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Sussurros Sinistros

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Iconografia de incensários tibetanos: Deuses ou Vampiros?

Em 1995 eu era adolescente e não havia nenhuma operadora de internet na localidade onde moro. Neste ano foram lançados os primeiros celulares que só serviam para fazer chamadas telefônicas e eram privilégio de elite. A TV a cabo, por assinatura, só viria a existir no Brasil três anos depois. E também virei o milênio sem isso.

Para pesquisar sobre vampiros eu dependia primeiramente da sabedoria das pessoas ao meu redor: Pedia opiniões de toda a gente e anotava tudo, simulando uma pesquisa de campo, ainda que sem uma metodologia rigorosa. Também dependia da aleatoriedade da programação da TV aberta e do acervo renovável de locadoras de filmes em fita VHS. Como as bibliotecas públicas ficavam longe e tinham pouco acervo temático, passei a frequentar bancas de jornaleiro, livrarias-sebo e gibiterias onde se encontrava o material impresso mais barato.

Pesquisando desde 1992 eu já havia adquirido uma reportagem de Silvia Lakatos publicada na revista Destino nº 47. A edição de abril 1995, nº 93 do mesmo periódico, trouxe uma nova reportagem da mesma jornalista. Foi lá que vi pela primeira vez uma suposta "máscara tibetana".

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Não sei por que esse artefato religioso me pareceu muitíssimo antigo e importante. Fiquei hipnoticamente encantada por ele, embora suspeitasse que o rosto apenas parecesse com o de um vampiro cinematográfico ocidental. Silvia Lakatos não forneceu referências que ajudassem a localizar informações sobre a peça. A redação atribui os direitos autorais das imagens à Editora Globo. Contudo, o mesmo quadro de Boleslas Biegas e a mesma fotografia do artefato aparecem no livro de Daniel Farson, Hombres lobo vampiros y aparecidos, editado em Barcelona pela Editorial Noguer, em 1976.

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Descobri que isto não é uma máscara, mas uma espécie de incensário. Porém repare que ele não tem buraquinho para enfiar palito de incenso, mas sim uma boca aberta para colocar a oferenda que queima no interior. Daniel Farson afirma que haviam cultos oferendando sangue depositado na boca de deidades. Aliás, em Goa ainda há templos de culto ao Vetal ou Baital onde estátuas de mortos recebem oferendas de carne animal.

Daniel Farson é seguramente a fonte bibliográfica utilizada na reportagem de Silvia Lakatos. Porém nem ele esclarece se a máscara é peça de museu ou de coleção particular, não da datação, nem especifica o nome do artesão ou em que parte do Tibete foi localizada. O mesmíssimo incensário aparece na capa do livro do historiador Lazare de Gérin-Ricard (1907-1978) cujo conteúdo sequer menciona tal item.

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Com internet e Google Lens tudo fica mais fácil. Numa pesquisa mínima hoje em dia averiguamos que esse padrão iconográfico não é demasiadamente antigo, não é raro e não é muito caro. Em fins do século XIX até meados do século XX você chegava no Tibet e praticamente levava um incensário temático como souvenir. Leiloeiros geralmente anunciam como representações do Rei Bhurkuṃkūṭa. As tochas flamejantes que adornam a cabeça passam a impressão de que o rei atua como avatar manifestando o poder do deva (देव) Agni (अग्नि). Ou seja, não consegui identifica-lo como um vetāla (वेताल), um bhūta (भूत) comum, nem com outra figura folclórica minimamente equiparável ao nosso vampiro. Esse cara era muito mais foda que isso e merece ser tratado com respeito.

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