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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

A Cabala e a Árvore da Sombra

A “quebra dos vasos” foi um dos conceitos surgidos na cabala luriânica. Segundo Roy A Rosemberg, os vasos capacitores designados para as três sefirót superiores puderam conter a carga divina que irradiava para elas, mas a carga subitamente acumulada nas próximas seis sefirót foi demasiadamente forte, inutilizando sucessivamente os capacitores. Então as sobras produzidas pelo processo de entropia caíram, gerando as kelippot.

 

Durante o século XVI um grupo de cabalistas viveu em Safed, na Galiléia. Durante algum tempo, o grupo teve como mentor o grande gênio místico Isaac Luria que, baseado nas imagens do Zohar, desenvolveu vários conceitos adicionais que tiveram um papel muito importante na teoria mística judaica. Um deles é o conceito de tzimtzum (“contração”), segundo o qual, como Deus ocupa todos os espaços, Ele teve de contrair-se para ocupar uma parte mínima do seu infinito e abrir espaço para o universo criado. Como essa contração ocorreu igualmente de todos os lados, a forma resultante foi esférica. A luz criadora divina introduziu-se nela em uma linha reta e dispôs-se tanto em círculos concêntricos como em uma estrutura unilinear chamada de “o Homem Primordial que precedeu todos os outros primordiais”. Por esse motivo, a forma de um círculo e de um homem são as duas direções nas quais todas as coisas criadas se desenvolveram.

Outro conceito surgido na cabala luriânica é o da “quebra dos vasos”. Os vasos designados para as três sefirót superiores puderam conter a luz que irradiava para elas, mas a luz atingiu as próximas seis sefirót subitamente, e foi forte demais para ser contida nos vasos individuais. Um após o outro eles se quebraram e os pedaços se espalharam e caíram. O vaso da última sefirá, Realeza, também se quebrou, mas não tanto. Um pouco da luz que estivera contida nos vasos voltou à sua fonte, mas o resto foi arremessado para baixo, junto com os próprios vasos, e desses pedaços quebrados as kelippot, as forças das trevas, tiveram força. Eles também são a origem de toda a matéria. A pressão irresistível da luz sobre os vasos também fez todos os mundos descerem do lugar que havia sido destinado a eles, por isso todo o sistema do mundo está em desacordo com a ordem e posição originalmente pretendidas.

Lúria ensinou que os efeitos lamentáveis da quebra dos vasos podem ser superados pelo processo de tikkun (“restauração”). A força primordial do tikkun é a luz irradiada pela testa do Homem Primordial para reorganizar a confusão que resultou na quebra dos vazos.[1]

 

Uma descrição mais organizada e completa só apareceu na segunda metade do século XX, geralmente divulgada por autores da Golden Dawn e Ordo Templi Orientis.

Kenneth Grant conceituou as kelippot como “um mundo ou plano de entidades sem alma que, como tais, não estão verdadeiramente vivas, mas apenas protelando-se em cascões de pessoas que já foram conscientes”. Ou seja, são o que a teosofia chamaria de duplo etéreo.  “Eles são autômatos tais como aqueles que assombram cemitérios ou sessões espíritas”. Entre elas também “estão os mais perigosos remanescentes de elementais que já foram um dia altamente organizados que se arrastam numa existência sombria, vampirizando os vivos”.[2]

Segue abaixo a tabela vigente na da Golden Dawn compilada por Israel Regardie. [3]

 

Sefirót

Kelippot

1.

Kether

Thaumiel – As duas forças contrárias.

2.

Chokmah

Ghogiel – Os obstrutores.

3.

Binah

Satariel – Os que ocultam.

4.

Chesed

Agshekelon – Os destruidores.

5.

Geburah

Golohab – Os incendiários.

6.

Tiphareth

Tagiriron – Os litigiosos.

7.

Netzach

Charab Tzerek – Os corvos da morte.

8.

Hod

Samael – O mentiroso ou o veneno de Deus.

9.

Yesod

Gamaliel – Os obscenos.

10.

Malkuth

Lilith – A rainha da noite e dos demônios.

