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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

Manifestações de Vidas Metafóricas

Por que será que mesmo os mais sérios entre nós gostam de personagens fictícios mesmo sabendo que eles não existem? Na vida real toda pessoa possui qualidades e defeitos, vícios e virtudes. Na ficção todo mocinho tem inúmeras qualidades, mas são poucos os que mostram ter algum defeito. Os vilões e anti-heróis nos fascinam por dar representatividade à sombra da psicologia junguiana e à voz reprimida das classes marginalizadas (por falta ou excesso de recursos). Quando um herói é certinho demais, bonzinho demais, enjoadinho demais, os antagonistas podem parecer mais humanos do que os próprios mocinhos.

Se, numa cena de crime, o agente da lei não matar um homicida mesmo sabendo que o criminoso fugirá da cadeia ou do hospício para aprontar o arco da velha, a permissividade tácita da reincidência nos passará a impressão de que o suposto responsável pela proteção da população nunca quis resolver o problema! Sob o ponto de vista da vítima indefesa talvez pareça mais vantajoso chamar um anti-herói, como o Capitão Nascimento, do que um herói tradicional, como o Super Homem, ou qualquer assistente social que nada fará além de ensinar que a culpa do crime é da sociedade e, portanto, extensivamente, da própria vítima que – se tivesse consciência social – deveria exercer a caridade atuando de forma tão sublimemente passiva e altruísta quanto a idolatrada Simone de Souza (médica brasileira que prestou socorro gratuito ao homem que a ameaçou de latrocínio, quando flagrado e baleado pela polícia em 02/07/2015).

Vilões carismáticos são aqueles que possuem personalidades um pouco mais densas; que atravessam o aspecto preto e branco da ética maniqueísta. A existência do anti-herói e do vilão carismático é comumente justificada por um passado ruim. A beleza e/ou comportamento sarcástico tem a função de ajudar o público alvo da produção artística a simpatizar com vilões fictícios em matéria de jogos e entretenimento. A megera é bonita, sensual e perigosa. Por que toda mocinha tem que ter cara de bobinha? Por que não usa cores fortes? Não passa batom vermelho? Isto deriva da visão machista onde a mulher bondosa serve para realizar trabalhos domésticos, não para esquentar uma cama.

Ainda que vestir tecido carmesim não seja crime nem pecado, Jessica Rabbit teve de justificar sua bela aparência contra olhares preconceituosos dizendo: “I’m not bad, I’m just drawn that way”. Se fosse uma antagonista de verdade ela não se envergonharia de algo trivial. É como falam: “O mocinho vence no final, mas é o vilão quem se diverte”. Todo vilão é livre para pensar – seja de forma patética ou transcendente, – violando normas que eventualmente caem em desuso. Um exemplo: Kunzite e Zoizite viviam em união estável antes da aprovação de leis que permitem o casamento civil entre homossexuais.

Por estar mais próximo da realidade, a figura do antagonista sugere que aceitemos um pouco do que há de vilão em nós mesmos. Acabamos vendo que um ou outro pensamento ruim não é tão terrível assim. Conseqüentemente abrimos a mente para escutar, questionar e refletir sobre as razões do outro.

Num mundo onde a guerra dos EUA contra o Estado Islâmico já virou clichê, a terceira temporada de JoJo's Bizarre Adventure (2014-2015) definiu carisma como “aquilo que faz o soldado obedecer ao ditador, que faz o crente seguir o líder de um culto”.[1] Dio Brando é um vilão tradicional, malicioso e trapaceiro, vampiro de nascença que nem precisava ter feito coisas supérfluas, desnecessárias, como virar um morto vivo de verdade... Provavelmente Dio é brasileiro. Morreu vestido de verde e amarelo lutando por uma causa perdida.

Amo Dio Brando! Quero todas as revistas, desenhos e bonecos dele. Não quero nunca semelhante criatura em minha vida real. Ele é estelionatário, machista, bêbado, violento e nojento. Dio não vale nada. Amo Dio Brando!

