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Sussurros Sinistros

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Como os quadrinhos foram responsabilizados pelo pânico dos vampiros na década de 1950 na Escócia

Achei importante traduzir essa matéria de autoria de Maren Williams, produzida para a organização não governamental CBLDF.

 

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Como os quadrinhos foram responsabilizados pelo pânico dos vampiros na década de 1950 na Escócia

 

30/10/2018

Maren Williams

 

O ano era 1954. O local: Glasgow, uma necrópole ao sul da Escócia, enorme cemitério abrigando mais de 250.000 defuntos. Durante um período de três noites, em setembro, centenas de crianças menores de 14 anos supostamente se reuniram ali com armas improvisadas, prontas para enfrentar um vampiro que elas haviam conjurado do âmago de sua imaginação coletiva. Isso seria bizarro o suficiente, mas então os adultos atribuíram o comportamento infantil à influência dos quadrinhos de horror americanos.

A história do Vampiro de Gorbals foi recontada em um documentário da BBC Radio 4, em 2010, no qual entrevistaram alguns dos antigos vigilantes de meia-idade. A boataria nos pátios das escolas de Glasgow assegurava que que um vampiro de sete pés de altura (2,1336 m), com dentes de ferro e um gosto por crianças, estava à espreita na área. Eles acreditavam que ele já havia comido dois meninos, a despeito de não haver ninguém desaparecido, e certamente viria apanhar mais a menos que fosse impedido. Como os adultos se mostraram inúteis nesse cenário, as crianças decidiram resolver o problema com suas próprias mãos.

Embora a turba haja sido dispersada pela polícia e pelo diretor duma escola local na primeira noite, a aglomeração se reuniu no cemitério por mais duas noites depois disso; o que foi tempo suficiente para a história virar notícia em jornais locais e nacionais, focados na busca duma explicação para a crença inabalável das crianças no vampiro.

Militantes da causa anti-quadrinhos aproveitaram a oportunidade, alegando que a ideia havia sido plantada por gibis de horror “aterrorizadores e corruptos” como Tales From the Crypt e The Vault of Horror.

 

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Não importava que quadrinhos norte-americanos fossem difíceis de obter na Escócia, nem que a produção de horror nacional tendia a ser bastante suave, a exemplo de The Beano e The Dandy. Igualmente não importava que o detalhe específico dos dentes de ferro estivesse associado não a um monstro dos quadrinhos, mas à Bíblia, bem como a “um poema ensinado nas escolas locais”.

O caso do Vampiro de Gorbals oferecia evidência conveniente para aqueles que queriam que quadrinhos fossem regulamentados pelo governo. Ao contrário dos EUA, onde a indústria realizava a censura prévia com base no Comics Code, os censores do Reino Unido tiveram sucesso em 1955, quando o Parlamento aprovou a Lei de Crianças e Jovens (Publicações Nocivas). A lei, tecnicamente ainda em vigor, ainda que amplamente ignorada, proíbe a venda de gibis e revistas retratando “incidentes de natureza repulsiva ou horrível” a menores.

Essa lei pode parecer um vestígio dos anos 1950, mas algo como um eco disto eclodiu em data relativamente recente, em 2007, quando a cidade de Pequim rotulou Death Note de “publicação ilegal aterrorizante” e proibiu sua venda nas bancas depois que pais e professores reclamaram que as crianças estavam “gastando muito tempo lendo as histórias de horror e não tendo tempo suficiente para estudar”. Em ambos os casos, talvez os adultos pudessem se beneficiar do mesmo exercício de imaginação que seus filhos obtiveram com a leitura de lazer!

  

Fonte:

 

Maren WILLIAMS. How Comics Were Blamed for the Vampire Panic in 1950s Scotland. Copyright © 30/10/2018 Comic Book Legal Defense Fund. Hyperlink: <http://cbldf.org/2018/10/how-comics-were-blamed-for-the-vampire-panic-in-1950s-scotland/?fbclid=IwAR1xgNJjMo808EN_k0Gv0lQ-EIOmeZR8h2fI6leTr9pICpz8Iryt3rZvDj0>