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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

Traduzindo o grafismo corporal em morcegos na cerâmica Mimbres

A cultura desenvolvida à margem do rio Mimbres, no sudoeste do Novo México, foi uma ramificação da tradição Mogollon, representando um capítulo isolado da pré-história local. Diante da abundância de peças quebradas escavadas por expedições arqueológicas em cemitérios indígenas, Michael Coe, Dean Snow e Elizabeth Benson opinaram que, na cultura Mimbres, os ceramistas se especializaram na produção de oferendas funerárias, criando pratos com desenhos de personagens destinados a ser ritualmente “mortos” com buracos no fundo.[1]

Hoje em dia o maior especialista no assunto é um tal de J. J. Brody que nunca assina o nome completo, mas vende livros feito água e tem contatos privilegiados. Veja abaixo um retrato de ator imitando morcego, integrante da coleção particular dum contato de J. J. Brody [2], e outro prato achado num sítio arqueológico em Cameron Creek, que hoje pertence ao acervo do Frederick R. Weisman Art Museum, instalado nas dependências da Universidade de Minnesota, em Minneapolis, EUA. Para facilitar a análise, tomei a liberdade de reclassificar artefatos como M01, M02, etc.

 

M01 e M02.jpg

 

Não há morcegos hematófagos na biota do Novo México. A arqueóloga Amalia Kenward considerou sua experiência diante da colônia de morcegos na Feather Cave e identificou singularidades anatômicas na pintura policroma em Estilo III (1050-1150 d.C.) desenhada em M02. O quiróptero a ser morto em efigie era o Corynorhinus townsendii, da família Vespertilionidae, espécime carnívoro do México, EUA e Canadá.

Devotos do panteão Mogollon e Mimbres tinham de conviver com os morcegos residentes durante o culto regular no cenáculo ou inner sanctum, instalado no interior da referida caverna, que tem um pouco mais de dezoito metros de extensão. [3]

Entendo que a iconografia Mimbres transcende a intercessão destacável pela identificação taxonômica do totem Corynorhinus townsendii. Observando a cenografia em geral, percebe-se que a área não ornamentada nas cerâmicas M01 e M02 parecem mimetizar a radiância da luciferase dos vagalumes, fazendo a figura central emanar luz. A propósito, na única referência figurando um morcego sem grafismo corporal o animal é branco como a Lua (Ref. A326245 da reserva técnica do museu Smithsonian). [4]

 

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A fantasia do ator em M01 tem asas retangulares com desenho igual ao dum tabuleiro de xadrez; mas não existia jogo de xadrez naquela época e lugar, de modo que o ideograma necessariamente significa outra coisa. M02 aperfeiçoa minimamente a anatomia das asas do morcego sem, contudo, excluir a abstração em padrão xadrez que agora consta no interior dum círculo. É possível que o círculo nos remeta aos olhos falsos achados nas asas de algumas espécies de mariposas do gênero automeris, da família Saturniidae (contudo, o grafismo dentro da falsa íris inexiste na natureza).

James R. Cunkle opina que o xadrez representa a Via Láctea ou o céu estrelado, sugerindo voo noturno, nestas e noutras figurações que transcendem a possibilidade biológica. Personagens incapazes de voar seguem a trilha quadriculada em pinturas de cerâmicas produzidas por habitantes das margens do Pequeno Colorado, datadas entre os anos 900 e 1350. Até hoje os índios Hopi enunciam narrativas com personagens que usam a Via Láctea como estrada para andar no céu. [5]

Abaixo vemos mais dois pratos quebrados de cerâmica Mimbres pertencentes aos colecionadores anônimos com que J. J. Brody mantem contato. [6]

 

M03 e M04.jpg

 

Em M01, M03 e M04 o ator mantém os braços abertos e joelhos flexionados. Enquanto em M01 os quadrados estão posicionados como olhos falsos de mariposas, em M03 eles elegantemente encontram um lugar de estética privilegiada. Em M01 o interior do quadrado é todo xadrez. Em M03 há um sinal + em padrão xadrez. Em M01 e M04 as asas não são peças de pano presas aos pulsos, como acontecia na arte Maia do período clássico, especialmente nas vasilhas de chocolate provenientes de Chamá, Alta Verapaz (Guatemala), onde as asas de pano tinham desenho de olhos falsos.

