser vitimas da inveja e pelo menos uma vez foi feita feitiçaria contra eles. Assim diz o katádesmos (séc. IV a.C) ou tablete de chumbo IL 997 do Museu de Ágora:

 

Eu enterro Arista[rchos] (...) e sua atividade de forja em bronze no fundo da terra junto com Pyrrias, o metalúrgico, seus respectivos ofícios e almas. Deles e de Sósias de Lamian, sua atividade e alma. E Agesion para sempre. Agesion, a Beócia [12].

 

Na crendice popular da época os que tinham os nomes e atividades escritos em chumbo e enterrados dessa forma estavam condenados a enfraquecer até a morte por meios mágicos. A propósito, se não ocorreu caso de homonímia e eles fossem mesmo descendentes de uma Rainha da Líbia, nunca vi gente tão azarada quanto essa família: Eles eram nobres que se tornaram comerciantes expatriados, caçados e mortos sob as acusações mais estapafúrdias, tal como Lucius Lamia e talvez a noiva de Menipo.

 

Mitologia Grega

 

Acredito que a lâmia da narrativa de Philostratus, se for personagem histórico, não era uma canibal. Afinal ela foi tremendamente constrangida e chorou pedindo para não ser acusada. Porém a personagem mitológica de nome ou título homônimo era uma criatura sanguinolenta e inumana.

 

Lâmia era o nome de um monstro feminino que roubava crianças. Dizia-se que era filha de Belo e de Líbia. Também se dizia que Zeus, unido a Lâmia, dera-lhe diversos filhos. Mas toda vez Hera, ciumenta, mandava matar a criança. Desesperada, Lâmia se escondeu numa caverna e transformou-se num monstro ciumento da felicidade das mães e devorador de meninos. Diz-se que para completar sua vingança Hera lhe tirou o sono, e ela jamais dormia. Mas Zeus se apiedou e deu-lhe o poder de tirar os olhos e colocá-los quando lhe aprouvesse. Quando bebia muito vinho, Lâmia tirava os olhos e os colocava num vaso junto dela, e então dormia, e não era de temer. De outras vezes errava noite e dia, sem dormir, e roubava crianças para comer [13].

 

O jovem personagem Alcioneu quase se transformou numa vítima:

 

Havia um jovem de Delfos, cujo nome era Alcioneu, dotado de grande beleza e de costumes exemplares. Nesse tempo, nas encostas do Monte Círfis, nas cercanias de Delfos, vivia numa gruta um monstro, chamado Lâmia, ou ainda Síbaris. Saía da sua furna e andava pelas vizinhanças, devastando rebanhos e matando gente. Os habitantes da cidade foram consultar o oráculo, para saberem como se desembaraçar de semelhante flagelo. Apólo ordenou que se oferecesse em sacrifício ao monstro um moço da cidade, e a sorte recaiu em Alcioneu. Os sacerdotes o coroaram e o levaram em procissão para junto do monstro. No caminho encontraram Euríbates, filho de Efêmio, um jovem nobre, descendente do Rio Áxio. O moço perguntou a razão da cerimônia. Soube que iam sacrificar Alcioneu e, vendo-o tão belo, se apaixonou perdidamente por ele. Não podendo libertá-lo pela violência, pediu para ser sacrificado em seu lugar. Os sacerdotes consentiram na troca e lá se foi Euríbates, coroado, para a caverna do monstro. Mal atingiram a entrada da gruta, ele ali penetrou rapidamente, agarrou Lâmia, arrastou-a para fora, e bateu-lhe com a cabeça repetidas vezes contra os rochedos. Estalando a cabeça do monstro, este desapareceu e em seu lugar jorrou uma fonte que se chamou Síbaris [14].

