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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

A Vampira frustrada e o Canguru Perneta

Terminei de ler Pandora, da Anne Rice. Anos atrás parei de ler este livro pela metade ao me deparar com o episódio lastimável onde Pantora tem uma péssima noite de núpcias com Marius e fica convencida de que o principal aspecto do “dom das trevas” (a transformação em vampiro) é a libertação da prisão dos conceitos de masculino e feminino. Eles estão em casa e tem cama, mas preferem transar no mato porque a dama não para de vomitar e largar outros dejetos por onde passa. Ela está doidona, tendo alucinações após beber o sangue de Akasha e já não sente partes do próprio corpo:

 

— Beba de mim — disse ele. — Beba até a dor passar. É só o corpo que está morrendo, beba. Pandora, você é imortal.

— Me complete, me possua — disse eu. Estendi a mão para tocar entre suas pernas.

— Agora isso não importa.

Mas estava duro, esse órgão que eu buscava, o órgão que o deus Osíris perdera para sempre. Guiei-o, duro e frio como estava, para dentro de meu corpo. Então fiquei bebendo, e quando senti novamente seus dentes no meu pescoço, quando ele começou a me chupar, sugando a nova mistura que corria em minhas veias, chupou com doçura, e eu o conheci e o amei e soube todos os seus segredos num relance que nada significava.

Ele estava certo. Os órgãos inferiores nada significavam. Ele se alimentou de mim. Eu me alimentei dele. Esse foi o nosso casamento. Em volta de nós, a relva balançava suavemente ao vento, um majestoso leito conjugal, e o cheiro do verde me inundou.[1]

 

Insatisfeita com a realidade dos fatos, ela espera alguns dias e tenta de novo por mera convenção social, certificando-se que o pênis do homem amado não lhe faz nem cócegas:

 

— Pandora, amo você! — exclamou ele desarmado.

— Ponha isso dentro de mim — disse eu, pegando o que ele tinha entre as pernas. — Me complete e me abrace.

— Isso é bobagem e superstição!

— Nada disso — disse eu. — É uma coisa simbólica e reconfortante. Ele obedeceu. Nossos corpos se uniram, ligados pelo órgão estéril dele que agora para ele era a mesma coisa que seu braço, mas como amei aquele abraço que ele passou em volta de mim e os lábios que ele encostou em minha testa.[2]

 

Não é admirável que logo no início a vampira mal afamada tenha visto algo de vampiresco no comportamento de um ser humano comum:

 

Vejo o velho francês que vem aqui há décadas só para olhar as pernas e os braços nus das moças, para alimentar-se dos gestos como se fosse um vampiro, para ficar esperado por aquele momento precioso e exótico em que uma mulher da uma risada e se recosta na cadeira com um cigarro na mão, e o tecido sintético de sua blusa fica esticado no busto, revelando os mamilos.

Ah, velho. Ele é grisalho e veste um paletó caro. Não ameaça ninguém. Vive inteiramente do olhar. Hoje, voltará para um apartamento modesto mas elegante que ele tem desde a última Grande Guerra, e assistirá a filmes da jovem beldade Brigitte Bardot. Ele vive pelos olhos. Não toca numa mulher há dez anos.[3]

 

O cerne do enredo do livro é o aprendizado dos personagens sobre o processo de formação das culturas e religiões, o aglutinamento dumas culturas por outras, a decomposição e reestruturação mútua que isto gera. “Tudo aqui em baixo é especulação. Todos os mitos, todas as religiões, todas as filosofias, toda a história — tudo isso são mentiras [4]”, assim como os corpos perfeitos não passam de imitações de qualquer coisa. Contudo, Pandora escreve um diário para que um amigo volte a crer que a filosofia e a razão constituem uma ponte através da qual é possível transitar entre os dois mundos.[5] Em sua concepção a meta daquele que não se afasta demasiadamente dum senso de humanidade é manter sua “preciosa razão” e “a consciência num vazio”.[6]

Quando vê seu insensível homem perfeito, Marius chora sangue e alerta: “O que você vê em mim não é evidência de juventude. É algo que está tão longe de qualquer promessa de juventude que só agora estou começando a compreender os sofrimentos que traz”.[7] Pandora estava estupefata com a brancura da pele marmórea e um fulgor de olhos humanamente impossível: “Ele era fortíssimo, duro como uma árvore! Jamais senti uma musculatura tão dura num homem. (...) Duro, duríssimo, mas sem vida. Sem calor de sangue humano nos gestos delicados e ternos. (...) Isso não é disfarce, a luz vem de dentro! (...) Abracei essa estátua dura do homem mais espetacular e singular que jamais vi ou conheci: Abracei-o e dessa vez ouvi as batidas de seu coração, o ritmo distinto delas. Encostei o ouvido em seu peito”.[8]