J. Brody viu nisto indícios de imigração, aculturação e apropriação cultural. Todavia, um lapso temporal de cerca de cem anos e a distância que separa Alta Verapaz do vale do Rio Mimbres abala a credibilidade da hipótese de interação ou influência nas tendências da moda. É sabido que a arte Maia abandonou o padrão iconográfico mais específico por volta do ano 900, mudando-o radicalmente. Na cultura Mimbres o habito de matar pratos malvados teria começado no ano 1000 e perdurado até 1250.

Em M04 o ator na posição de mímica do morcego atua acima dum tapete xadrez. Um discreto par de sinais de + aparece num patágio de pano ou fundo escuro. Não é mais um + xadrez. Repare abaixo, em M06 que o padrão xadrez não foi utilizado. O signo + virou uma estrela de quatro pontas, dentro dum círculo, dentro dum quadrado. Um novo grafismo corporal surgiu no Corynorhinus townsendii. O signo nas asas do morcego em M07 é o mesmo tracejado que aparece no corpo do coelho malhado em M05, na barriga do quiróptero em M07 e na decoração circundante em M02.

Ignoro o que seja o tracejado em ziguezague, semelhante a raios e rios. O prato M07 provém de Pruitt Ranch, foi datado entre 1100 e 1150, e é parte da Bowen Collection (GP4955), do Arisona State Museum (ASM), no Arizona. A perícia desta instituição averiguou que o grafismo em ziguezague foi um dos “desenhos geométricos” típicos da cultura Mogollon e Salado, do ano 650 a 1450. [7]

M06 é uma fotografia publicada por um estudante de Princeton que a adquiriu com J. J. Brody [8]. Ou seja, muito provavelmente é uma destas preciosidades malocadas em local incerto e não sabido que nós nunca saberemos donde veio ou para onde vai.

 

M05 M06 M07.jpg

 

Em 1990 o astrônomo Ralph Robbins, professor da Universidade do Texas, interpretou o desenho em M05, onde o coelho simbolizaria a Lua sobre um círculo que emana 23 raios. Em Astronomia, M1 é a luz remanescente duma explosão de supernova vista na terra a partir de 04/07/1054. À época, registros japoneses e chineses atestaram a visibilidade do evento astronômico. O ponto luminoso apareceu perto da lua crescente. A luz da explosão foi visível da Terra durante 23 dias, à luz do dia, e por mais de 24 meses durante a noite. “Testes de carbono 14 demonstram que o prato não foi produzido antes de 1050 e que a localidade onde foi descoberto estava abandonada em 1070. O estilo artístico aplicado à peça não foi utilizado pela cultura Mimbres depois de 1100”. [9]

Outras imagens representam o eclipse lunar na forma de um crânio comendo um coelho. J. J. Brody estima que cerca de 26% dos desenhos Mimbres em vasos clássicos representam mamíferos que podem conter significados que vão além da biologia.

Michael Coe, Dean Snow e Elizabeth Benson opinaram, sobre M01, que a imagem pintada em vermelho e laranja, sobre fundo branco, “combina os atributos de homem, morcego e veado, talvez indicadores de uma transformação xamanística”.[10]

Em M01, M03 e M04 os atores usam roupas que cobrem o corpo inteiro. Não há como determinar o sexo de atores ou personagens. Em M01 e Em M03 as asas são estruturas sólidas e firmes, possivelmente de madeira. No Novo México humanos nunca usam máscara de morcego. Em M01 o ator usa coroa de chifres e orelhas de veado. Em M03 é um grampo conjunto de penduricalho e penacho. Em M04 ele usa um chapéu com asas dum pássaro preto empalhado.