 

Parece que essa Lâmia monstruosa era neta da semideusa Lâmia, filha de Poseidom, que foi Rainha da Líbia. Existem outras lamiæ mitológicas posteriores acusadas de causar calamidade. Gordon Melton apresenta novidades:

 

Lamia, posteriormente, virou protótipo de uma classe de seres modelados à sua imagem, descritos como mulheres de aparência rude, deformadas e com a parte inferior do corpo em forma de serpente. Os pés não eram emparelhados, sendo um feito de latão e o outro com a forma de pata de animal, geralmente a de um bode, jumento ou boi. As lamia eram tidas principalmente como seres demoníacos que sugavam o sangue de crianças pequenas; entretanto, tinham o poder de se transformar em lindas donzelas a fim de atrair e seduzir homens jovens. (...) As pessoas logo perderam seu medo das lamia e, mesmo em tempos ancestrais, elas tinham se tornado um meio de os pais assustarem seus filhos. Entretanto, quando uma criança morre de repente de causa desconhecida, um ditado ainda popular na Grécia sugere que a criança foi estrangulada por uma lâmia [16].

 

Ruth Guimarães define lâmias como “seres meio mulheres, meio pássaros, como as Estriges e como as Harpias”. Outros dizem que lâmias possuem pés de bode. Outros ainda afirmam que lâmias não possuem pés nem pernas porque os corpos, da cintura para baixo, são como as caudas das serpentes. “Transformavam-se em animais para mutilar os cadáveres”.[17] Chamavam-se também Lâmias aos “gênios femininos que sugavam o sangue dos jovens [18]”. Com o pasar do tempo o mito continuou a mudar conforme a imaginação dos compiladores. Jean Bodin conhecia um tratado de bruxaria chamado De Lamÿs, de autoria de Pierre Marmor, dedicado ao imperador Sigsmund, que dava à lâmia o poder de metamorfose do lobisomem.

De acordo com Matthew Bunson “as lamiae foram também chamas larvae e lemures, as vezes confundidas com a empusa”. Foi digno de nota informar que a personagem Miriam Blaylock do livro The Hunger (1981), de Whtley Strieber, declarava-se lâmia. [19] Uma lâmia gótica moderninha que, na versão cinematográfica de 1983, assiste show ao vivo da banda Bauhaus, se envolve com um personagem interpretado por David Bowie e usa um punhal disfarçado de pingente na forma de ānkh egípcio para sangrar seus amantes.

 

Mormō, a mulher lobo 

 

Philostratus fala como se Lâmia fosse um equivalente a Mormō (Μορμώ), um monstro mitológico de sexo feminino. Aristófanes usa Mormō (Μορμώ) em sentido figurado para descrever a expressão facial de pessoas emburradas, feias como as máscaras votivas que representavam aquela monstrenga (Archanians 582ff; Peace, 474ff). A forma estendida comum Mormolykia (Μορμολύκια), Mormolykeia (Μορμολύκεια), Mormolykeio (μορμολύκειο) ou Mormolykê (Μορμολυκη), parece indicar um ente cinocéfalo; ou seja, com cabeça de lobo (λύκος). É portanto uma mulher lobo.

 

 

Notas:

 

[1] FARIA, Ernesto (org). Dicionário Escolar Latino-Português. Brasil, 1969. Ministério de Educação e Cultura, p 546.

[2] Em latim “ne quodcumque volet poscat sibi fabula credi neu pransae Lamiae vivum puerum extrahat alvo”. (Horacio. Arte Poética 339-340).

[3] CANDIDO, Maria Regina. A Feitiçaria na Atenas Clássica. Rio de Janeiro, Faperj, 2004, p 109.

[4] APULEIO. O Asno de Ouro. Trd. Ruth Guimarães. São Paulo, Cultrix, 1968, p 22.

[5] APULEIO. Obra citada, p 24-26.

[6] APULEIO. Obra citada, p 23-24.

[7] APULEIO. Obra citada, p 2

[8] MELTON, J Gordon. O Livro dos Vampiros. Trd. James Sunderlank Cook.  SP, Makron, 1995, p 341-342.