 

Frater Nigris (Tyagi Nagasiva) disponibilizou na rede mundial de computadores o primeiro capítulo de uma obra inacabada sobre “as atribuições das Qlippoth (QLYPWTh: escudos, cascas ou demônios) para cada sephiroth (SPYRWTh: números, esferas ou emanações) e shevilim (ShBYLYM: caminhos) da Árvore da Vida”. [4] Seu Liber Qlipoth contém uma lista aprimorada dos “Escudos das Esferas”, com o nome do demônio-escudo contrário a cada esfera da árvore da cabala, seu valor numérico obtido via Gematria, entre outras providências:

 

Árvore da Cabala

Qlipoth ou Escudos das Esferas

Esfera

Escudos

Transliterações e verssões

Kether

ThAWMYAL

1

Thaumiel (também Kerethiel (Z)

Chokmah

OWGYAL

2

Ogiel(G); Ghagiel (C); Chaigidel (M); Ghogiel (R); Chaigidiel (W); Zogiel (Z)

Binah

SAThARYAL

3

Satariel; Satorial (Z)

Chesed

GOShKLH

 

4

Gasheklah (G); Gha'ahsheblah (C); Gamchicoth (M); Agshekoloh (R); Gog Sheklah (W); Gagh Shekelah (Z)

Geburah

GWLChB

 

5

Golachab (G, C); Galab (M); Golohab (R); Golab (W); Golahab (Z)

Tiphareth

ThGRYRWN,

ZOMYAL (Z)

6

Tageriron (G); Thagiriron (C); Tagaririm (M); Tagiriron (R); Togarini (W); Zomiel (Z)

 

Netzach

ORB ZRQ,

QTzPYAL (Z)

7

Oreb Zaraq (G); A'arab Zaraq (C); Harab-Serapel (M); Garab Tzerek (R); Harab Serap (W); Ghoreb Zereq, Qetzephiel (Z)

Hod

SMAL

8

Samael; Samiel (Z)

Yesod

GMLYAL, NChShYAL

OWBRYAL (Z)

9

Gamaliel; (também Nachashiel e Obriel (Z)

Malkuth

LYLYTh

10

Transliteração: Lilith

NOTA: Esta seleção contém citações inverificáveis supostamente extraídas da corrêspôndência inédita de MacGregor Mathers. As letras entre parênteses correspondem aos seguintes autores: (G) David Godwin, (C) Aleister Crowley, (M) MacGregor Mathers, (R) Israel Regardie, (W) A. E. Waite, (Z) Patrick Zalewski.

 

De 11/07/95 a 03/08/95 o angelólogo Emmanuel Fraga realizou um curso de férias sobre Anjos e Seres Divinos na Universidade Estácio de Sá (Campus Rebouças, Rio de Janeiro). Na parte dedicada à demonologia foi comentado que as kelippot residuais geraram um corpo nebuloso denominado Árvore da Sombra, oposto à Árvore da Cabala. A seguinte tabela foi escrita a giz no quadro-negro. (Adicionei termos hebraico junto às respectivas transcrições de transliterações).

 

Arvore da Cabala

Árvore da Sombra

Sefira

Hierarquia angélica

Sefira

Chefes

KETHER

Serafins (Hajoth-ha-Kodesch).

THAMIEL

Satan (השטן) e Moloch (מלך)

HOCHMA

Querubins (Ophanin).

CHAIGIDEL

Belzebu

BINAH

Tronos (Aralim).

SATANIEL

Lucífugo

HESED

Domínios (Haschmalin).

GAMCHICOT

Astaroth ou Ástarte (Vênus)

GEVURA

Virtudes (Serafim).

GALAB

Asmodeu ou Samael-Negro.

TEPHERET

Potestades (Malachim).

TOGARINI

Belfegor

NETZAH

Principados (Elohim).

HARAB-SERAPEL

Baal.

HOD

Arcanjos (Benei-ha-Elohim).

SAMAEL

Adramelech.

YESOD

Anjos. (Querubim).

GAMALIEL

Lilith (Deusa do aborto)

MALCUT

— (Ischim).

NANHEMA

Amalecitas, gibbōrîm (הגברים), repāîm (רפאם), nefilim (הנפלים), enacim (הענק), etc.

 

A adoção das nove ordens celestes dos tratados de Pseudo-Dionísio, o Areopagita (Gerarchia celeste, Nomi divini, etc.) reflete a influência cristã, bem como do uso do termo Lucífugo (do latim Lucifugus; o que foge da luz, escuso).