No fim de tudo a própria Pandora adquire a forma de uma “estátua viva”, branca demais para ser humana, com olhos amarelo-acastanhado, com nuances de dourado. Seus olhos foram ficando cada vez mais como pedras preciosas, de modo que pareça uma cega com topázio no lugar de pupilas, ou “orbes cuidadosamente formados de topázio, safira, até de água-marinha”.[9]

 

Ele tinha muitos espelhos, que, como se sabe, naquele tempo eram apenas metal polido. E fiquei deprimida e confusa pelo simples fato de ter rejuvenescido; meus mamilos estavam cor-de-rosa, como ele dissera; as rugas da idade já não interrompiam os dotes pretendidos de meu rosto ou meus braços. Talvez seja mais preciso dizer que eu fosse atemporal. Atemporal como adulta. E cada objeto sólido parecia estar ali para satisfazer minha nova força.[10]

 

Poucos vampiros são mais antigos que ela e estes assumem um aspecto cada vez mais horrendo do que belo. Ao longo da vida Pandora viu pelo menos mais um humano com uma particularidade que parece encaixar na descrição típica de um vampiro milenar: “O grego só tinha uma perna boa. A esquerda, do joelho para baixo, era de marfim bem entalhado, completa com o pé e a sandália cuidadosamente esculpidos. Dedos perfeitos”.[11]

 

Rainha-abelha

 

Akasha não se move, não fala, nem pisca os olhos, mas Pandora crê sonhar por influência desta rainha que “deve colher recordações como flores apanhadas ao acaso no jardim do mundo”. Isso é especialmente verdade quando a rainha dos vampiros se comunica por trofalaxia.

 

Eu não conseguia imaginar uma coisa dessas quando estava acordada, mas nesses sonhos eu era o monstro que os romanos chamavam de Lamia. Ou assim parecia. O sangue era doce, o sangue era tudo. Estaria certo o velho grego Pitágoras? As almas migram de um corpo a outro? Mas minha alma nessa vida passada havia sido a de um monstro.[12]

 

Antes da transformação, Pandora busca alcançar o êxtase orgástico a fim de compensar com atividade sexual uma súbita sede de sangue que não pode ser satisfeita. Porém nem sempre é fácil encontrar parceiros interessados em entreter uma senhora de 35 anos a troco de nada. Pandora bebe vinho diariamente, tem pesadelos e epifania. Ela imagina que sua alma transmigrou duma vida passada (havendo sido um vampiro negro que morreu exposto ao sol). Mais tarde deixa de crer possuir uma “alma migrante”, vindo a concluir que não há necessidade de reencarnação, nem de destino, nem de “qualquer desculpa milagrosa para nada do que aconteceu”. Simplesmente, quando falta uma explicação racional, qualquer um “pode acabar se refugiando na loucura”.

Pandora não vira hippie porque quer. Ela perdeu os pais condenados por sentença judicial e virou uma refugiada em terras estranhas. Quando se muda para a casa própria – onde não há ninguém que lhe mime e console – ela se debate em surtos de histeria.

 

A verdade é que não se pode preparar ninguém para uma coisa dessas, nem passar uma idéia do que isso seja através da linguagem. É preciso conhecer. (...) Eu estava sozinha. (...) Não existiam deuses. Os filósofos eram tolos! Os poetas cantavam mentiras.

Eu soluçava e arrancava os cabelos. (...) Às vezes, eu sentia uma alegria enorme, uma libertação de todas as falsidades e convenções, todos os meios pelos quais se pode fazer de refém uma alma ou um corpo!

Então a assombrosa natureza dessa libertação me cercou por inteiro como se a casa não existisse, como se a escuridão desconhecesse as paredes. (...) Passei três dias e três noites vagando, rastejando, chorando e gritando.[13]

 

            Depois de tudo Pandora começa a ver vantagens na miséria: “Pensei em como seria a pessoa se desligar completamente da civilização e nunca mais tornar a se preocupar com a posição de uma faixa ou de um grampo, dormir na relva, nada temer!”[14] Claro que, sendo vampira, a personagem não deveria ser de fato uma mendiga ou prostituta sagrada. Pandora tem ouro escondido por toda parte. O suficiente para se encantar por uma caneta esferográfica preta e um caderno de papel com linhas para caligrafia crendo serem objetos caros.

 

 

Notas:

 

[1] RICE, Anne. Pandora. Trd. Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro, Rocco, 1998, p 154.

[2] RICE, Anne. Pandora, p 175.

[3] RICE, Anne. Pandora, p 10.

[4] RICE, Anne. Pandora, p 201.