[9] WALTER, Burker. Homo Necans: The anthropology of ancient greek sacrificial ritual and myths. Berkeley, University of California Press, 1983, p 85. Em: TIERNEY, Patrick. O Altar Supremo. Trd. Dilson Bento de Faria Ferreira Lima. Rio de Janeiro, Bertand Brasil, 1993, p 25.

[10] FILÓSTRATO. Vida de Apolonio de Tiana. Trd. Alberto Pajares. Madrid, Editorial Gredos, 1992, p 252.

[11] FILÓSTRATO. Vida de Apolonio de Tiana. Trd. Alberto Pajares. Madrid, Editorial Gredos, 1992, p 253.

[12] CANDIDO, Maria Regina. A Feitiçaria na Atenas Clássica. Rio de Janeiro, Faperj, 2004, p 43 e 109.

[13] GUINARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo, Cultrix, 1995, p 197.

[14] GUIMARÃES, Ruth. Obra citada, p 32.

[15] MELTON, J Gordon. O Livro dos Vampiros. Trd. James Sunderlank Cook.  SP, Makron, 1995, p 341-342.

[16] GUIMARÃES, Ruth. Nota de rodapé em: APULEIO. Obra citada, p 229.

[17] GUIMARÃES, Ruth. Nota de rodapé em: APULEIO. Obra citada, p 229.

[18] GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da Mitologia Grega. São Paulo, 1993. Cultrix, p 197.

[19] BUNSON, Matthew. The Vampire Enciclopedia. New York, Three Rivers Press, 1993, p 150.

[20] BODIN, Jean. De La Demonomanie des Sorcieres, à Monseigneur M. Christoƒle de Thou, chevalier, seigneur de Coeli, premir président de la cour de parlement, conseiller du Roy em son privé Conseil. Paris, Jacques Du Puys, 1587, p 108.

 

Metáforas de Pedra e Bronze

A Bíblia hebraica menciona pelo menos dois casos inequívocos em que a manufatura de imagens de seres viventes ou de quimeras compostas por partes de imagens de seres viventes não fere a lei básica de não assimilar ídolos ou imagens ao culto (Ex 20,4; Dt 5,7-9) porque o próprio deus YHWH ordenou que alguém fizesse tais coisas e as expusessem diante de si.

 

Querubins esculpidos por humanos

 

Na Bíblia hebraica o kerub (כרוב), plural kerubîm (כרבים), é um modelo iconográfico com função decorativa e valoração religiosa. YHWH domina a arte da olaria, é capaz de esculpir e dar vida a estátuas de argila, mas deus preferiu contratar um carpinteiro israelita, chamado Beseleel, quando desejou que lhe fizessem um baú de madeira folheada a ouro decorado com um kerub (כרוב) à direita e outro kerub (כרוב) à esquerda (Êxodo 37:8). Na antiga suméria e suas vastas áreas de influência o kerub, plural Karibu, era um homem adulto, forte e robusto, de barba e cabelos encaracolados, trajado em roupas típicas, dotado de dois pares de asas emplumadas – duas com pontas voltadas para cima e duas para baixo. – Os artistas freqüentemente esculpiam este ente mitológico em temas heráldicos onde o par decorava caixas, placas, mobília, etc. Era tão bonito que até o bíblico YHWH desejou ter aquilo diante de si enquanto outras imagens de animais ou humanos permaneciam proibidas (Êxodo 20:2-4).