Note que a disponibilidade de apenas nove categorias angélicas para suprir onze sefiras fez o autor delegar MALCUT ao governo do homem e suprimir DAAT (conhecimento), justificando-se pela teoria de que esta seria uma sefira hipotética.[5]

Os nomes dos ocupantes de NAHEMA, apesar de definidos como “uma legião de demônios menores”, incluem os nascidos da união dos Filhos de Elohim com as filhas dos homens segundo o Gênese 6 e o livro apócrifo de Enoch.

No mais, a Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana descreve Lilith como “um dos sete demônios da cabala demoníaca: demônio do sexto dia, que os cabalistas opõem ao gênio de Vênus; ela é representada na figura de uma mulher desnuda cujo corpo termina em colo de serpente”.[6]

 

árvore da cabala com Lilith.jpg

Árvore da Sombra [7]

 

Notas:

 

[1] ROSEMBERG, Roy A. Guia Conciso do Judaísmo: História, Prática e Fé. Trd. Maria Clara De Biase W. Fernandes. Rio de Janeiro, IMAGO, 1992, p 122-123.

[2] GRANT, Kenneth. Renascer da Magia: As bases metafísicas da magia sexual. Trd. Cláudio Breslauer. São Paulo, Madras, 1999, p 240.

[3] REGARDIE, Israel. La Aurora Dorada: Um compendio de lãs enseñanzas, ritos y ceremonias de la Orden de la Aurora Dorada. Trad. Eduardo Madirolas. Madrid, Luis Carcamo, Libro 1. p 160.

[4] Nagasiva, Tyagi. Liber Qlipoth – Os Escudos da Árvore da Vida (Parte Um). San Jose, 1993. Tradução autorizada pelo autor, de Soror Agarath: http://www.luckymojo.com/avidyana/plebe/l.qliphothport.html

[5] Em outras versões Daat é o portal que faz a ligação entre as duas árvores e tem como chefe/guardiã Lilith.

[6] Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-Americana. Madrid/Barcelona, Espasa-Calpe, tomo XXX, verbete Lilith.

[7] CALAZANS, Flávio. Flávio Calazans e a Angeologia de São Dionisio Aeropagita Pseudo. 02/02/2016. <https://calazanista.blogspot.com/2016/02/flavio-calazans-e-angeologia-de-sao.html>.

 

Morcego e Homem Morcego na cultura Taino

Taino é um subgrupo indígena aruaque que habitava as grandes Antilhas (Cuba, Jamaica, Haiti, República Dominicana e Porto Rico), no Mar do Caribe. Embora ainda haja descendentes vivos hoje, especialmente na República Dominicana, o período clássico da cultura Taino foi do ano 1000 a 1500.

Ramón Pané, monge da Ordem de São Jerônimo, primeiro catequista a pisar nas Américas, honestamente alerta aos leitores de seu livro que sua coleta de dados ficou restrita à ilha Hispaniola, entre 1494 e 1498, pois ele não visitou outras ilhas do mar do Caribe. Mesmo assim os pesquisadores atuais racionalizam tais dados com certa presunção de validade para áreas muito mais amplas, e vice-versa, de modo que o observado na República Dominicana serve para Porto Rico e Cuba, assim como dados coletados por outros exploradores em Porto Rico e/ou Cuba servem para o Haiti e República Dominicana.

Tais raciocínios constituem a coluna sobre a qual se tem vertebrado tudo relacionado à cultura Taino, calcado o todo por referências etnográficas de povos que viveram na periferia continental e insular da área habitada pelo grupo humano estudado.

Segundo Ramón Pané, no que diz respeito à crença nas atividades dos mortos (opia) o formador de opinião era o xamã (bohuti) que levava jovens e adultos a crerem na possibilidade de falar com os mortos por intermédio de “ídolos” ou parafernália ritual denominada cemi [1], utilizada tanto para fins culturais quanto para tratar doenças.[2]

Estando viva a pessoa, o espírito era chamado goeíza e, depois de morta, chamavam opía. A despeito dos achados arqueológicos de figuras esqueléticas que se enquadrariam na categoria dos cemi, conforme a perícia, pelo menos nos exemplos narrados a Ramón Pané o opía não aparenta nenhuma qualidade aquém ou além do humano, exceto pela ausência de umbigo. Contudo, tem poderes sobrenaturais.