[5] RICE, Anne. Pandora, p 21.

[6] RICE, Anne. Pandora, p 24.

[7] RICE, Anne. Pandora, p 121.

[8] RICE, Anne. Pandora, p 123-125.

[9] RICE, Anne. Pandora, p 11.

[10] RICE, Anne. Pandora, p 162.

[11] RICE, Anne. Pandora, p 76.

[12] RICE, Anne. Pandora, p 55.

[13] RICE, Anne. Pandora, p 68-69.

[14] RICE, Anne. Pandora, p 132.

 

O Anjo Caído e a chuva

Hoje achei algumas fotos de El Ángel Caído (1877), de Ricardo Bellver, na busca do Google, o que não deveria ser grande coisa, afinal é só uma escultura do século retrasado que todo mundo conhece e o mundo inteiro já viu... Só que não! Tem fotógrafo encarando a chuva para produzir arte em dias nebulosos... Essa aqui é uma foto de referência extraída do banco de dados da The Society of Classical Poets [1]:

 

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Essa outra foi publicada pelo próprio fotógrafo Gabriel Calderón, no Flickr, em oito de junho de 2011:

 

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Essa é uma foto de referência do Salón Neo-Simbolista [3] extraída do antigo banco de dados (hoje apagado) da galería de fotos Heavy Hands Heavy Hearts - deactivat, no Tumblr: 

 

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Ricardo Bellver esculpiu El Ángel Caído (1877) em gesso banhado em bronze. Isto foi premiado numa exposição realizada em Paris, em 1878, e comprado pela Espanha para fins de incentivo ao turismo. Desde 31 de outubro de 1879 a escultura se encontra no alto dum pedestal no Parque del Buen Retiro, em Madrid (Espanha), cuja base vive cheia de oferendas, despachos e serviços, a despeito da proibição do culto à imagem pela Câmara Municipal de Madrid. Uma réplica exata em resina poliéster pode ser vista mais de perto no Museo de la Real Academia de Belas Artes de San Fernando.

Também em Madrid existe uma estátua retratando o momento da morte de Ícaro, caído de cabeça sobre um prédio em péssimo estado de conservação. Alguns não entendem a referência ao mito grego menos conhecido e acreditam que seja um segundo anjo caído:

 

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Eu particularmente prefiro estátuas sem serpentes nem desespero nem coisa nenhuma, a exemplo do "Lucífero" de Constantino Corti, por serem menos infiéis ao livro... Se você tem interesse pelo mito de Lúcifer e não conhece a história varrida para debaixo do tapete, por favor leia meu artigo:

 

Funeral De Hylyl Ben Šaḥar:

https://www.academia.edu/12294570/Funeral_De_Hylyl_Ben_%C5%A0a%E1%B8%A5ar_L%C3%BAcifer_hist%C3%B3rico_em_1Q_Isaa

 

Referências:

 

[1] Foto de referência extraída de The Society of Classical Poets, acessada em 20/12/2015, às 19h. URL: http://classicalpoets.org/wp-content/uploads/2013/11/fallen-angel-el-c3a1ngel-cac3addo-3.jpg

[2] Foto © 08/06/2011, Gabriel Calderón e Flickr. URL: https://www.flickr.com/photos/searingheat/9168254845

[3] Salón Neo-Simbolista, acessado em 20/12/2015, às 19:43. URL: http://amalgatophilia.tumblr.com/post/10167464701

Estátua "Lúcifer” de Constantino Corti (1824-1873) exibida no British Museum

Achei uma bela fotografia em preto e branco produzida por um freelancer inglês em 1895 quando a escultura “Lúcifer” de Constantino Corti (1824-1873) foi exibida no British Museum. Espero que gostem. 

 

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Junto da foto veio uma folha amassada com um desenho a nanquim (legenda: “‘Lucifer’ Plaster Statue by C. Corti”). A folha é do jornal The Illustrated London News (vol. XLI, edição 1166, de 27/08/1862, p. 345).

 

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Lindo, não? Pena que amassou.

Hoje vi deus face a face

Em 17/12/2015 tinha um sujeito tentando apagar uma fogueirinha na rua com um fogo quase tão alto quanto ele. Antes de acordar e ver isso sonhei com algo que parecia uma procissão de árias do Hindustão onde todos tinham em si a manifestação de Agni, com cabelo e couro cabeludo em chamas. Juntos eles pareciam um incêndio, embora andassem com calma e disciplina, sem nenhuma demonstração de dor. Coisa linda. 