Elohim YHWH também instalou um conjunto de dois ou mais kerubîm (כרבים) e uma única “lâmina encantada” (החרב להט) para demarcar a fronteira de sua propriedade privada no extremo leste de Gan Eden (Gênese 3:24). Na mitologia grega o raio é a arma de Zeus. A Maçonaria descreve lahat chereb como um flamberge – tipo de espada com lamina ondulada que imita o raio. – Porém lahat (להט) se refere ao ilusionismo ou estado alterado de consciência causado pelo uso duma técnica própria dos encantadores de serpentes (Êxodo 7:11). Era costume entre os ferreiros de Tel Dan e Hazor criar serpentes em suas oficinas metalúrgicas. Suponho que vendiam veneno. Provavelmente os israelitas eram tão espertos quanto os ameríndios que envenenam flechas e armas para caçar ou guerrear com menos esforço e mais eficiência.

Imagino um baixo relevo em Gan Eden com a arma branca flutuando no meio e um par de homens alados ajoelhados, um de cada lado, com mãos erguidas em louvor. A arma não pertence a nenhum deles (porque tudo que se vê entre dois querubins é sagrado). Fica subentendido que YHWH punirá a todos que desrespeitarem a placa sinalizadora, talvez com veneno de serpente.

Finalmente talvez não seja inútil mencionar a hipótese de Édouard Langton, onde a fome e a peste, Deber (דבר) e Keteb (קטב), seriam carrascos mitológicos personificados no Salmo 91:5.[1] Por associação lógica teríamos a trilogia Fome, Guerra e Peste.[2] Dois agentes naturais e um artificial representando todas as possíveis causas de morte.

 

Serafim autômato

 

Na bíblia hebraica o nāḥāš śārāp (שרף נחש), plural nāḥāšîm ha śərāpîm (השרפים נחשים), ou simplesmente śārāp (שׂרף), plural śərāpîm (שׂרפים), nem sempre é um ente mitológico. Deuteronômio 8:15 fala no perigo de atravessar o habitat natural do escorpião (מוליכ) e de nāḥāš śārāp (שרף נחש). Existe também o nāḥāš ṣepaʿ (צפע נחש), plural nāḥāšîm ṣepaʿîm (צפענים נחשים). Portanto se tivéssemos de classificar isso em categorias taxonômicas nāḥāš seria um gênero contendo as espécies śārāp, ṣepaʿ e talvez outras.

Uma lenda bíblica afirma que certa vez a população israelita acampou numa montanha e começou a chorar miséria porque em casa onde falta pão todo mundo grita e ninguém tem razão. Sabendo que o problema da preguiça humana em cuidar da própria vida não seria resolvido, YHWH enviou um grupo de nāḥāš ha śərāpîm (השרפים נחשים) para morder (נשכו) gente ali, causando a morte de diversas pessoas. (Números 21:6) O povo pediu a Moisés que tomasse providências. Então o profeta recebeu de Elohim YHWH a incumbência de fazer (עשה) um śārāp (שרף) e colocá-lo sobre um pedestal (נס).

A visão daquela escultura feita por um homem implicava na cura desta enfermidade específica mediante uma inexplicada relação de causa e efeito (Números 21:8). Seria isto um cetro similar ao caduceu do deus grego Hermes ou ao emblema do deus mesopotâmico Ningishzida adorado em Gishbanda?

 

 Vaso proveniente de, Lagash, com emblema de Ningishzida. (c. 2350 a.C.).

 

 Hermes observa Hypnos e Thanatos carregando um cadáver. (c. 515 a.C.)

 

No tempo em que Isaías instruiu o Rei Ezequias a realizar uma reforma religiosa, todos os altares de tipo bāmoṯê onde os israelitas cultuavam YHWH foram destruídos e suas estatuetas votivas apreendidas para a reciclagem de metal. Um dos objetos que Ezequias espoliou era uma estátua de serpente feita de cobre (הנחשת נחש), de nome Nəḥuštān (נחשתן), que diziam ser a mitológica estátua forjada por Moisés (2 Reis 18:4). Nota-se que nəḥuštān é uma variante da raiz nāḥāš (נחש) que, por sua vez, é uma transliteração ou corruptela da palavra nāga (नाग), existente em sânscrito e páli, que designa um tipo de divindade da mitologia hindu com a forma de uma cobra naja gigante.