Se um vivo inconveniente tentasse abraçar uma bela mulher opía ou agredir um homem opía, restaria contrariado vendo a figura humana sumir no ar. Era comum o opía assumir o aspecto dum parente da pessoa a quem aparecia.[3] O opía poderia aparecer diante dum vivo quando alguém vai sozinho, mas não quando muitos andavam juntos.[4] Por isso, quando o opía saia à noite para divertir-se na companhia dos vivos, nas festas folclóricas, era figurativamente representado. Daí, de dia, ficava recluso “em pedra”.[5]

Em 1492 a crença geral em Hispaniola informava que, na parte da ilha denominada Soraya, haveria um lugar chamado Coaibai, casa e habitação dos defuntos, para onde vão os mortos. O primeiro a chegar lá foi Machetaurie-Guanana, que tomou posse da área inexplorada e se tornou chefe da sociedade opía em Coaibai. [6]

Não há nenhuma menção à palavra murciélago no texto de Ramón Pané. No entanto, ele ouviu e registrou que um dos poderes dos opía é se converter em fruta, à noite, quando festejam. Então eles comem determinada fruta do tamanho de um pêssego.[7] Esta fruta é chamada Guabaza na transliteração de Alfonso de Ulloa [8], algo que revisores atuais identificam como goiaba, fruta da goiabeira (Psidium guajava L.).[9]

A narrativa soa muito estranha, parecendo um destes relatos onde o narrador substitui uma coisa por outra para não atrair o azar ou a doença pronunciando o nome verdadeiro daquilo a ser evitado. Pois bem, frutos não comem frutos. O que fica de ponta cabeça, pendurado como um fruto na árvore, são os morcegos; especialmente aqueles da espécie Artibeus jamaicensis Lin., principais responsáveis pela difusão das sementes de goiaba nas ilhas do Mar do Caribe. Sendo assim os experts Manuel Antonio García Arévalo[10] e Antonio M. Stevens-Arroyo[11] assumiram que indígenas do passado podem haver “creído la forma Opia asumido durante el día era la de dormir murciélagos”[12].

A propósito, na República Dominicana, onde ainda há descendentes dos antigos Taino, o vocabulário específico contém a palavra “guano” (também existente em português), que diz respeito ao esterco de morcegos,[13] mas não há uma palavra nova ou antiga para a ordem Chiroptera. A menos que desejemos crer num texto anônimo da Taino Gallery, o qual sustenta que, no folclore local, a vida humana teve início numa caverna chamada Cacibajagua, “mesmo nome dado ao morcego”.[14]

Um defeito na teoria da equivalência entre morcego e opía é que, embora quirópteros constituam motivo recorrente na plástica aruaca, poder-se-ia localizar figurações de espécies que não comem frutas. No continente americano existem morcegos ictiófagos, hematófagos, polinívoros, carnívoros e frutívoros. Ao identificar espécies a partir de sua representação na cerâmica e outros materiais, o especialista Morbán Laucer não duvidou em assinalar espécies como o Tadarida laticaudata, o Natalus lepidus ou o Tadarida brasiliensis, todos insetívoros.

 

Parafernália ritualística ou uso artístico da figuração do quiróptero?

 

A frequência de representações de quirópteros na arte Taino sugere a possível associação entre o quiróptero e a confecção do dito cemi ou zemi, categoria de objeto de uso ritual relacionado ao diálogo com os mortos na respectiva cultura.[15]

Manuel Antonio García Arévalo assinalou que algumas figuras de morcegos contam com um buraco central, interpretado como símbolo da falta de umbigo nos opía. Conforme observado por ele, em muitos exemplos da arte Taino, o crânio, tal como imagens que aludem à morte de maneira espetacular, se fundem às imagens dos morcegos (Chiropterae) e corujas (Strigidae).[16]

Achei pertinente traduzir uma narrativa Taino na forma como se atualizou, compilada pelo Bedfordshire Bat Group.

 

No início dos tempos não havia no mundo criatura mais feia do que o morcego. Ele subiu ao céu para procurar por deus. Ele não disse “dê-me penas coloridas, pois cansei de ser horroroso”. Ele falou: “Estou morrendo de frio. Por favor, dê-me penas”. Mesmo assim deus não lhe deu uma única pena. Ficou decidido que cada pássaro dar-lhe-ia uma de suas penas. Então o morcego conseguiu a pena branca do pombo, a verde do papagaio, a iridescente do beija-flor, a rosa do flamingo, a vermelha do Paroaria coronata, a azul das costas do martim-pescador, a marrom da águia e a amarela do peito do tucano.