Embora não parecessem doentes nem desnutridos, eram todos magrinhos como se tivessem pouco líquido no corpo. Todos estavam despidos da cintura para cima. Eu estava prestando tanta atenção nas cabeças que nem reparei se usavam calças ou sapatos. Também não reparei se tinha alguma mulher entre a maioria masculina. Eles tinham a mesma altura. Talvez fossem vários corpos de um único deus. Dizem que devas podem multiplicar braços, pernas, etc. Neste caso multiplicou-se o corpo inteiro num grupo de cerca de 40 avatares.

Todos eles tinham a carne das falanges distais e metade das falanges médias dos dedos das mãos em chamas. Um narrador parafraseou os contos do Baital na versão de Richard Burton, onde um personagem “demonstrou sua coragem colocando o dedo na chama de uma tocha até que se tornasse cinza [1]”. Depois comparou o aspecto geral das mãos de Agni com o amuleto chamado Mão da Glória – mãos mumificadas usadas como candelabro, com os cinco dedos acesos. – “A mão de glória tornava estupefatos e imóveis todos aqueles a que era apresentada [2]”.

Perguntei ao narrador se aquilo era algo semelhante ao suicídio coletivo dos devotos de Śiva que o marquês Marie Victor Stanislas de Guaita descreveu em 1891: “O carro sagrado do deus, pesado, com quatro mós rolantes, vai dilacerar a carne, esmagar os ossos; eles sabem, e é com gritos de triunfo, com o clarão do livre sacrifício nos olhos que se deitam às dúzias no percurso do ídolo esmagador!”[3] Lembrei ainda dum vídeo sobre o ritual de suicídio dos brâmanes que cremam a si mesmos e do apoio de Buda à decisão de Godika, quando o discípulo anunciou que tiraria a própria vida após fracassar num exercício de meditação:

 

O sábio faz este tipo de coisa, não se apega à vida, Godhica extirpou o desejo pela raiz, ele se extinguiu. (Suttapiṭaka 3.4.3.3:13).[4]

 

Pensei que eram devotos e fiquei preocupada com a qualidade de vida que aquelas pessoas teriam após o fim do ritual, se o fogo prejudicasse as mãos a ponto de restarem somente falanges proximais para o movimento. Então um Agni mostrou sua mão bem de perto para eu ver que os seus dedos de extremidades cinzentas não caíam nem soltavam pó como um incenso que se consome. Outro deles produziu e lançou um raio globular (vajra) na forma de bola de fogo amarelo-avermelhado para que eu visse que era realmente um deus e não um penitente suicida. O Agni do meio produziu um sulco flamejante na testa com o poder da vontade e ficou com aspecto tal que um faquir já não seria capaz de andar com essa intensidade de chamas no crânio. Eles eram todos extremamente bonitos por causa das chamas e juntos compunham um imponente quadro harmônico.

 

Em 19/12/2015 acabei ficando com sono enquanto lia o livro Razão, Verdade e História, de Hilary Putnam. Eu estava deitada na cama e acabei continuando o papo cultural com Agni... Ele opinou que a atitude dos devotos suicidas e dos ingleses no Hindustão, no século XIX, era muito semelhante à dos shmoos e dos capitalistas num quatrinho de AI Capp, conforme descrito por Álvaro de Moya:

 

Bilhões deles habitam o vale. Aliás, existem mais shmoos no mundo do que qualquer outra coisa. Existiam naquele local desde o início dos tempos. Shmoos botam ovos, dão leite tipo A, bifes finíssimos quando fritos e quando cozidos, viram peito de galinha. Mas não se alimentam de nada. Quando alguém olha com fome, ele morre de felicidade. Não há desperdício: A pele é do melhor couro, os olhos servem para botões e não têm ossos.[5]

 

No quadrinho de 1949 o fazendeiro Li’l Abner pula de felicidade, pois ninguém mais precisará trabalhar, graças ao Shmoo que faz de tudo para agradar ao humano como os devotos agradam aos deuses. Um velho lamenta:

 

— Oh — suspiro! — é tarde demais! Os shmoos gostaram dele como gostarão de todos. Seguirão (...) caindo mortos de alegria quando alguém olhar faminto para eles. Existem shmoos para suprir a todos na terra com tudo que eles podem comer, para sempre. E os shmoos não comem nada, mas se multiplicam rapidamente. Oh, este é um dia negro para a humanidade!

A cidade fica em festa, brincando com os Shmoos. Todos estão saudáveis e felizes, menos Soft-hearted John, o dono do armazém. Ninguém compra em sua loja. (...) Ninguém precisa mais de dinheiro! (...) Mendigos não precisam mais esmolar. (...) Em Wall Street, J. Roaringham Fatback (Porcolino Suíno), que começou como office-boy em Central Pork, hoje dono do truste da carne de porco, nota que seu gráfico de vendas cai assustadoramente até saber que, quando assado (esquecêramos de dizer), shmoo tem o mesmo gosto de carne de porco. De tanto lidar com porcos, sua aparência é a de um porco. O dono do truste de ovos, que tem exatamente a cabeça de um ovo, está face ao mesmo problema. Porcolino urra.