O livro deuterocanônico opina que o caduceu de Moisés era um mero ponto focal para onde o israelita olhava rogando pela cura quando ferido pelas “flechas do dragão” (ιοβολων δρακοντων), que são os dentes dos śərāpîm (Sabedoria de Salomão 16:5 e 16:10). Contudo, duas questões continuam sem respostas: Por que da construção de uma imagem para curar mordeduras de serpentes? Por que a serpente construída por Moisés ou uma réplica física do objeto mitológico acabou se tornando um objeto de culto permanente?

 

O argumento de que esta construção era o cumprimento de uma decisão divina, o que no fundo, como vimos, estaria em sintonia com a própria passagem em questão, não deixa de estar certo, porém, não deixa também de ser uma redundância. Um segundo argumento de que YHWH teria lançado mão da serpente, da mesma forma que ele poderia ter usado qualquer outro símbolo, deixa de considerar as trocas culturais que perpassavam as diversas sociedades localizadas no Mediterrâneo Oriental, incluídas aí, as próprias crenças religiosas, entre as quais, aquelas que consideravam os poderes mágicos das imagens das serpentes, que não só os povos pagãos, como também, uma parcela considerável dos judeus deveriam acreditar. Diante das questões apresentadas, fica muito difícil evitar a seguinte colocação: Sendo YHWH poderoso, por que ele decidiu pela construção de uma imagem, ao invés de extirpar o mal simplesmente ordenando que ele deixasse de existir?[3]

 

Se estivéssemos falando em fatos históricos seria plausível assumir que os israelitas interpretaram um ataque de cobras venenosas como castigo divino; confundindo o evento natural com considerações sobrenaturais. Porém admitimos o êxodo como mito ou conto folclórico totalmente fictício, de cunho religioso. No mundo das idéias anjos são anjos e serafins são serafins. Não há que se falar em equívocos, pois existem quimeras em Passárgada.

Mandar nāḥāš morder pessoas desagradáveis continuou a ser um dos hobbies favoritos de YHWH mesmo depois do êxodo (Amos 9:3). Se por acaso alguém já tivesse visto a estatua de nāḥāš śārāp ou nəḥuštān e ficado imune ao veneno daquela espécie, deus mandava os nāḥāšîm ṣepaʿîm (צפענים נחשים) porque não existia nenhum amuleto profilático (לחש) representando um nāḥāš ṣepaʿ (Eclesiástico 8:16).  À época da morte do rei Uzias o santuário (hekal) em Israel tinha uma representação de YHWH sobre um trono cercado por śərāpîm articulados. O modelo iconográfico dessas estátuas apresentava um par de asas nas costas. Também exibia um par de asas enfeitando a cabeça e outro saindo dos calcanhares, igual ao Hermes da mitologia grega. (Isaías 6:2) Eram autômatos, posto que ao soar de um gongo um śārāp bateu asas, agachou em meio à nuvem de fumaça de incenso, abaixou a mão que segurava uma tocha e um blasfemo se deixou purificar encostando a boca nela (Isaías 6:4-6).

O cronista de Isaías 6:2 pôde ver asas nos pés que os ofídios da vida real não possuem porque ele viu um modelo antropomorfo possivelmente inspirado na mitologia grega. O desenho de uma estatueta de mulher com cabeça de serpente, de pé sobre um altar, foi encontrado durante escavações em Tel Dan. O homem foi identificado como sendo o faraó egípcio Ramsés II [4] talvez porque foi encontrado no templo funerário de Ramsés II, em Tebas, um túmulo mais antigo de um sacerdote contendo diversas serpentes de bronze.[5]

 

Dan_Ramses II2.jpg

 Fragmento de um jarro de cerâmica e escaravelho (amuleto mortuário) encontrados em Tel Dan.