O morcego, com cores e suavidade luxuriante, voou entre a terra e as nuvens. Assim que as nuvens se dissiparam os pássaros ficaram admirados. De acordo com o povo Zapoteca, o arco-íris foi criado do reflexo de seu voo. A vaidade estufou-lhe o peito. Ele passou a ostentar um olhar soberbo e a fazer comentários injuriosos.

Os pássaros se reuniram, voaram até deus e se queixaram: “O morcego faz troça de nós. E tem mais. Sentimos frio nos locais donde nossas penas foram removidas”. No dia seguinte, quando o morcego saiu em voo livre, ele subitamente ficou pelado. Uma chuva de penas caiu por terra. O morcego ainda está procurando por elas. Cego e feio, inimigo da luz, ele vive escondido em cavernas. Ao cair da noite sai em busca das penas perdidas e voa muito rápido, nunca parando, para evitar a vergonha de ser visto.[17]

 

Repare que os animais expõem suas queixas a um deus único, inominado, e que a ave mencionada como doadora da primeira pena é um pombo (Columba livia) de cor branca. Antes da dominação europeia, os pombos eram uma espécie restrita ao oeste e sul da Europa, Norte da África e Sul da Ásia. Pombos geralmente são cinzentos, de pescoço multicolorido. O animal albino, de ocorrência mais rara, é o símbolo do espírito santo em documentos católicos. Só isso basta para demonstrar a contaminação do folclore Taino por sincretismo.

Para verificar como era, de fato, a cultura antes do tempero missionário é preciso apelar para a arqueologia.

À noite os primeiros Taino habitavam cavernas onde também se encontravam quirópteros, que eram os mamíferos mais comuns da fauna das Antilhas.[18] Contudo eles não desenhavam cenas de mímica do morcego nas caverna.

O item nº 99524 do catálogo online da galeria David Bernstein Pre-Columbian Art é uma bandeja bojuda de cerâmica adornada com alças em formato de morcego. Foi coletada na República Dominicana e provém da cultura Taino. (Isto está à venda por sete mil e quinhentos dólares americanos).

 

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Este tipo particular de vasilha é encontrado neste país, havendo uma peça similar na coleção da Fundacion García Arévalo, cuja fotografia foi publicada no livro de José Juan, García Arévalo e Manuel Antonio Arrom, El murcielago y la lechuza en la cultura taina, impresso pelas Ediciones Fundación García Arévalo, em 1988, pág. 8.

A descrição explica que os Taino e seus antecessores realizaram grandes festivais nas praças de suas comunidades, nos quais cantavam, dançavam e jogavam bola, podendo perdurar dias seguidos em tais atividades. Xamãs e chefes entravam em transe para se comunicar com os espíritos e ancestrais durante os festivais. “O morcego é um motivo comum na arte taino e simboliza espíritos e ancestrais no outro mundo”.[19]

A ficha catalográfica online do Taíno Museum descreve um objeto especial, entalhado em osso e curvado para ajudar o xamã a estimular o vômito. Embora eu tenha lido relatos de indígenas atuais, de várias partes da américa latina, que vomitam para limpar o organismo na manhã seguinte ao dia em que supostamente fizeram uma refeição indigesta (especialmente quando comem carne), o perito responsável pela descrição  do referido bastão de ponta dupla sugere que vomitar era um meio eficaz  de aumentar o efeito da inalação de drogas psicoativas durante determinado ritual.

 

Se alimentos impróprios foram ingeridos, o xamã poderia não estar apto a viajar fora do corpo e comunicar-se com os espíritos.  Inalar pó de Cohoba produziria visões que os Taino interpretavam como aparições de espíritos e mensagens dos mesmos. No centro do bastão para vômito é representado um morcego.[20]

 

O acervo da Fundacion García Arévalo contém outro bastão para vômito de ponta dupla proveniente de Santo Domingo (Higuey). Esta espátula vômica de 23 cm de comprimento foi elaborada em osso de peixe-boi. A figura central não é um quiróptero, mas um homem mascarado cujos braços estão dobrados mimetizando asas.