Presumo que o modo de figurar a cabeça não era importante. A cultura Mimbres se fragmentou no século XIII, quando grupos remanescentes se misturaram aos Anasazi e outras culturas. Os povos Hopi, Zuni e Pueblo descendem destes últimos. Eles ainda pintam morcegos (em maioria de forma abstrata) e homens morcego como o ator sem cabeça que interpreta a mímica num jarro da ceramista Priscilla Namingha Nampeyo (1924-2008), de etnia Hopi (Ref. 298 à venda na galeria de arte Cultural Patina).[11]

 

Native American Hopi Pottery.jpeg

 

No folclore norte-americano o Pássaro do Trovão (Thunderbird) não costuma ter a cabeça sobre o pescoço. As vezes a face está no busto ou o corpo inteiro é um monte de cabeças verticalmente empilhadas. O Homem Borboleta (Mothman) também não tem cabeça visível. Só dois grandes olhos no busto. O Homem Borboleta é um gigante com asas de morcego na lenda urbana das grandes metrópoles onde indígenas não pisam. Ele surgiu no século XX como uma ponte benfazeja entre colonizado e colonizador.

 

Notas:

 

[1] COE, Michael, SNOW, Dean e BENSON, Elizabeth. A América Antiga: Civilizações pré-colombianas. Vol. I. Madrid, Edições Del Prado, dezembro de 1996, p 72.

[2] BRODY, J. J. Brody; SCOTT, Catherine J. & leBLANC, Steven. Mimbres Pottery: Ancient Art of the American Southwest.  New York, Hudson Hills, 1983, p 18-19.

[3] KENWARD, Amalia. Mimbres Bowl. Impresso na revista Archaeology (Volume 61, número 3, edição de Maio/Junho de 2008), uma publicação do Archaeological Institute of America, e em sua versão online. URL: <http://archive.archaeology.org/0805/etc/artifact.html>

[4] ZABRISKIE, Sarah. Mimbres Pottery. Publicado no portal do Smithsonian: National Museum of Natural History. Acessado em 16/06/2017. URL: <http://anthropology.si.edu/cm/mimbres.htm>

[5] CUNKLE, James R. Talking Pots: Deciphering the Symbols of a Prehistoric People: A Study of the Prehistoric Pottery Icons of the White Mountains of Arizona. USA, Primer Pub, 1993, item “checkerboard patterns” e p 178.

[6] BRODY, J. J. Brody; SCOTT, Catherine J. & leBLANC, Steven. Mimbres Pottery, p 189.

[7] Exposição e catálogo virtual do Arisona State Museum. Acessado em 12/05/2016. URL: <http://www.statemuseum.arizona.edu/exhibits/pvia/wall_of_pots/shelfpgs/column1_shelf4.shtml>

[8] MIMBRES BLACK-ON-WHITE. Publicado em: Incridible Art. Acessado em 16/06/2017, 13h51. URL: <http://www.incredibleart.org/files/mimbres.htm>; primeiramente acessado em 2015, quando ainda publicado no portal Princeton Online. URL (desativada): <http://www.princetonol.com/groups/iad/Files/mimbres.htm>

[9] GARFINKLE, Robert A. Star-Hopping: Your Visa to Viewing the Universe. Reino Unido, Cambridge University Press, 1997, p 67-68.

[10] COE, Michael, SNOW, Dean e BENSON, Elizabeth. Obra citada, p 73.

[11] BRINNING, Dennis. Native American Hopi Pottery: Exceptional Very Large Vintage Hopi Pottery Olla by Priscilla Namingha Nampayo #298. Anúncio de venda na galeria de arte Cultural Patina. Acessado em 26/06/2017, 21:49. URL: <https://www.culturalpatina.com/collections/american-southwest-pottery?page=2>