— Camaradas! Esta é uma crise! Se não fizermos algo depressa todos serão felizes!

É uma nova crack de 29 em Wall Street! Os capitalistas jogam-se das janelas de seus prédios, atiram-se debaixo de trens. Porcolino chama D.D. Teasdale, exterminador de pestes, que argumenta serem os shmoos anti-americanos, pois fazem um americano lídimo (Porcolino) se sentir mal.[6]

 

Alguém tem perguntas para Agni? Já que estou vendo ele sempre posso dar recados. Só não vale perguntar número de lotería, pois se ele der quem vai jogar sou eu. 

 

 

Referências:

 

[1] BURTON, Richard Francis. Vikram e o Vampiro. São Paulo, Círculo do Livro, p 138.

[2] HUSSON, Bernard. O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 380; PLANCY, Jacques Albin Simon Collin de. Dictionnaire Infernal. Paris, Librairie Universelle de P. Mongié Aîné, 1826, p 482.

[3] STANISLAS, Guaita. O Templo de Satã. Trd. Celina C. Salles. São Paulo, Três, 1973, vol 1, p 28.

[4] Tanto o vídeo quanto a tradução foram postados por Jerry Steves Aghoris na comunidade Biblioteca de Lúcifer (Orkut), em 18/05/2011, num debate problematizando a motivação dos suicídios devocionais. Ele disse: “Isto é algo muito interessante para se debater! Narra o Pāḷi Tipṭaka que Buddha tinha um devoto de nome Godika que cometera suicídio por romper repetidas vezes com sua concentração! (...) Os budistas afirmam que somente aquele que atingira o estado de iluminação plena poderá cometer tal ato. (...) Na realidade parece que houve uma tentativa de se remover a parte indesejável de um rito incompatível com os tempos modernos sem se macular uma doutrina por completo, ocidentalizando-o. (...) O motivo do suicídio é o grande dilema! Quando o suicídio é religiosamente aceito? Quando um monge protesta ateando fogo em seu próprio corpo? Quando uma mulher brâmane atira-se à pilha ardendo em chamas junto ao corpo de seu falecido esposo? O suicídio no budismo antigo está mais para uma correlação entre a alma que se libertou da matéria".

[5] MOYA, Álvaro de. “Era uma vez um menino amarelo”. Em: MOYA, Álvaro de. (Org.) Shazam! São Paulo, Perspectiva, 1977, p 52.

[6] Idem, p 53-54.

 

A Ordem Nasce do Caos

A coletânea de palestras “Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino” foi elaborada por Nietzsech no século retrasado, lá onde Judas perdeu as botas, mas permanece atual em seu fã clube – por aqui onde se crê ser tabu, digo, conteúdo adequado à realidade sócio cultural latino americana. (Que seja!) – Nietzsech enumera as qualidades do leitor ideal: O estudante é autônomo (independente do estabelecimento de ensino). Deve ser calmo e ler sem pressa, não deve colocar a si e à sua “cultura” como medida de critério seguro de todas as coisas nem esperar por um quadro de resultados. Contudo não se afastará tanto a ponto de negar o valor da produção nacional, as metamorfoses e/ou progressos históricos da Filosofia.

Não convém assumir como verdadeiro, eterno e imutável, a tudo que consta nos clássicos gregos. Não seria sensato contestar a moralidade de licenças poéticas ou julgar o comportamento alegre dos cultos de mistérios como algo imoral, ofensivo aos costumes da cristandade. Nada disso deve ser valorado fora do contexto histórico de sua época e lugar. Filosofia não se mistura com teologia, embora eventualmente um tópico da teologia possa ser objeto de estudo do filósofo e o teólogo muitas vezes dê ao seu trabalho uma formatação semelhante ao velho estilo grego dos diálogos filosóficos.

Em todo caso o estudante deve estar preparado para uma experiência de meditatio generis futuri (meditação geradora do futuro), pois só emitirá juízo sobre declarações alheias após meditar a respeito. Age como Sísifo feliz, subindo a montanha com sua carga de idéias pesadas só para rolar de novo isto do alto, feito criança descendo a ladeira no carrinho de rolimã. Ele deve desejar “percorrer toda a via das profundezas da experiência até o cume dos verdadeiros problemas da cultura, e inversamente destes cumes até os porões dos regulamentos mais áridos e dos quadros mais esmerados”. Vez por outra um problema é resolvido, mas aí vira ciência, o filho cresce e vai embora.

