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Sussurros Sinistros

Sussurros Sinistros

Um rosto de baixo d'água...

Em abril de 2011 a empresa petrolífera norueguesa Statoil contratou o serviço do Estúdio Platinum FMD para criar uma propaganda comemorativa da inauguração das atividades da Plataforma Peregrino, na costa brasileira. Porém neste mundo nem todos estão felizes com o fato do Brasil declarar a extensão de até 200 milhas da costa como sua zona econômica exclusiva. Havendo manifesta intenção do artista em representar a distante região abissal – de profundidade igual ou maior que 2.000 m² –, como território brasileiro, foi necessário distorcer a realidade encurtando a imensidão da área submarina... Esta imagem do Pão de Açúcar trabalhada na forma de puffing foi então divulgada oficialmente pela Statoil e, depois, subsidiariamente pelo blog da Universidade Paulista (Unip), acabando por virar hoax nas redes sociais.

  

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Os contadores de estórias cortaram a legenda que explica a metáfora.[1] Ao invés disso atribuíram a autoria da secção fictícia ao núcleo de pesquisa da inexistente Universidade de São José dos Campos, supostamente responsável pelo estudo de impacto ambiental requerido pela “indústria de petróleo e gás”.[2]

A intenção de prejudicar a Statoil é evidente, pois o que vemos aqui é um rosto submerso que poderia ser facilmente interpretado como uma colossal ruína arqueológica integrando a morfogênese da Baía de Guanabara, tendo como referência o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. No Brasil não se pode trabalhar em paz sem driblar muita burocracia, quando o assunto é causar mudanças em sítios arqueológicos. Enfim, não é admirável que o hoax termine com a exclamação: “Obrigado, DEUS!!!” Pois não é todo dia que alguém paga uma pequena fortuna a um excelente artista surrealista (ou opositor político infiltrado) a fim de atirar no próprio pé.

Isto, claro, se não supormos que a Statoil fez a zoeira intencionalmente para que o crentelho, vendo, reclamasse e produzisse propaganda gratuita em prol da proteção de rostos de pedra... Para depois, finalmente, usar a comoção nacional em favor do resgate da Pedra Santa caída na lagoa Rodrigo de Freitas – conforme se pode deduzir pela evidência na aquarela paisagística de Robert Streatfeild (1786-1852) exposta no Museu Imperial, em Petrópolis, RJ. – Ato que, antes, implicaria em liberações de verbas astronômicas para o projeto de despoluição da lagoa Rodrigo de Freitas, valorização e desapropriação de terrenos no caminho do entorno até a praia da Barra da Tijuca, sem a bênção do estudo de impacto ambiental da UNESA.

Quando a foto alterada circulou nas redes sociais, a partir de fevereiro de 2014, muita gente acreditou que era real. Outros poucos racionalizaram a respeito das imperfeições da fraude. Por exemplo, ao ler o falso enunciado que atribuía profundidade de trezentos metros à área submersa, Alex Chaves viu que a foto mostra um declive maior que o próprio morro: “O Pão de Açúcar tem 396 metros de altura. Como pode a profundidade ter 300?” Edu Kossatz respondeu: “Mergulho em toda a região, e a profundidade máxima na Ilha Rasa é de 43m, já bem longe da costa. No naufrágio CT Paraíba, a 15 milhas, a máxima é de 55m. Somente a partir de umas 30 milhas (ou mais) a profundidade começa a chegar aos 100m. Basta olhar qualquer carta náutica”.

Quando tudo parecia solucionado apareceu um teórico da conspiração apresentando as razões de sua fé: “O Bateau Mouche IV afundou ali, ao lado do Morro da Urca, em 1989, e não era fundo assim... De estranhar!” Claro, pois os OSNIs criam placas tectônicas para furtar água da superfície ou o Diabo comediante abre as vezes a boca do Inferno para tragar navios e aeronaves.

 

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Como sempre, a maioria dos céticos percebe genericamente o problema sem, contudo, ser capaz de contestar aquilo que lhe incomoda por absoluta falta de conhecimento na matéria. Edgard Matsuki publicou uma matéria no blog Boatos a fim de fornecer um link para essa gente copiar e copilar em paz. Seu principal argumento é de que a foto mostra um ângulo como se o Pão de Açúcar estivesse em um aquário: “Nem a mais moderna câmera fotográfica do mundo conseguiria tirar uma foto neste ângulo. Se tirada de fora da água, seria impossível ver o fundo do mar. Se fosse tirada abaixo d’água, seria impossível uma imagem tão nítida do morro. Com esses indícios, podemos afirmar que (...) é mais uma fotomontagem que circula na internet”.[3]

 

Notas:

 

[1] Originalmente estava escrito: “Quando alguém chega ao Rio, vai direto para o Pão de Açúcar. Nós viemos para um lugar diferente. Hoje estamos comemorando a retirada dos primeiros barris de petróleo da Plataforma Peregrino localizada na costa brasileira. Uma oportunidade de colocar em prática nossos 40 anos de experiência, nossa tecnologia de ponta e a vontade de trabalhar com grandes desafios para extrairmos petróleo das áreas mais profundas do subsolo marinho. E isso é apenas o começo. Afinal, para nós é um orgulho contribuir para receber o sonho de todo brasileiro: Ver seu país crescer cada vez mais. – Statoil”.

[2] FILHO, Celso & VASCONCELLOS, Pâmela. “Correntes no Facebook: Saiba separar as verdadeiras das mentirosas”. Publicado na edição online do jornal Estadão, em 08/04/2014 | 15h 05. URL: < http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,correntes-no-facebook-saiba-separar-as-verdadeiras-das-mentirosas,181447e>

[3] MATSUKI, Edgard. “Hoax: Foto de Pão de Açúcar mostra abismo no mar do Rio de Janeiro”. Publicado no blog Boatos.org em 23/02/2014. URL: <http://www.boatos.org/meio-ambiente/hoax-foto-de-pao-de-acucar-mostra-abismo-mar-rio-de-janeiro.html>

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