Destaco o trecho onde o personagem N’Dour responde a Jotaro por que os soldados de Dio se tornam tão leais a ponto de morrer por seu mestre:

 

Aprendi desde pequeno a não sentir medo de nada. Eu vencia qualquer inimigo. Cometia crimes e homicídios sem me preocupar. Nem a polícia me metia medo. Aposto como um cachorro sabe como eu me sinto. Mas ele foi a primeira pessoa a despertar em mim a vontade de viver. Ele era tão poderoso, profundo, estupendo e maravilhoso... Foi a primeira pessoa do mundo a reconhecer meu valor. Esperei minha vida inteira para conhecer alguém como ele. Não sinto medo da morte, porém eu faria de tudo para não deixá-lo decepcionado comigo. O mal precisa de um messias maligno.[2]

 

Em diálogos filosóficos pontilhados aqui e ali os vilões explicam que a emoção chamada medo é uma reação sentimental encontrada em todos os animais. Por que o medo aflora? Existe o medo causado pelo instinto e o medo nascido de pensamentos lógicos (quando se está diante do desconhecido ou convencido de que não há como enfrentar algo mais forte do que si mesmo). Ao enfrentar o medo você pode tentar resistir, lutar, fugir, aceitar ou fazer outras escolhas. Mas ao defrontar o líder carismático estereotípico uma nova reação surge: Alegria! “O que as pessoas fazem quando sentem alegria no medo?”[3] Elas se entregam de corpo e alma. Deixam que esse tipo de vampiro as suguem com prazer. Então se sentem verdadeiramente vivas.

 

— Quero fazer uma pergunta. O que significa viver?

— Viver é realizar um desejo. Basicamente, viver é isso. As pessoas querem dinheiro, alimentos, amor e sexo.

— Mas quando tentam conseguir o que desejam sempre tem uma batalha, não é mesmo?

— Sim.

— Se perderem a batalha e não conseguirem o que querem, ficam frustrados e com sentimento de fracasso. Ficam magoados e com medo de outra batalha. Acho que viver é conquistar o medo. Acho que quem ficará no topo do mundo é aquele que não sente medo.[4]

 

Raramente a figura do vilão é dispensável, seja em peças de teatro ou simples jogos de representação. Por que criamos vilões e por que gostamos deles? Por que ter personagens que são absolutamente contrários ao que julgamos belo, bom e justo? Não se chegou a uma conclusão definitiva. Os vilões são necessários em filmes e livros de aventura, romances gráficos, desenhos animados, videogames, etc., porque sem eles os heróis não teriam nada para fazer. Até muito antigamente quando se brincava de “polícia e ladrão”, alguém tinha que interpretar o ladrão. Do contrário o pequeno homem da lei viveria entediado, parado, quito, esperando seus músculos atrofiarem de tanto fazer papel de estátua, como os guardas da realeza britânica.

Quando o Super Homem é capaz de cruzar espaços velozmente e pode superar qualquer dificuldade envolvendo força bruta ou armas de fogo, a trama não envolverá um antagonista monstruosamente forte. Seu adversário deve se destacar pela aptidão para formular problemas de ordem abstrata que o herói não conseguirá solucionar sem se igualar ao outro em perspicácia.

Desde os últimos anos do século passado a indústria do entretenimento vem se esforçando para suprir a demanda por vilões e anti-heróis inteligentes. Isso tem feito o próprio conceito de vilania evoluir ao status de poder paralelo ao mesmo tempo em que o heroísmo vai se diluindo em pequenos defeitos – Constantine ou Wolverine fumado, Fiona escolhendo ser ogra, os Cavaleiros do Zodíaco sangrando, Usagi Tsukino entregando a virgindade para um ladrão de jóias, etc., – na intenção de equilibrar tramas que já não se parecem com a patética guerra eugênica e xenófoba do nobre de nascença (o sujeito de direito divinamente inspirado e vocacionado para a defesa do estado teocrata) contra o marginal insurrecto, bruxo possesso por um espírito de maldade absoluta que não encontra prazer exceto na contemplação da dor e sofrimento alheio.

É importante que a disputa pareça com um jogo desportivo, campanha eleitoral ou conflito de interesses onde nenhuma parte é eticamente melhor ou pior em caráter absoluto. Assim podemos escolher “torcer” para um herói, anti-herói ou vilão do mesmo jeito que, no futebol, nada nos impede de escolher um time de segunda, terceira ou quarta divisão como nosso favorito. Está tudo bem se você escolheu Vandemon ou Lucemon como parceiro do seu avatar no MMORPG de Digimon, mesmo sabendo que eles perderam para os mocinhos no desenho oficial da série. E daí se você votou no Lula ou no Fernando Collor de Melo? É melhor sofrer um desgosto do que viver frustrado por nunca ter tentado fazer aquilo que acreditava ser melhor para sua nação ou por não ter podido interpretar Drácula lutando contra Simon Belmont ao jogar Castlevania. 

 

Referências:

 

[1] Diálogo traduzido do episódio 3 de JoJo's Bizarre Adventure: Stardust Crusaders (ジョジョの奇妙な冒険 スターダストクルセイダース), lançado pela David Production em 2014, baseada no romance gráfico de Hirohiko Araki.

[2] Diálogo traduzido do episódio 26.

[3] Diálogo traduzido do episódio 4.

[4] Diálogo traduzido do episódio 7.