 

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Espátula vômica. (Peça do acervo do Taíno Museum.)

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Espátula vômica. (Peça do acervo da Fundacion García Arévalo).[21]

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Espátula vômica. (Fotografia de um link quebrado do Smithsonian).

 

Num blog de cryptozoologia encontrei uma fotografia em péssima resolução dum terceiro bastão para vômito, proveniente da cultura Taino de Cuba, onde este mesmo personagem mascarado aparece sentado, com braços descansados.[22]

 

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O item nº 98149 do catálogo online da galeria David Bernstein Pre-Columbian Art é um amuleto Taino esculpido em concha, proveniente da República Dominicana, exibindo uma figura humana mascarada, com máscara de morcego muito semelhante. (Isto está a venda por dois mil duzentos e cinquenta dólares americanos).[23]

 

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Quanto ao restante do material localizado pelo Google, eu não sei como peritos e/ou anunciantes podem dizer com certeza “isto é um morcego”. O Lote 49 da casa de leilão Bids Quare, à venda por quatrocentos dólares americanos, é uma escultura de dimensões 10 x 8 cm, entalhada num osso da parte traseira do peixe-boi.[24]

 

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A casa de leilões Catawiki anunciou no Ebay um amuleto, talismã ou adorno pré-colombiano, da cultura Taíno, esculpido em terracota, com dimensões de 48 x 50 x 37 mm, pesando 43 gramas, muito rústico. Conforme o anúncio, o item representaria um “morcego com chapéu”. Tal item viria acompanhado do certificado de autenticidade expedido pelo curador do Museum voor Volkenkunde (Universidade de Leiden, nos Países Baixos). Mesmo assim foi leiloado por apenas $ 91 USD (o maior de 13 lances).[25]

 

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O item nº 128658 do catálogo virtual da galeria Ancient Point é um fragmento de arte em terracota, com valor estimado em quarenta dólares americanos, proveniente de local incerto e não sabido na ilha Hispaniola, datado entre os anos 800 e 1500. Segundo a descrição, o item com 6,1cm de altura representa uma cabeça de morcego.[26]

 

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Esta cabeça de morcego dita “pré-colombiana” apareceu no resultado da busca por imagens do Google conjugando as palavras Taíno e murciélago. O link do anúncio no Ebay estava desativado:

 

Pre-colombian-stone-bat-head_Ebay_tratada.jpg

    

Notas e referências:

 

[1] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios, la cual, como sujeto que sabe su lengua, recogió con diligencia, de orden del Almirante. Em: COLON, Don Fernando.  Historia del Almirante Don Cristóbal Colón en la cual se da particular y verdadera relación de su vida y de sus hechos, y del descubrimiento de las Indias Occidentales, llamadas Nouevo-Mundo. Primer Volumen. Madrid, Imprenta Tomas Minuesa, 1892, p 281.

[2] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios… Em: COLON, Don Fernando. Obra citada, p 295.

[3] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios… Em: COLON, Don Fernando. Obra citada, p 224-295.

[4] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios, la cual, como sujeto que sabe su lengua, recogió con diligencia, de orden del Almirante. Em: COLON, Don Fernando.  Historia del Almirante Don Cristóbal Colón en la cual se da particular y verdadera relación de su vida y de sus hechos, y del descubrimiento de las Indias Occidentales, llamadas Nouevo-Mundo. Primer Volumen. Madrid, Imprenta Tomas Minuesa, 1892, p 282.

[5] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios… Em: COLON, Don Fernando. Obra citada, p 294.

[6] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios… Em: COLON, Don Fernando. Obra citada, p 293.

[7] PANE, Fray Román. De la antigüedad de los indios… Em: COLON, Don Fernando. Obra citada, p 294-295.

[8] O manuscrito original de Ramón Pané foi perdido para a História, mas uma cópia integral foi incluída no capítulo LXI da Historia del Almirante Don Cristóbal Colón por su hijo Don Fernando. Alfonso de Ulloa consultou a cópia da cópia em espanhol e traduziu-a para italiano, sendo tal versão impressa em 1571.

[9] ARROM, José Juan. Relación acerca de las antigüedades de las Indias de fray Ramón Pané. Méjico, José Juan Arrom, 1974, p 32.