 

Uma serpente de bronze de 12,7 cm foi encontrada em Timná dentro de um templo midianita de 1150 a.C., sendo o único objeto de culto encontrado no santuário central. Em Canaã foram encontradas serpentes de bronze nos territórios de Meguido, Gazer, Hazor, Tel Mevorakh e Schehem. Em Hazor, duas serpentes de bronze foram descobertas na parte mais sagrada do templo, sugerindo que as serpentes eram um símbolo sagrado em Israel.[6] Isto pode ou não ter sido usado em rituais de magia simpática ou para fim apotropaico.

 

Reis serpente (por representação)

 

O nome mais comum para designar serpente na Bíblia é nāḥāš (נחש). Isto aparece cerca de trinta vezes. Isto define o maior produtor de artesanato (ערום) entre os animais (Gn 3:1), que, quando na forma da espécie śepîpōn (שפיפן), é o emblema da competência do poder judiciário de Dan (דן) sobre as tribos de Israel, (Gn 49:16-17). Na fauna local existem cerca de quarenta espécies de serpentes das quais nove são venenosas. Sendo isto o totem da tribo de Dan, não é admirável que cada uma tivesse um nome bíblico diferente:

 

A Bíblia cita (...) peṯen (Dt 32:33), cobra peçonhenta, naja; śepîpōn (Gn 49:17), a Vipera ammodytes; ʿākšûḇ (Sl 140:4), víbora venenosa; qipôz (Is 34:15), uma espécie de serpente que faz ninho no deserto e ali põe ovos; zōḥălê ʿāpār  (Dt 32:24), serpente do deserto que se arrasta sobre o pó; ṣepaʿ (Is 11:8), outro tipo de áspide venenosa do deserto; śārāp (Is14:29; Nm 21:9; Dt 8:17), espécie de (...) réptil mais ou menos mítico. (...); tannîn é nome usado quando o escritor fala de um tipo de réptil do qual não tem claro conhecimento.[7]

 

Na natureza não existe nada parecido com Quetzacóatl, Kukulcán, Damballa, Boitatá e outras serpentes emplumadas do folclore mesoamericano e sulamericano. Se o śārāp emplumado (מעופף שרף), mencionado pelo cronista de Isaías nos versículos 14:29 e 30:6, não for um homem pássaro não seria absurdo imaginar que alguém descreveu ofídios com escamas que lembram penas de ave, pois existem ofídios venenosos com escamas coloridas.

Curiosamente certos humanos muito seletos recebiam ordem de atuar como nāḥāš! Por exemplo, quando os filisteus atacam e vencem os israelitas o mensageiro de YHWH diz ao povo conquistador que haverá retaliação, pois “da árvore genealógica de nāḥāš sairá um śārāp emplumado”, ou seja, informam que o novo líder apto a suceder ao trono vacante virá da invencível tribo de Dan (Isaías 14:29). Aqui evoco o auxílio de Moses Maimônides para não enchermos estas páginas de vampiros mordedores:

 

Indubitavelmente tornou-se claro e manifesto que a maioria das profecias dos profetas procede por interpretação de parábolas; posto ser a imaginação um instrumento próprio ao método. De fato, algumas coisas devem ser conhecidas por meio de linguagem figurativa e hipérboles, visto que às vezes ambas ocorrem nos livros proféticos.

Se as palavras forem interpretadas conforme seu sentido literal e não for sabido que se trata de uma hipérbole ou exagero, ou se interpretar de acordo com o significado convencional imediato – não sendo sabido que se trata de sentido figurado – as incongruências saltam aos olhos.[8]

 

No Egito, as máscaras fúnebres e diademas reais dos faraós traziam o emblema do uraeu (uma naja de metal). Este é um símbolo particularmente importante, porque era tratado como uma entidade individual que, entre outras funções, servia como proteção à vida do soberano. Ao assumir o trono, dirigiam ao uraeu um hino no qual o intitulavam “serpente abrasadora”:

 

Ó Coroa Vermelha, Ó Inu, Ó Grande, Ó Mago, Ó Serpente abrasadora

Permita que exista terror de mim da mesma forma que o terror de ti.

