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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

Tem uma coisa pavorosa andando pelos canos?

Pergunta: Eu li que Lilith habita poços, esgotos e qualquer fonte de água. Essa informação procede?

 

Estórias de entes fabulosos ou fantasmas de pessoas que vivem dentro de poços, cisternas, esgotos, etc., persistem até hoje, inclusive na arte. Um exemplo é o videoclipe It is Safe to Sleep Alone da banda Sopor Aeternus & The Ensemble of Shadows. O Japão tem explorado e exportado esse tema, a exemplo do sucesso de bilheteria dos filmes O Chamado (The Ring, 2002) e Água negra (Dark Water; Buena Vista, 2005) baseados em coleções de estórias de Kôji Suzuki.

 

Menina morta saindo do poço.

Cena de O Chamado 3. 

 

Houve um tempo em que muitas comunidades judaicas proibiram que se bebesse água no equinócio e no solstício, pois se acreditava que neste período os sobrenaturais poluíam os líquidos expostos com gotas de veneno ou com os pingos do sangue menstrual de Lilith.[1] Havia até mesmo o comércio de amuletos para divorciar os vivos dos espíritos que insistiam em habitar os poços e cisternas. Por essa razão o tratado Gittin contém um debate sobre se o morto pode ou não mandar o médium enviar uma carta de divórcio para sua esposa viva:

 

Mishnah: לבור מושלך שהיה מי – If someone was thrown into a pit קולו את השומע כל ואמר – and he said that whoever hears his voice לאשתו גט יכתוב – should write a get for his wife, הרי ויתנו יכתבו אלו – [those who hear his voice] may write the get and give it to his wife.[2]

 

Nós sabemos que estas cartas de divórcio eram de mentirinha porque foram encontrados vários amuletos neste formato. O museu da Universidade da Pensilvânia possui um amuleto aramaico datado do séc VI cuja redação nos informa que Rabbi Joshua bar Peraḥia recebeu “uma carta de divórcio remetida para nós do céu” a fim de divorciar Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi do “macho Lili e fêmea Lilith”.[3] Barbara Black Koltuv compara esta fonte com “outros vasos babilônicos” que apresentam ordens de divórcio, expulsando Lilith.[4]

Uma lei sumeriana dizia que “se uma mulher odeia seu marido e diz para ele ‘Você não é mais meu marido’ ela deve ser lançada no rio”.[5] De acordo com um conto anedótico de inspiração judaica, a primeira mulher foi uma Lilith. Ela não quis que o homem fizesse sexo montado sobre o seu corpo e fugiu. Três anjos saíram em seu encalço e a localizaram nadando “nas poderosas águas onde os egípcios estavam destinados a afogar-se”. Quando ela se recusou a retornar eles pronunciaram a sentença: “Nós te afogaremos no mar”.[6]

 

Notas:

 

[1] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trad. Paulo Geiser. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p 77, 154 e 176.

[2] GOLDWURM, R' Hersh (ed.) Talmud Bavli: Tractate Gittin. Brooklin, Artscroll, 2004, 66ª.

[3] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Detroit, Wayne State University, 1990, plate 32, p 225-226.

[4] KULTUV, Barbara Black. O Livro de Lilith. Trd. Rubens Rusche. São Paulo, Cultrix, 1997, p 117.

[5] LARAIA, Roque de Barros. Jardim do Éden Revisitado. Em: Revista de Antropologia. Vol. 40, n º 1. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1997, p 162, nota 5.

[6] Alphabet of Ben Sira Question #5 23a-b. Em: STERN, David and MIRSKY, Mark Jay. Rabbinic Fantasies. Philadelphia, Jewish Publication Society, 1990, p 183-184.