[10] Manuel Antonio García Arévalo (Santo Domingo, 1948), natural da República Dominicana, é um empresário, historiador, escritor e último Ministro de Industria e Comercio em seu país, durante o governo de Leonel Fernández (2008-2012).​ Atualmente é membro da Junta Monetaria del Banco Central de la República Dominicana.

[11] Antonio M. Stevens-Arroyo é professor de estudos sobre Porto Rico e América Latina, diretor do Centro para Religião na Sociedade e Cultura no Brooklyn College, cidade universitária de New York.

[12] STEVENS-ARROYO, Antonio M. Cueva de la Jagua: El mundo mitológico de los taínos. Albuquerque, University of New Mexico Press, 1988, p 232.

[13] BIDO, Rafael García. Voces de bohío: Vocabulario de la cultura taína. Santo Domingo, Archivo General de la Nación, 2010, p 69.

[14] TAINO CAVE PAINTINGS. Em: Teino Gallery. Hyperlink: <http://tainogallery.com/symbology/paintings/>. Acesado em 30/07/2018.

[15] STEVENS-ARROYO, Antonio M. Cueva de la Jagua: El mundo mitológico de los taínos. Albuquerque, University of New Mexico Press, 1988, p 232.

[16] ARÉVALO, Manuel A. García. El murciélago y la lechuza: imágenes nocturnas de la Muerte. Em: Taino: ARTE PRECOLOMBINO Y CULTURA EN EL CARIBE. Nueva York, La Prensa Monacelli, 1997, 114.

[17] BAT FOLKTALES. Em: Bedfordshire Bat Group. Última atualização em julho de 2012. Hyperlink: <http://www.bedsbatgroup.org.uk/wordpress/?page_id=574#taino>.

[18] GOYCO, Osvaldo García. Influencias mayas y aztecas en los taínos de las Antillas Mayores: del juego de la pelota al arte y la mitología. San Juan, Ediciones Xibalbay, 1984, p 57.

[19] DOMINICAN REPUBLIC, TAINO LARGE CERAMIC VESSEL WITH WINGED BATS. Hyperlink: <https://www.precolumbianart4sale.com/search/?main_keywords=Bat&search-submit=SEARCH&#!60>. Acessado em 01/08/2018.

[20] Double vomiting stick made of bone. Hyperlink: <http://tainomuseum.org/portfolio-view/double-vomiting-stick-made-bone/>. Acessado em 01/08/2018.

[21] OLIVA, Carlos Alberto Hernández & ÁLVAREZ, Lisette Roura. Reflexiones em torno al tema de la muerte en la mitología y la plástica Aruaca. Em: Boletín del Gabinete de Arqueología No. 1, año 1. Habana, Editorial Boloña, 2001, p 43. <http://cubaarqueologica.org/document/boletin1-1-05.pdf>.

[22] A Couple of Zemis from Cuba. Hyperlink:  <http://frontiersofzoology.blogspot.com/2014/03/>. Publicado em 10/03/2014.

[23] DOMINICAN REPUBLIC, TAINO CARVED SHELL AMULET OF A FIGURE WITH A BAT FACE. Hyperlink: <https://www.precolumbianart4sale.com/search/?main_keywords=Bat&search-submit=SEARCH&#!256>. Acessado em 01/08/2018.

[24] TAINO RARE LARGE BAT-LIKE FORM (1000-1500 CE). Em: Bids Quare. Hyperlink: <https://www.bidsquare.com/online-auctions/material-culture/taino-rare-large-bat-like-form-1000-1500-ce-631262> Acessado em 30/07/2018.

[25] Bat-with-Hat. Lot reference 11143139. Hyperlink: <https://auction.catawiki.com/kavels/11143139-extreme-rare-bat-with-hat-pre-columbian-amulet-or-talisman-adorno-from-the-taino-people-48-x-50-x-37-mm-43-grams>. Acessado em 30/07/2018.

[26] TERRACOTTA TAINO BAT EFFIGY, HISPANIOLA, 800 - 1500 AD. Anunciado anonimamente sob o codinome war-man,  em 02/06/2015, em Ancient Point. Hyperlink: <http://ancientpoint.com/inf/128658-terracotta_taino_bat_effigy__hispaniola__800___1500_ad.html>.