Permita que exista medo de mim da mesma forma que o medo de ti.

Permita que exista respeito a mim da mesma forma que o respeito a ti.

Permita-me imperar como um líder dos viventes.

Permita-me ser poderoso, um líder dos espíritos.

(FRANKFORT apud CURRID,1997, p. 91, grifo nosso, tradução nossa).[9]

 

Achados arqueológicos demonstram que os israelitas habitantes de Tel Dan costumavam copiar essa iconografia egípcia na cara dura... Será que uma estátua feita por um ser humano poderia ganhar vida na imaginação dos povos antigos? Giordano Bruno supunha que sim:

 

Os deuses deram ao homem o intelecto e as mãos e fizeram-no semelhante a eles, dando-lhe poder sobre os outros animais; este poder consiste não só em ser capaz de trabalhar de acordo com a ordem normal da natureza, mas ainda em ultrapassar as leis desta; de tal modo que, dando forma ou podendo dar forma a outras naturezas, outros rumos, outros sistemas com a sua mente, com essa liberdade sem a qual a referida semelhança não existiria, acaba por se assemelhar a um deus na terra.[10]

 

As trocas culturais fazem parte de um contexto de normalidade no interior do mundo mediterrâneo oriental. Os egípcios faziam emprego de amuletos com a forma de cabeça de serpente para evitar mordeduras de cobra. Destaca-se, entre eles, o monumento Metterniche Stele onde uma figura humana com chapéu de mascara segura cobras, escorpiões e outros bichos. Creio em meu âmago que é somente por coincidência que isto lembra o fato de Moisés ter passado a usar máscara depois que YHWH tomou a liberalidade de por chifres, raios ou uma figura de Lichtenberg em sua fronte (Êxodo 34:35).

 

Metterniche Stele

 

Notas:

 

[1] LANGTON, Édouard. La Démonologie. Trd. G. Waringhien. Paris, Payot, 1951, p 58-59.

[2] A fome não personificada é raʿab (רעב) em Jeremias (21:7 e 24: 10), etc.

[3] CHEVITARESE, André Leonardo. “Reflexões sobre um Tema Polêmico: afinal os Católicos são Idólatras?”, p 16. Artigo não publicado, disponibilizado para alunos do curso de história por meio de xerocópia aos alunos da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), campus Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), sob autorização do Laboratório de História Antiga.

[4] No Egito as cenas do Livro dos Mortos sempre mostram o espírito diante do trono de Osíris. Neste caso o homem de costas, de face oculta, segura o tradicional cetro do poder diante de um altar onde, no lugar de Osíris, existe uma deidade antropomorfa com cabeça de serpente e corpo feminino. Por isso acredito que a figura humana não seja Ramsés II, mas sim o espírito do proprietário do amuleto que fora enterrado com ele.

[5] DAVID, R. “Rationality versus irrationality in Egyptian medicine in the pharaonic and graeco-roman periods”. Em: HORSTMANSHOFF; H. F. J.; STOLL, M (Eds.). Magic and rationality in ancient near eastern and graeco-roman medicine. Leiden, Brill, 2004, p 135-136.

[6] AMZALLAG, N. “Yahweh, the Caananite god of metallurgy?” Em: Journal for the Study of the Old Testament. Thousand Oaks, v. 33, n. 4, ano 2009, p 399.

[7] ARTUSO, Vicente e CATENASSI, Fabrizio Zandonadi. “A ambivalência do simbolismo da serpente em Nm 21,4-9”. Em: Horizonte, v. 10, n. 25, p 176, jan./mar. 2012.

[8] MOSES MAIMONIDES. The Guide of the Perplexed. Trd. Shlomo Pines. Chicago, University of Chicago Press, 1963, vol 2, p 407.