O estudante deve ter liberdade, determinação e falta de preconceito na hora de julgar. Isso simplesmente não era possível numa escola meramente técnica. Faltavam “estabelecimentos para a cultura”. Ao tentar prever o futuro à maneira dos arúspices romanos, examinando as entranhas do presente, Nietzsech preconiza corretamente que entre o seu presente (nosso passado) e o seu futuro utópico (nosso presente) ver-se-ia uma intensa metamorfose ou “destruição” do ginásio; talvez até da Universidade. Uma hipótese sinistramente trabalhada como metáfora nos videoclipes Another Brick in the Wall (Pink Floyd) e Mein hertz Brent (Rammstein).

 

  

Nem todos fecharam o livro pensando que Nietzsech jamais idealizou um modelo institucional mais adequado que aquele a ser suplantado, quiçá destruído. Embora eu certamente devesse seguir a manada fazendo vista grossa diante de certas coisas – e me preocupar com a reinvenção de tópicos menos importantes – não pretendo me calar diante de fatos óbvios... Nietzsech descaradamente, manifestamente, usou termos seletos do vocabulário maçom nestas palestras, intencionando compor alegorias nada sutis nas entrelinhas.

Por exemplo, o “pentagrama” que serve de alvo de tiro para o divertimento dos aprendizes no início da trama possui algo da natureza do venerável mestre que mais tarde será visto como uma estrela guia posando ao seu lado. Isto é assim porque o idoso filósofo logo viria a ser alvo de um perguntar incessante e se veria envolvido pelo questionamento acalorado de alunos que pensavam saber muito sobre todas as coisas, ainda que mal tenham largado a chupeta e deixado de usar fraldas!

Enfim, antes de ser filósofo e louco, Nietzsech era um adolescente ocioso cheio de nada. Ele aprendeu lições importantes de forma autônoma, com ajuda extracurricular, e parecia desejar que todo filósofo tivesse um circulo de amizades tão preocupado e prestativo quanto o que ele teve.

Os rituais maçônicos não tem natureza jurídica religiosa, sendo algo parecido com atividades de teatro entre amigos. Existem vários graus cujos programas adquiridos pelos maçons dentro das lojas maçônicas muitas vezes acabam vendidos para lojas de livros usados comuns depois que perdem sua utilidade. Pois bem, ignoro se Nietzsech foi maçom, mas se não foi ele ainda poderia ter lido isto caso desejasse, da mesma forma que eu li.

Antes de acessar a melhor fonte de instrução o aprendiz enfrenta a ira do companheiro cujo duplicado alter ego canídeo parece barrar o acesso à Nova Jerusalém (província de Passárgada existente lá no mundo das idéias), tal como Cérbero protege o Hades e Anúbis abre as portas do Amenti:

 

Em nome de toda a cultura e da pseudo-cultura! O que quer de nós este cão estúpido! Maldito cão! Fora daqui, tu que não foste iniciado, tu que não poderás jamais sê-lo, fique longe de nós e das nossas entranhas, retira-te em silêncio, calado e cheio de vergonha![1]

 

Platão teria uivado de rir lendo isso, pois num passado ainda mais remoto seu Sócrates havia criado a figura do Rei Filósofo ideal com ares de lobisomem.

 

— Ora tu pensas — prossegui — que, para efeitos de servir de guarda, há alguma diferença entre a natureza de um bom cachorrinho e a de um jovem bem nascido?

— Que queres tu dizer?

— Que um e outro precisa de ser perspicaz a sentir o inimigo, e rápido na perseguição, desde o momento em que se apercebeu dele; e, além disso, forte, para  combater, se for apanhado.

— Precisa, efetivamente, de todas essas qualidades.

— E, além disso, de ser valente, para lutar com energia.

— Como não?

— Mas poderá ser valente quem não for animoso, quer seja cavalo ou cão ou qualquer outra espécie de animal? Ou não reparaste como o ânimo é invencível e indomável, e como uma alma possuída por ele não conhece medo nem derrota em qualquer circunstância?

— Reparei.

— Portanto, são já evidentes as qualidades físicas que deve ter o guardião.[2]

           

Entrando no mérito da parte que devo dizer sem explicar aos profanos – iguais a mim – lemos que Nietzsche critica a metodologia da educação utilizada pelas instituições de ensino na Alemanha, em sua época (uma fábrica de homens dóceis, obediente e destituídos de personalidade). Tomando o Venerável Mestre como personagem, Nietzsech sustenta que a concentração da verdadeira cultura num pequeno grupo é uma lei da natureza. Mas acaso cultura é coisa natural? Filosofia é um tipo de flor donde, quando murcha, brota o fruto da epistemologia que, novamente murcho, renasce como árvore do conhecimento da técnica industrial? Não é!