[9] ARTUSO, Vicente e CATENASSI, Fabrizio Zandonadi. “A ambivalência do simbolismo da serpente em Nm 21,4-9”. Em: Horizonte, v. 10, n. 25, p 190-191, jan./mar. 2012.

[10] BRUNO, Giordano. Spaccio della bestia trionfante. Séc. XVI. In: HELLER, Agnes. O Homem do Renascimento. Lisboa, Editorial Presença, 1982, p 354-355.

Coisa de Outro Mundo

Certa vez minha irmã inventou uma cultura pacífica de sáurios humanóides alienígenas falantes dum idioma baseado nos efeitos sonoros da versão estendida da música I.O.U. (1983), da banda Freeez. Os biubius eram caçados pelos malvados giabras que viviam no esgoto. Quando um biubiu fazia a travessia da Ponte do Mangue, o giabra pulava na tentativa de derrubá-lo e comê-lo. Então um super herói chamado Beijoco tentava impedir que o biubiu fosse devorado.

 

pontedomangue2.jpg

 

Minha irmã me contou essa estória muitas vezes, desde que eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade. Ela inventou o jogo da Ponte do Mangue. Eu continuei planejando diferentes modelos dum acessório chamado biuzalho (peruca de papel higiênico para teatro de fantoches). Fiz músicas temáticas em português e no falso idioma alienígena (mas quem escutava as fitas devia pensar que eu estava passando mal). Era sempre algo do tipo:

 

Zero Zonho ao chegar
Começou com as idéias
Virou um cabeleireiro
Na Praça de Boas Velhas
Zero Zonho arrepiou.
O cabelo do cliente Zero Zonho arrepiou
E o Biubiuzonho cortou.
Poxa vida que absurdo
Um careca cabeludo
Zero Zonho arrepiou.
O cabelo do cliente Zero Zonho arrepiou

 

Até os onze anos continuei planejando piadas e projetando o mapa do planeta Zarp com casas triangulares lembrando as pirâmides do Egito, que também estão cheias de humanóides com cabeças de bichinho. Ali deveria haver salões de festa decorados com aquários, estradas suspensas sobre as florestas para não derrubar árvores e outras impossibilidades politicamente corretas. Tinha um moleque levado instalando um mecanismo que respondia “Infelizmente tem gente” toda vez que alguém tentava abrir a porta de um banheiro vazio.
As outras crianças pareciam gostar das minhas estórias. Juntava rodas de gente catando junto. Até o doceiro e os professores conheciam minhas letras. (Em idioma terráqueo, obviamente). Acho que lá no fundo todos desejam ir embora para Passárgada ou Zarp. Na terra da utopia somos todos amigos do rei. Zarp é uma civilização tão evoluída que tem máquinas capazes de fazerem todo o trabalho e deixar os habitantes livres para festejar e brincar em tempo integral.
Alguém falou para Fulano, que falou para Ciclano que falou para Beltrano que tinha uma favelada juntando hordas de fãs em três morros onde Judas Perdeu as Botas. Beltrano trabalhava na Globo e queria me ouvir, mas minha mãe achou que o PROJAC era longe demais e que eu devia ficar de castigo estudando matemática. Então olhei no espelho e tomei consciência de que seria ridículo continuar agindo como se algum dia nessa vida eu fosse ter meu próprio show de marionetes, minha banda, meus jogos, minha HQ e meu desenho animado. Minha irmã já tinha parado com essas bobeiras. Virou diagramadora e digitadora duma revista de estética para ricos onde trabalhou até ficar com os dedos atrofiados pela tendinite.
Era minha vez de por os pés no chão. No que eu estava pensando? Que eu era alguém?  Desculpe mundo, pela minha soberba contagiosa, pelo grande pecado que cometi mostrando para a juventude carioca que é possível fazer a turba gostar de músicas desafinadas e mal instrumentadas pelo simples acréscimo de teor satírico.