A pedagogia não é contra ou a favor dos “desígnios da natureza”. Ela apenas não tem nada a ver com isso... Há quem pense que o negócio é ganhar dinheiro, verdinhas, bufunfa! E não é verba para sopa de ervilhas, cigarro, piranha e carro velho. É grana para o Coringa queimar feliz. Isso que a gente pensa que vai ter e não tem, pois quando o quadro de Goya fica caro o pintor já perdeu as orelhas e está morto. Filósofo tem espírito de agricultor plantador de tâmara (aquela árvore que demora cem anos para crescer e dar os primeiros frutos natalinos).

 

A maioria dos homens luta para adquirir cultura, trabalha pela cultura (...) unicamente para permitir a existência de um pequeno número. (...) Democratiza-se os direitos do gênio para suavizar o trabalho que exige uma formação, para arrefecer a carência pessoal de cultura.[3]

 

O Venerável Mestre, com Nietzsech de tocaia, demonstra o desejo de reunir talentos inventivos que mostrem pelo seu bom exemplo aquilo que o senso comum não soube imitar. “É preciso uma riqueza transbordante para viver com suas próprias forças, e viver para todos”. Mas essa riqueza normalmente é só de idéias... Esse é o sentido da alegoria do sacrifício do mestre pelo benefício das gerações futuras.

O mestre tem a tarefa de deixar o jovem perplexo, lhe despertando o senso critico por meio de tarefas que exijam uma reflexão profunda até que a meditação se torne um hábito. É preciso respeitar a forma culta da linguagem e buscar o “gênio grego” sem repudiar nem abandonar os laços com a cultura nacional (no caso de Nietzsech, a cultura alemã; em nosso caso a cultura grega, a alemã e o que mais agregar dados importantes à nossa instrução, mas também faríamos bem em nos engajar na descoberta de verdadeiros talentos brasileiros, a exemplo de Hilton Japiassu e Alejandro Cerletti).

 

Notas:

 

[1] NIETZSCHE, F. “Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino”. Em: Escritos sobre educação. Trd. Noeli Correa de Melo Sobrinho. São Paulo, Loyola, 2003, p 127.

[2] PLATÃO. A República. Trd. Maria Helena Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p 83.

[3] NIETZSCHE, F. “Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino”. Em: Obra citada, p 71.

Justa injustiça

To aqui relendo A República pela segunda vez na vida, dez anos depois da primeira. Sócrates acreditava que o homem feliz trabalha sem dar importância a salários, aparência ou reputação. Claro, pois todo ente espiritual vive de vento... Enquanto o alienado que não ama aquilo que faz trabalha em vista do salário, transformando sua própria vida no Inferno de Dante, o vocacionado quase sempre é uma porcaria de estagiário que paga para trabalhar. Portanto, entre mortos e feridos ninguém se salva.

Como o homem justo não quer parecer bom, e sim sê-lo voluntariamente, quem considera a justiça um bem por si só não deveria enxergar utilidade no mitológico anel de Giges. Mas se tivesse um anel que faz qualquer portador ficar invisível eu ganharia dinheiro honesto montando um show de mágica onde a platéia me veria desaparecer e fazer acrobacias com bolinhas coloridas.

Sócrates, conforme descrito por Platão, parecia estar disposto a tolerar inúmeros abusos de autoridade caso ele tivesse poder político para realizar o projeto da sua república “fundada em imaginação”.

Em sua Passárgada ao revés ninguém poderia usar condimento no preparo de comidas nem criar porcos a fim de ter maior variedade de carnes para consumo na cidade. Os guardiões não poderiam ter casa própria nem calçar sapatos no verão. Não poderiam rir, chorar, ter relação sexual extraconjugal, ter relação sexual conjugal antes dos trinta anos, tossir e soltar pum.

A extrema frieza de caráter e ausência de medo é temperança ou psicopatia? Creio em meu âmago que a “boa medida” não é algo tão leviano quanto aprender a beber com moderação, mas também não é motivo para alguém se envergonhar por haver engripado. Daí a enorme diferença entre Ética e etiqueta.

Todos os músicos que não tocassem apenas algo semelhante às marchas militares, hino nacional e canto gregoriano seriam expulsos da cidade. Toda a produção artística estaria submetida a uma pesada classificação etária ou censura severa, sob pena de ostracismo. Seria proibido aos homens fazer comédias, tragédias ou representar papéis femininos, não se podendo narrar contos de terror com fantasmas gemendo no Hades, etc. Nenhuma arte poderia ter o entretenimento como objetivo final.

Toda produção artística deveria ser útil para modelar o caráter na bondade e na beleza. A arte e os jogos de interpretação teriam heróis sem vilões para combater. Tudo deveria ser impossivelmente branco, sem nenhum tom de cinza.

 

Mas a baixeza não devem praticá-la nem ser capazes de a imitar, nem nenhum dos outros vícios, a fim de que, partindo da imitação, passem ao gozo da realidade. Ou não te apercebeste de que as imitações, se se perseverar nelas desde a infância, se transformarão em hábito e natureza para o corpo, a voz e a inteligência? (A República III, 395d).[1]

 

Porra, Platão, deixa a gente jogar RPG! Zeus nos livre desse tédio! Eu odeio Le Petit Prince, Peanuts, Mafalda, Manuelzão e Miguilim. Nem sei dizer por que odeio tanta coisa que mal conheço exceto pelo fato de haver deplorado quando terceiros tentaram me obrigar a gostar da estética da fome e ler quadrinhos de traços fracos à época em que eu já me havia acostumado com o elevado padrão de realismo da arte de Mozart Couto, Nico Rosso, Frank Frazetta, etc., preferindo ler Drácula e Frankenstein. Uma enxurrada de bobeira salpicada de pseudo-filosofia homeopática teria destruído minha alma se uns casos fortuitos não tivessem me endereçado a prece da saudosa cuca Cássia Eller: “Eu só peço a deus um pouco de malandragem, pois sou criança e não conheço a verdade. Eu sou poeta e não aprendia amar”.

Onde está a justiça quando se tolhe tão ferrenhamente a liberdade de crença, pensamento e opinião? Podem existir justiça e temperança dissociadas das liberdades laicas? Seria justo deixar o filósofo mentir “para o bem do povo” criando fábulas sobre a origem divina dum estranho sistema de castas, sendo o público alvo sabidamente incapaz de distinguir a alegoria da realidade?

As crianças não precisam ser submetidas às regras dum regime militar tão severo quanto a disciplina das ordens de cavalaria medievais. Nem os escoteiros, columbas e demolay. Cruz credo! Melhor seria apenas ensiná-las a questionar a incoerência de certas crenças e hábitos desde cedo. Por exemplo, assumindo a hipótese que nenhum deus deveria ser uma faca de dois gumes que aceita oferenda, dízimo ou indulgência em troca do perdão de atos praticados por humanos contra outros humanos.

 

Se, portanto, se deve acreditar neles, deve-se ser injusto e fazer-lhes sacrifícios com o produto de nossas injustiças. (A República II, 365e).[2]

 

Não concordamos com a definição do playboy Trasímaco sobre ser a justiça a conveniência do mais forte; embora na natureza mande o mais forte e obedeça quem tiver juízo. O pensamento transcendental de Sócrates é a parte que se aproveita em qualquer época e lugar, ainda que fora do contexto onde foi escrito. Reconhecemos que a temperança (bom senso) é certamente necessária ao estudo de Filosofia. Mas o conselho de levar filhos pequenos para beber sangue do bárbaro morto no campo de batalha a gente pode deixar no passado... Ironicamente os comportamentos que levam rótulos de justos ou injustos na República seriam em grande parte inversos conforme a lei civil e penal na maior parte do planeta hoje em dia, inclusive por motivos que vão além da realidade sócio econômica e do padrão de vida da maioria vivente.

 

O bom juiz não deve ser novo, mas idoso, tendo aprendido tarde o que é a injustiça, tendo-se apercebido dela sem a ter alojado na sua própria alma, mas tendo-a observada como coisa alheia nos outros, durante muito tempo, para que servindo-se do saber, e não da experiência própria, compreenda o mal que ela é. (A República III, 409b-c).[3]

 

O tempo passou... Apareceu um macho hetero lindo e novo filosofando, chamado Jean Jaques Rousseau, e algum imbecil usou a existência de semelhantes criaturas miraculosas como desculpa para inventar a aposentadoria compulsória... Por que não deixam o velho lúcido trabalhar em paz? Por que ainda há quem não deixe o novo filosofar sem virar alvo dos dardos do preconceito? Deixemos a vida seguir em frente.  

A propósito, vendo que o rascunho de ordenação jurídica da famosa República não presta, os pseudo-espartanos moderninhos deveriam lavar a boca com sabão antes de falar merda sobre certas “coisas de bárbaros” como as Leis de Eshnunna e o grandioso Código de Hamurabi (que nunca teve bulhufas a ver com o livro bíblico do Deuteronômio).

 

Notas:

 

[1] PLATÃO. A República. Trd. Maria Helena Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, p 121.

[2] PLATÃO. Obra citada, p 67.

[3] PLATÃO. Obra citada, p 147.